{"id":31380,"date":"2026-06-03T14:27:51","date_gmt":"2026-06-03T17:27:51","guid":{"rendered":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/?p=31380"},"modified":"2026-06-03T14:31:37","modified_gmt":"2026-06-03T17:31:37","slug":"depois-do-cnpj-a-rotina-invisivel-dos-pequenos-negocios-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/depois-do-cnpj-a-rotina-invisivel-dos-pequenos-negocios-no-brasil\/","title":{"rendered":"Depois do CNPJ: a rotina invis\u00edvel dos pequenos neg\u00f3cios no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Antes de o primeiro cliente pedir o prato, Israel de Aguiar j\u00e1 percorreu uma parte do neg\u00f3cio que quase ningu\u00e9m v\u00ea. Acorda por volta das 6h40, passa por atacad\u00f5es, loja de embalagens e sacol\u00e3o, escolhe produtos perec\u00edveis, segue para a cozinha e acompanha a prepara\u00e7\u00e3o do almo\u00e7o. Depois vem o food truck, o atendimento, outro ponto de venda \u00e0 noite, o fechamento, o estoque, a limpeza e a higieniza\u00e7\u00e3o das caixas t\u00e9rmicas. Em muitos dias, s\u00f3 deita por volta das duas da manh\u00e3. Poucas horas depois, come\u00e7a tudo de novo.<\/p>\n<p>\u201cO comerciante, quando ele n\u00e3o est\u00e1 dentro do estabelecimento, est\u00e1 fazendo compras\u201d, resume Israel. No caso dele, isso significa passar por tr\u00eas ou quatro atacad\u00f5es, comprar embalagens, selecionar legumes, verduras e insumos que precisam estar frescos todos os dias. \u201cAt\u00e9 chegar na minha cozinha, armazenar meus produtos, guardar tudo, higienizar caixas t\u00e9rmicas, ir para casa e colocar a cabe\u00e7a no travesseiro para dormir, \u00e9 2 horas da manh\u00e3 todos os dias. Ent\u00e3o eu durmo duas e acordo seis, seis e meia\u201d, conta.<\/p>\n<p>No celular de Nathalie Costa, o expediente tamb\u00e9m n\u00e3o termina. A loja de prata 925 e semijoias nasceu no Instagram, com R$ 500 em mercadorias, venda no boca a boca e a promessa de uma rotina flex\u00edvel. Mas o que parecia caber na tela logo se espalhou pela casa: responder cliente, embalar pedido, escolher fornecedor, conferir pe\u00e7as, precificar, postar, enviar produtos, acompanhar acessos, cuidar do site e manter a vitrine digital sempre acesa.<\/p>\n<p>\u201cEu tive muita desilus\u00e3o no come\u00e7o de que ia ser muito f\u00e1cil e muito flex\u00edvel trabalhar de casa\u201d, diz Nathalie. \u201cTem essa flexibilidade, mas tem um outro lado que ningu\u00e9m fala. A empresa est\u00e1 100% no celular, voc\u00ea trabalha 100% 24 horas com o seu telefone. Ent\u00e3o, de certa forma, voc\u00ea n\u00e3o consegue se desligar.\u201d<\/p>\n<p>Gabriel Porto conheceu outro lado da mesma hist\u00f3ria. Abriu uma ag\u00eancia de publicidade com s\u00f3cios e, depois, uma loja de cookies. Em um caso, havia repert\u00f3rio de marketing. No outro, uma receita boa, boa avalia\u00e7\u00e3o no iFood e presen\u00e7a nas redes sociais. Ainda assim, os dois neg\u00f3cios escancaram uma li\u00e7\u00e3o que muitos empreendedores s\u00f3 aprendem tarde demais: saber fazer bem alguma coisa n\u00e3o significa, automaticamente, saber administrar uma empresa.<\/p>\n<p>Na ag\u00eancia, a percep\u00e7\u00e3o veio cedo. \u201cA gente entendia sobre marketing, j\u00e1 atuava no marketing, mas n\u00e3o sabia exatamente como funcionava uma ag\u00eancia\u201d, lembra Gabriel. Com o tempo, a desorganiza\u00e7\u00e3o interna, os desalinhamentos entre s\u00f3cios e as entregas que n\u00e3o sa\u00edam como o prometido come\u00e7aram a cobrar a conta.