{"id":31105,"date":"2026-04-25T11:55:33","date_gmt":"2026-04-25T14:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/?p=31105"},"modified":"2026-04-14T14:34:56","modified_gmt":"2026-04-14T17:34:56","slug":"o-varejo-nao-esta-apenas-adotando-ia-esta-entrando-em-uma-nova-logica-de-decisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/o-varejo-nao-esta-apenas-adotando-ia-esta-entrando-em-uma-nova-logica-de-decisao\/","title":{"rendered":"O varejo n\u00e3o est\u00e1 apenas adotando IA, est\u00e1 entrando em uma nova l\u00f3gica de decis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Por muito tempo, falamos sobre transforma\u00e7\u00e3o digital no varejo como uma agenda de canal, efici\u00eancia e conveni\u00eancia. A IA amplia essa discuss\u00e3o: ela passa a influenciar a forma como a compra \u00e9 decidida, recomendada e executada.<\/p>\n<p>O varejo sempre foi reescrito pela tecnologia. A hist\u00f3ria do setor mostra isso com clareza: a manufatura ampliou escala e padroniza\u00e7\u00e3o, a web consolidou o e-commerce, e o mobile transformou conveni\u00eancia em expectativa. A diferen\u00e7a, agora, \u00e9 que a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o atua apenas sobre a opera\u00e7\u00e3o ou sobre a experi\u00eancia; ela come\u00e7a a interferir diretamente na constru\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de compra. Essa \u00e9, na minha vis\u00e3o, a mudan\u00e7a mais profunda em curso.<\/p>\n<p>No Brasil, essa discuss\u00e3o acontece em um setor que segue robusto, mas mais heterog\u00eaneo. O com\u00e9rcio varejista nacional encerrou 2025 com alta de 1,6%, no nono ano consecutivo de crescimento. Ao mesmo tempo, o varejo ampliado praticamente ficou est\u00e1vel, com varia\u00e7\u00e3o de 0,1%, mostrando que o desempenho do setor est\u00e1 longe de ser uniforme. Entre as atividades com melhor resultado no ano, o IBGE destaca artigos farmac\u00eauticos, m\u00e9dicos, ortop\u00e9dicos e de perfumaria, al\u00e9m de m\u00f3veis e eletrodom\u00e9sticos, ambos com alta de 4,5%. J\u00e1 hiper, supermercados, produtos aliment\u00edcios, bebidas e fumo cresceram 0,8%. O dado \u00e9 importante porque mostra um varejo que cresce, mas em ritmos e press\u00f5es bastante distintos entre categorias.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o digital continua avan\u00e7ando como parte estrutural do consumo. Os dados hist\u00f3ricos consolidados pela ABComm mostram que o faturamento do e-commerce brasileiro saiu de R$ 126,45 bilh\u00f5es em 2020 para R$ 204,27 bilh\u00f5es em 2024. Mais do que um crescimento expressivo, esse n\u00famero mostra que o ambiente digital j\u00e1 n\u00e3o pode ser tratado como ap\u00eandice da opera\u00e7\u00e3o principal. Ele \u00e9 parte do varejo real, com efeito direto sobre sortimento, pricing, relacionamento, m\u00eddia, log\u00edstica e recorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas o ponto mais interessante n\u00e3o est\u00e1 apenas no quanto o digital cresceu. Est\u00e1 em como a IA muda a natureza da jornada. H\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre a compra com inten\u00e7\u00e3o clara e a compra consultiva.<\/p>\n<p>Na Compra com Inten\u00e7\u00e3o, o cliente sabe o que quer: repor um item, comprar uma marca conhecida, resolver uma necessidade objetiva com rapidez. Na Compra Consultiva, ele chega com uma d\u00favida, uma necessidade difusa ou um problema ainda mal formulado. Quer resolver, mas ainda n\u00e3o sabe exatamente com qual produto, combina\u00e7\u00e3o ou servi\u00e7o. Essa diferen\u00e7a sempre existiu no varejo, mas o que muda agora \u00e9 a capacidade da IA de atuar justamente nesse espa\u00e7o entre inten\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que vejo a IA como particularmente estrat\u00e9gica em categorias nas quais contexto, orienta\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a t\u00eam peso relevante. Beleza, sa\u00fade, casa, decora\u00e7\u00e3o, nutri\u00e7\u00e3o, eletr\u00f4nicos e at\u00e9 alimentos em determinadas miss\u00f5es de compra s\u00e3o exemplos claros. Em todos esses casos, n\u00e3o se trata apenas de oferecer SKU, pre\u00e7o e entrega. Trata-se de interpretar a necessidade, reduzir complexidade, comparar alternativas e aumentar a seguran\u00e7a da escolha. Em outras palavras, o valor deixa de estar apenas no acesso \u00e0 oferta e passa a estar, cada vez mais, na qualidade da media\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa leitura encontra respaldo no que os analistas v\u00eam chamando de agentic commerce. Pesquisas projetam que, at\u00e9 2030, o varejo <a href=\"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/tag\/thoughtworks\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">B2C<\/a> dos Estados Unidos pode ter entre US$ 900 bilh\u00f5es e US$ 1 trilh\u00e3o em receita orquestrada por agentes de IA. Globalmente, a estimativa chega a algo entre US$ 3 trilh\u00f5es e US$ 5 trilh\u00f5es. Mais importante do que o tamanho da cifra \u00e9 a premissa por tr\u00e1s dela: a compra tende a migrar de uma navega\u00e7\u00e3o fragmentada por sites, apps e plataformas para fluxos mais integrados, guiados por inten\u00e7\u00e3o, contexto e automa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os