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As curvas de Brasília

 Um caso de amor. Um caso de amor por Brasília. Ela, cientista política. Ele, arquiteto. Em 2010, Rafael Ineco fez um curso no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para tentar impulsionar seu negócio, um escritório de arquitetura. Quase como uma brincadeira, o curso tinha como tarefa criar um “mininegócio” e torná-lo real no prazo de uma semana. A esposa, Thatiana Dunice, ajudou-o a fazer camisetas artesanais, daquelas que você compra transfers e fixa com ferro de passar roupa.

 

O segredo estava nas estampas: arquitetura e urbanismo na capital, baseadas nos traços de Niemeyer, Lúcio Costa, Athos Bulcão. Familiares e amigos adoraram, o que estimulou o casal, mesmo com bons empregos, a investir naquilo. “Somos apaixonados por Brasília e Oscar Niemeyer; não poderíamos parar”, lembra Thatiana. A primeira vez que saíram à rua para vender suas camisetas foi totalmente no improviso. Abriram o porta-malas do carro, no estacionamento de um supermercado. “Foi muito bom para sentir a reação do morador da cidade ao que fazíamos. Pressentimos que daria certo”.

 

A partir daí, o negócio começou a se profissionalizar e ganhou um nome apropriado: BSB Memo. Os produtos passaram a se multiplicar, com destaque para plaquinhas de identificação, verdes, finas, retangulares, iguais às utilizadas para sinalizar a cidade, presentes em qualquer esquina da cidade onde, dizem, não há esquinas. Em Brasília, as placas indicam monumentos e superquadras. Na BSB Memo, elas apontam para seu quarto, sua sala de estar, seu salão de jogos, tudo personalizado. Há, ainda, ímãs de geladeira, azulejos decorativos e várias outras coisas.

 

O negócio saiu de casa também. Depois de uma temporada em uma loja colaborativa e feiras itinerantes, a cientista política Thatiana deixou seu emprego público e abriu uma loja física, há cinco anos, na Asa Norte de Brasília. A ideia é ter suvenir da cidade, mas não as miniaturas de sempre, que se veem em qualquer lugar; algo estilizado, com bom gosto, com toques de arquitetura. “O principal é que buscamos uma releitura das obras de arte ao ar livre que habitam Brasília”, explica Thatiana. “É algo que se conecta emocionalmente com nosso público”, completa.

 

Pontos de Virada 

* Criação é a chave do negócio.
* Experiência familiar e afetiva.
* Cursos preparatórios para enfrentar o mercado.
* Identidade com a cidade.
* Da loja colaborativa para a loja física.

 

Terroir mineiro

 

A cidade é pequena, tem pouco mais de 40 mil habitantes. Fica no norte de Minas, no Vale do Jequitinhonha, distante longos 650 quilômetros da capital, Belo Horizonte. Tinha tudo para ser mais um daqueles pequenos vilarejos brasileiros, esquecidos pelo mundo. Mas não! Estamos falando de Salinas, local que tem um dos terroirs mais importantes do país e produz um produto hoje considerado de luxo: a cachaça.

 

Demorou, mas finalmente o Brasil está conseguindo valorizar sua bebida original, como fazem os franceses há séculos. O terroir (a terra do plantio), seus sabores, características, sabores, afetos e, sim, história fazem o vinho de Bordeaux, na França, como também a cachaça de Salinas. Para tanto, há uma especial certificação que garante o sucesso da bebida: a Denominação de Origem.

 

Há cerca de quatro anos, sob a supervisão da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) local, cerca de 54 marcas da região (de Salinas e outras pequeninas cidades produtoras à sua volta) embarcaram no desafio de ter seu “Selo Identificação Geográfica”, algo que garantisse a qualidade do produto. “Estamos no melhor solo do Brasil para o plantio da cana. As terras daqui são férteis, como as famosas margens do Nilo”, comenta Cézar do Carmo, técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e presidente da CDL Salinas. “Temos estações bem definidas de chuva e seca, o que torna nossa cana mais doce, com mais açúcar; a produção é maior e de mais qualidade”, acrescenta.

 

O fato de Salinas ser a cidade da cachaça, com a marca mais famosa do país (Havana, com garrafas que chegam facilmente a R$ 200,00 ou mais) e a cachaça mais conhecida botecos afora (Salinas), divide um pouco a cidadezinha. “Essa cachaça é uma bebida sofisticada, não deixa bêbado fácil, é para degustar”, explica Carmo. “Mesmo assim, há uma ala religiosa da cidade que não entende isso muito bem”, lamenta.

 

O fato é que as cachaças de Salinas são um poderoso dispositivo financeiro para a região. Em 2015, representaram 46% de todo o Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) da cachaça mineira. A produção anual é de três milhões de litros, com faturamento em torno de R$ 30 milhões ao ano. “O mais importante de ter feito um selo de identificação foi garantir a qualidade dos produtos, inclusive, para o mercado internacional”, explica Carmo. “As pessoas não sabem, mas há muita falsificação de cachaça, o que desvaloriza o produto como um todo”, conclui.

 

 

Pontos de Virada 

* Investimento em tecnologia e desenvolvimento.
* Olhar para o mercado internacional.
* Produto certificado.
*  Identidade com a cidade.
* Reunião de várias marcas em torno de um mesmo objetivo.

 

* Salto: produção que, há pouco mais de uma década, ainda era chamada “artesanal” agora atinge faturamento de R$ 30 milhões por ano.

 

FRASE:

“O solo de Salinas é como as margens do rio Nilo: fértil.” Cézar do Carmo

 

* Salto: de uma produção inicial de pouco mais de dez camisetas, passaram para 200 placas e 50 camisetas por mês, numa linha com 20 produtos, em sete anos. Do porta-malas para uma loja fixa.

 

FRASE

“Acho que meu negócio deu certo porque amo Brasília. Nunca morei e nunca moraria em outro lugar.” Thatiana Dunice

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