Opinião

Tem, mas acabou!

Por Luciana Lima

loja_base

Estratégias de vendas podem funcionar por caminhos bastante diversos, que, muitas vezes, nem imaginamos ou percebemos. Uma situação no mínimo esdrúxula ocorreu comigo em uma loja de roupas no estilo surfwear. A intenção era comprar uma camisa, com prancha e onda, que me desse um ar mais descontraído que aquela cotidiana roupa de trabalho.

Na vitrine, o modelo ideal, só que dois números a menos. Coragem! Entrei na loja e o prestativo atendente, que já me observava do lado de fora, se aproximou:

– Bom dia! Pois não?
– Bom dia! Você poderia, por favor, ver para mim uma camisa dessas, só que de um tamanho maior? Tamanho G, acredito.
– Claro, só este modelo mesmo?
– Sim. Enquanto isso, vou dar uma olhada no resto da loja.

Ele se foi e eu mergulhei no colorido das araras em busca de outra inspiração para minha pronta inserção no mundo descontraído do surf. Nem percebi os longos minutos em que o vendedor se escafedeu no labirinto do estoque.

Ele voltou de mãos vazias, o que me fez concluir de imediato que, do meu tamanho, nada tinha ali. Indaguei:

– E aí? Tem meu número?
– Tem, mas acabou.

A resposta me fez passar alguns segundos inerte, tentando entender a treta retórica. Acabei capturada por ela e me joguei, então:

– Se tem, quero uma.
– Mas eu disse que acabou.
– Então, não tem aqui nesta loja. É isso que você quer me dizer?
– Não, não é isso. Tem, sim, mas acabou.
– Ah, você quer dizer que existe, mas não tem aqui?
– Não, tem sim, mas acabou.

A conversa, que já se alongava com o atendente, chamou a atenção dos demais vendedores. Eu já não sabia se surfava com a primeira parte da resposta ou com a segunda:

– Se tem, quero uma, na cor verde.
– Já disse que acabou.
– Então, tudo bem, fica para uma próxima oportunidade.
– Mas tem – insistiu ele.

E assim permanecemos por mais alguns minutos, estatelados no meio da loja. A pendenga nos unia, apesar da intransigência de ambos.

Olhando pelo retrovisor, se era estratégia de venda ou não, pouco importava em meio à discussão. O interessante é que ela funcionou. Enquanto nossas retóricas se digladiavam, meus olhares já buscavam outras peças e alguns presentinhos para os filhos.

A solução para minha incursão no surfwear passou a ser um vestidinho bem vaporoso, estampado com flores, que virou meu preferido por um bom tempo. Este tinha, mas não tinha acabado.

Compartilhe:
Relacionadas
Opinião

Será que perdemos a bússola?

O WhatsApp foi uma das soluções imediatas encontradas, que ajudou e ajuda ainda muitos “CNPJs” a se manterem vivos e respirando diante do ápice da doença no ano passado. Com a ferramenta institucionalizada como um dos principais canais, ou o principal canal, de comunicação com clientes, empresas viram seu diálogo com o consumidor parar bruscamente, tendo pouco a fazer para o momento. Compartilhe:
Opinião

Por que os dados são cada vez mais importantes no varejo físico?

inteligência extraída a partir dos insights gerados por essas informações abre novas oportunidades para as empresas – e fica inviável retornar ao cenário anterior baseado apenas no achismo e na experiência dos empresários. Compartilhe:
Opinião

Respostas para o comércio e serviços

Entre os dias 28 e 29 de setembro, Brasília vai abrigar o maior encontro do varejo do Brasil. Trata-se do V Fórum Nacional do Comércio, organizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas. O encontro vai reunir formadores de opinião, empresários, dirigentes, políticos e especialistas para debater temas da economia, da gestão empresarial e das políticas que norteiam um segmento que congrega 500 mil empresas e movimenta R$ 340 bilhões. Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.