dados tamb\u00e9m acrescentam uma camada estrat\u00e9gica importante a essa discuss\u00e3o. O estudo mostra que a IA j\u00e1 responde por at\u00e9 um quarto do tr\u00e1fego de refer\u00eancia para alguns varejistas, embora ainda represente menos de 1% do tr\u00e1fego total. Ou seja: a mudan\u00e7a ainda est\u00e1 no come\u00e7o, mas j\u00e1 produz sinais concretos. Outro dado especialmente relevante \u00e9 que consumidores ainda confiam tr\u00eas vezes mais em agentes propriet\u00e1rios dos varejistas do que em agentes de terceiros. Para mim, esse \u00e9 um recado claro: ainda existe uma janela valiosa para as marcas de varejo constru\u00edrem protagonismo nessa nova interface de compra, mas a velocidade de implementa\u00e7\u00e3o e redefini\u00e7\u00e3o de seus processos \u00e9 tema de alta criticidade aos que buscam competitividade.<\/p>\n<p>Isso nos leva a um ponto menos vis\u00edvel, por\u00e9m decisivo: a infraestrutura da nova jornada. Se o consumidor passar a pesquisar, comparar e comprar dentro de assistentes e ferramentas de IA, o varejo precisar\u00e1 tornar cat\u00e1logo, pre\u00e7o, estoque, promo\u00e7\u00f5es, regras de neg\u00f3cio, benef\u00edcios de fidelidade, condi\u00e7\u00f5es de entrega e servi\u00e7os plenamente leg\u00edveis e acion\u00e1veis por essas interfaces. O MPC ( Model Context Protocol), por exemplo, \u00e9 um padr\u00e3o aberto que permite conectar ferramentas de IA a dados, sistemas e servi\u00e7os de forma padronizada e segura. Na pr\u00e1tica, isso significa criar uma linguagem comum para que assistentes e agentes de IA consigam acessar cat\u00e1logo, estoque, pre\u00e7os, regras de neg\u00f3cio e servi\u00e7os ao longo de toda a jornada do cliente, portanto, vai muito al\u00e9m de um tema t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Ele toca no cerne da competitividade futura: a capacidade de uma empresa existir de forma relevante em ambientes orientados por IA.<\/p>\n<p>Entretanto, muitas empresas ainda est\u00e3o olhando para a IA como uma camada de produtividade, quando ela j\u00e1 deveria estar sendo tratada como uma camada de arquitetura comercial. Como sugere o relat\u00f3rio Beyond the Bottom Line, da Thoughtworks, apenas as organiza\u00e7\u00f5es que reconstru\u00edrem as bases necess\u00e1rias para sustentar a intelig\u00eancia artificial conseguir\u00e3o se sustentar a longo prazo. No varejo, a pergunta n\u00e3o \u00e9 apenas como usar IA para resumir relat\u00f3rios, gerar campanhas ou automatizar atendimento. A pergunta \u00e9 como preparar a empresa para participar da jornada inteira: descoberta, considera\u00e7\u00e3o, recomenda\u00e7\u00e3o, compra, fulfillment, recorr\u00eancia e p\u00f3s-venda. Quem fizer isso primeiro tende a ocupar um lugar privilegiado na decis\u00e3o do consumidor com potencial de se consolidar em uma nova din\u00e2mica de jornada de compra.<\/p>\n<p><strong>L\u00f3gica Preditiva<\/strong><\/p>\n<p>Outro tema que deve ganhar espa\u00e7o \u00e9 a l\u00f3gica preditiva. Envio preditivo e compra preditiva deixam de parecer conceitos futuristas quando observamos o avan\u00e7o da modelagem de comportamento, da integra\u00e7\u00e3o entre dados e da capacidade dos agentes. O varejo j\u00e1 conhece bem a import\u00e2ncia da reposi\u00e7\u00e3o e da recorr\u00eancia. A novidade \u00e9 a possibilidade de antecipar com mais precis\u00e3o quando, como e por que um consumidor precisar\u00e1 de um item ou de uma solu\u00e7\u00e3o inteira. Isso pode aumentar a efici\u00eancia, mas tamb\u00e9m eleva a exig\u00eancia sobre confian\u00e7a, governan\u00e7a e qualidade da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Minha leitura \u00e9 que o varejo brasileiro est\u00e1 diante de uma transi\u00e7\u00e3o importante. De um lado, continua operando sob press\u00f5es cl\u00e1ssicas: margem, juros, c\u00e2mbio, produtividade, custo log\u00edstico e sensibilidade a pre\u00e7o. De outro, passa a conviver com uma nova disputa por relev\u00e2ncia: quem vai mediar a decis\u00e3o de compra no ambiente da IA. Essa disputa n\u00e3o ser\u00e1 vencida apenas com mais tr\u00e1fego ou mais sortimento. Ela exigir\u00e1 profundidade de dados, integra\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia comercial, autoridade de marca e capacidade de traduzir complexidade em uma experi\u00eancia melhor para o cliente. O varejo sempre soube operar bem a oferta. A pr\u00f3xima etapa pede algo a mais: operar bem a decis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>*Juliana Velozo \u00e9 Senior VP Retail, CPG, Travel &amp; Transportation, Healthcare na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.thoughtworks.com\/pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Thoughtworks<\/a>\u00a0LATAM<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O varejo sempre foi reescrito pela tecnologia<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":26633,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2234],"tags":[5802],"class_list":["post-31105","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vozes-do-varejo","tag-thoughtworks"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31105"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31105\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}