Movimento Varejo

Saiba porque a CNDL mudou os rumos do varejo nacional

Há 60 anos, a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas foi pioneira no fortalecimento do movimento varejista e se firmaria como uma das entidades representativas mais importantes do país

Registro da 2° Convenção Nacional do Comércio Lojista, no Teatro Auditório Mesbla, no Rio de Janeiro, quando foi aprovado o estatuto para a criação do Clube de Lojistas do Brasil, que mais tarde passaria a ser chamar Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas

No próximo dia 21, a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) comemora 60 anos. Mais do que uma efeméride, a data marca o desenvolvimento de uma entidade que se firmou como a principal representante do varejo brasileiro. Um crescimento que se deu pari passu ao do próprio comércio, um setor que ao longo dos anos tornou-se peça fundamental nas engrenagens da economia brasileira. Hoje, calcula-se que ele seja responsável por 76% do PIB nacional e por 17 milhões de trabalhadores com carteira assinada.

Por sua vez, a CNDL se transformou em uma entidade gigante, com uma capilaridade que inveja setores públicos e privados. Ela é composta por duas mil entidades autônomas, as chamadas Câmaras de Diretores Lojistas (CDLs), que juntas reúnem 500 mil empresas em 1,4 milhão de pontos de venda, e são responsáveis por 5% do PIB nacional, algo como R$ 340 bilhões por ano e cinco milhões de empregos formais.

Mas nem sempre foi assim. Há 70 anos, o setor de comércio e serviço brasileiro pautava-se por métodos tradicionais. Naquele tempo, início dos anos 50, os armazéns ainda eram o espaço central nas comunidades, os atendimentos em lojas eram feitos no balcão e o primeiro supermercado do Brasil, o Sirva-se S.A, de São Paulo, só viria a ser inaugurado em 1953.

Foi nesse ambiente que o nascente movimento varejista começou a dar os seus primeiros passos. Primeiramente entre 1954 e 1955, com o Surgimento do Movimento Lojista Brasileiro e a constituição dos primeiros Clubes de Diretores Lojistas. O primeiro na cidade de São Paulo, nomeado Clube de Diretores de Lojas a Varejo de São Paulo, fundado por representantes de 30 comércios lojistas paulistanos. Não tardou e os empresários passaram a se organizar nas principais capitais: Porto Alegre, Recife, Salvador, Florianópolis e Santos.

Bancos de dados do SPC nos primeiros anos da instituição. Fichas em papel de milhares de clientes. Foto: Arquivo CNDL

O impulso do crédito
Em julho de 1955 houve a criação do primeiro Serviço de Proteção ao Crédito do Brasil, uma iniciativa de empresários de Porto Alegre. O órgão surgiu com a elaboração de um fichário com o nome de compradores a prazo que não pagavam suas compras. Foi uma iniciativa que permitiu a troca de informação entre comerciantes e deu mais segurança ao crédito.

Em novembro daquele mesmo ano surgiu o Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro, originária do Sindicato dos Lojistas do Município. A entidade, ainda como sindicato, se organizou a partir da viagem dos integrantes do sindicato à National Retail Federation (NRF), em Nova Iorque, o maior evento do varejo do mundo. “Lá os empresários tomaram conhecimento da existência de um Cadastro Central de Consumidores inadimplentes. Eles gostaram da ideia, retornaram ao Brasil e quiseram fazer o mesmo tipo de organização aqui, um embrião de um sistema semelhante ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC)”, explica Aldo Carlos de Moura, dirigente do Clube de Diretores Lojistas do Rio de Janeiro (CDL-RJ).

De fato, o interesse pela expansão e segurança do crédito era central para o comércio e serviu como impulso para diversas organização verejistas. O sistema de aprovação de um parcelamento era complexo e levava até 20 dias para a aprovação ou não do negócio, o que ajudava a derrubar muitas vendas. “Naquela época, para avaliar a concessão de crédito para o consumidor, os lojistas tinham que percorrer um longo caminho, usando os serviços dos visitadores e informantes profissionais”, explica Aldo.

“Nosso sistema surge exatamente da necessidade de um crediário seguro para os lojistas. Foi um processo que passou por fichários, sistema de telefones até chegar ao nível que temos hoje, de alta performance, tecnologia e adoção de um cadastro positivo”, explica do presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, José César da Costa.

Apesar da organização do CDL–RJ ter se dado em 1955, apenas em 1960 que foi feito o primeiro registro de uma entidade varejista nacional. Foi em 21 de outubro, durante a 2° Convenção Nacional do Comércio Lojista, no Teatro Auditório Mesbla, no Rio de Janeiro, quando foi aprovado o estatuto para a criação do Clube de Lojistas do Brasil. No dia seguinte foi eleita a primeira diretoria da organização. O Sr. Benedito Pierrotti Filho (foto), ex-diretor do CDL-RJ, foi eleito o primeiro presidente do Clube dos Lojistas do Brasil, que mais tarde viria a ser a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas.

Como pontos primordiais do estatuto estavam a promoção e a aproximação entre os dirigentes de lojas de varejo para estreitar as relações de amizade e solidariedade entre lojistas. Era o associativismo em sua expressão máxima, um valor que acompanharia a CNDL durante toda a sua existência.

Uma jornada de luta
A partir da sua criação, a entidade não parou de crescer. No primeiro ano, o número total de Clubes Lojistas era de 21 entidades. Em 1965, totalizava 50 Clubes por todo o país. Quinze anos depois, já como a sigla CNDL, a entidade era composta por 277 CDLs, com mais de 14 mil empresários do setor.

A expansão dos associados se dá em um período de grandes transformações no pais. Se nos anos 60 e 70 havia o esforço de consolidação da entidade, nos 80 a CNDL teve que lidar com questões práticas. Com a inflação descontrolada, e taxas de juros que chegavam a 23% ao mês, o país entrou em uma espiral de recessão que duraria mais de uma década e que colocaria empresários e varejistas em uma situação inusitada. Eles, que sofriam com a desorganização das contas públicas e com um sistema tributário injusto e ineficiente, foram taxados como os vilões da remarcação de preços.

Era comum ver os “Fiscais do Sarney” cantando o Hino Nacional e aplaudindo as autoridades que fechavam as portas dos estabelecimentos comerciais por não seguirem à risca o tabelamento artificial dos preços. “Durante os planos econômicos do governo Sarney, fiscais da Superintendência Nacional de Abastecimento (SUNAB) tratavam os empresários como bandidos”, lembra Gerson Gabrielli ex-Presidente da CNDL nos anos 90.

Abaixo, trecho de uma matéria da TV Globo de 1986 mostrando os “Fiscais do Sarney”

“O Collor, por exemplo, se elegeu batendo nos empresários e defendendo os descamisados. Nosso setor foi desqualificado, humilhado. Os comerciantes não queriam que seus filhos os sucedessem nas empresas. Preferiam que se tornassem funcionário público ou outra profissão qualquer, menos comerciantes”, relembra Gabrielle.

Segundo o dirigente, naquele momento o sistema se uniu e iniciou uma reação baseada em campanhas pela unidade e valorização do setor. É o que Gabrielli chama de “Revolução dos Pequenos”. “Nós fomos para as ruas em Goiânia, em Minas Gerais, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e Bahia. Fomos dizer: “eu tenho orgulho de ser lojista”, conta.

“Nos juntamos às Confederações Nacionais do país e pressionamos o Congresso Nacional para que entendessem a importância do nosso setor. Para ser ter uma ideia, não existia estatística em relação ao comércio, porque quando passava um plano econômico, ele dizimava os negócios do varejo”.

A partir dali a CNDL passa a se organizar e se mostrar mais influente. Em 1993, o então ministro da economia do governo Itamar Franco, o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso, participou da 34ª Convenção Nacional do Comércio Lojista. Ao lado dele estava o tributarista Ives Gandra Martins. No encontro, os lojistas defenderam a realização de uma Reforma Constitucional para dar continuidade ao projeto de redução da intervenção do Estado, iniciado por Fernando Collor.

Manifestação da CNDL pela reforma tributária. Uma mobilização que já havia iniciado nos anos 90. Foto: Arquivo CNDL

Batalhas e vitórias
Muitos veem aquele momento como um ponto de inflexão da CNDL, que passou a ser mais ativa e reativa. Foi nesse período, por exemplo, que a CNDL se lançou na campanha por uma reestruturação do sistema tributário brasileiro. A entidade chegou a colocar duas mil pessoas nas ruas de Goiânia com faixas a pedindo a reforma tributária.

A CNDL também foi uma das primeiras a enfrentar CPMF como instrumento de tributação. Com grande atuação no Congresso Nacional, derrubou o imposto e se firmou como uma voz no âmbito do Legislativo. “Essa foi uma grande vitória do nosso sistema. A partir daí, passamos ser respeitados dentro do Congresso Nacional. Para isso, foi preciso reunir um grupo de parlamentares que, primeiro, escutou as ideias da instituição e, depois, acreditaram que essas ideias seriam o melhor para o Brasil”, diz Roque Pellizzaro, presidente da CNDL naquele período.

Essa foi a gênese da Frente Parlamentar de Comércio e Serviços, uma associação de deputados e senadores, de caráter suprapartidário, destinada a defender e promover políticas públicas para o setor, e que até hoje tem grande influência nas atividades do Congresso.  

 Outra prova de força foi a participação decisiva na luta pelo fim do duopólio das maquininhas de cartão de crédito, uma ação que garantiu um mercado mais aberto e a redução drástica dos custos de operações com cartões no Brasil.

“A quebra do duopólio das maquininhas do cartão de crédito foi a 1ª vitória sobre o que todo mundo dizia ser impossível ser vencido. Era um mercado fechado, muito pouco compreendido pelos empresários”, diz Roque. “Essa conquista gerou robustez política e nos ensinou a acreditar que o impossível não existe quando estamos unidos”, diz.

Deputado Efraim Filho (DEM-PB), presidente da Frente Parlamentar de Comércio e Serviço. “A CNDL tornou-se defensora e promotora confiável dos interesses dos pequenos empresários”

O deputado Efraim Filho (DEM-PB), presidente da Frente Parlamentar de Comércio e Serviços, reconhece o peso da CNDL nas discussões da Câmara e do Senado. Para ele, a instituição é hoje fonte de informação e de contribuição dos parlamentares. “A CNDL, ao longo dos anos, acabou exercendo uma representação muito forte do setor do comércio e serviço dentro do parlamento. Hoje, sem dúvida, ela tornou-se uma defensora e promotora confiável dos interesses dos pequenos empresários, trabalhando duro para ter uma legislação alinhada aos interesses de seus membros”, diz o deputado.

Para o deputado, a Confederação tem algumas qualidades que a credenciam para ter espaço no parlamento, um feito que, segundo ele, é uma tarefa muitas vezes difícil. “Ela, por exemplo, sempre está aberta para debates que moldam a formação das políticas econômicas no setor. Nesse sentido afirmo que a entidade comemora 60 anos cumprindo os compromissos com seus membros, a sociedade e com a política econômica de desenvolvimento do Brasil”, elogia.

Novos desafios e o associativismo
Hoje a CNDL se firmou como player das grandes decisões nacionais. Possui estrutura sólida e liderança reconhecida. É ouvida não somente nas atividades legislativas, mas também nas decisões do Executivo. Mas ainda é nas ações junto aos seus associados que ela revela sua importância.

“A atuação da CNDL possibilita que todos os estados tenham voz na luta pelas causas do setor varejista”, diz José Carlos Magalhães Pinto, presidente da CDL – DF, que lembra que a força da instituição está na união de seus membros, uma marca do associativismo, valor primordial da CNDL. “O associativismo sempre foi fundamental na Confederação. É graças a ele que conseguimos alcançar nossos objetivos”, diz.

O presidente da CNDL concorda. Segundo ele, desde a criação da entidade, foi o associativismo que manteve a Confederação em constante estado de evolução e de superação, e cita o ano de 2020 e a pandemia do Novo Coronavírus como exemplo de eficiência do modelo.

“O comércio tradicional foi um dos setores mais atingidos pelo isolamento social e teve que se reinventar para não desaparecer”, explica José César. “Assim que percebemos o tamanho do problema, ativamos o nosso sistema para que as lideranças trouxessem sugestões e demandas para o enfrentamento da crise. Trabalhamos campanhas, sugerimos medidas e compartilhamos experiências bem-sucedidas entre os associados. Foi uma linda lição de cooperação que salvou muitos negócios”, diz o presidente.

Segundo ele, o momento atual do varejo é de grande transformação tecnológica e de mudanças no relacionamento com o cliente e nos meios de pagamento, mas o espírito associativista seguirá sendo o esteio para o sistema CNDL. “Estamos atentos às inovações e sabemos que teremos que nos adaptar para esse novo momento do comércio, cada vez mais digital, multicanal e de experiência. Já estamos fazendo isso. Mas também sabemos que o que nos trouxe até aqui tem seu valor. O trabalho conjunto, a parceria e a união do sistema seguirão sendo a nossa força maior da CNDL”.

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