<\/p>\n<blockquote><p><em>As tr\u00eas trajet\u00f3rias partem de lugares diferentes, mas se encontram em uma pergunta comum: o que acontece depois que a ideia vira CNPJ?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que abre empresas em ritmo acelerado. Nos quatro primeiros meses de 2026, foram criados 2.050.548 pequenos neg\u00f3cios, <a href=\"https:\/\/agenciasebrae.com.br\/dados\/empreendedorismo-em-alta-abertura-de-novos-pequenos-negocios-cresce-14-em-2026\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">quase 14% a mais<\/a> que no mesmo per\u00edodo de 2025. Apenas em abril, foram 463.080 novos pequenos neg\u00f3cios, com o setor de servi\u00e7os respondendo por 64% dos novos estabelecimentos.<\/p>\n<p>A for\u00e7a desse segmento \u00e9 evidente. Os pequenos neg\u00f3cios representam<a href=\"https:\/\/agenciasebrae.com.br\/dados\/confira-os-grandes-numeros-dos-pequenos-negocios-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> 97% do total<\/a> de empresas do pa\u00eds e respondem por 26,5% do Produto Interno Bruto nacional, segundo o Sebrae. Mas esses n\u00fameros, sozinhos, n\u00e3o mostram o peso que existe entre abrir uma empresa e mant\u00ea-la viva. N\u00e3o mostram a madrugada de Israel, a ansiedade de Nathalie diante do celular, a ang\u00fastia de Gabriel antes de sair da ag\u00eancia ou o susto de quem descobre, j\u00e1 no meio da opera\u00e7\u00e3o, que vender n\u00e3o significa lucrar.<\/p>\n<h3>O pa\u00eds que abre neg\u00f3cios, mas nem sempre ensina a sustent\u00e1-los<\/h3>\n<p>Empreender costuma ser apresentado como autonomia. Trabalhar para si, fazer o pr\u00f3prio hor\u00e1rio, viver daquilo que gosta, transformar uma habilidade em renda. A narrativa seduz porque tem uma parte verdadeira. Para milh\u00f5es de brasileiros, o pequeno neg\u00f3cio \u00e9 caminho de renda, inclus\u00e3o produtiva, realiza\u00e7\u00e3o pessoal e desenvolvimento local.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma dist\u00e2ncia entre incentivar a abertura de empresas e preparar pessoas para administrar empresas.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Petry, especialista em <a href=\"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">varejo<\/a> e analista t\u00e9cnico do Sebrae Nacional, chama aten\u00e7\u00e3o para uma diferen\u00e7a essencial. Existe o empreendedorismo por oportunidade, quando a pessoa enxerga uma chance de mercado, e o empreendedorismo por necessidade, quando ela come\u00e7a porque precisa gerar renda. Em muitos casos, a urg\u00eancia vem antes do preparo.<\/p>\n<p>\u201cNa abordagem do empreendedorismo por necessidade, muitas vezes essa pessoa n\u00e3o consegue pesquisar com um pouco mais de profundidade antes de ter que tomar a primeira a\u00e7\u00e3o, que \u00e9 se jogar no mercado\u201d, explica. Segundo ele, isso faz com que o empreendedor comece sem planejamento pr\u00e9vio mais robusto, sem escutar outros profissionais e, muitas vezes, com \u201cinforma\u00e7\u00f5es picadas\u201d que n\u00e3o levam \u00e0 melhor decis\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o mercado n\u00e3o cobra menos de quem come\u00e7ou por necessidade. O fornecedor cobra. O imposto chega. O cliente compara. A concorr\u00eancia avan\u00e7a. O ponto pode n\u00e3o funcionar. O algoritmo pode parar de entregar. A chuva pode esvaziar a rua. A inadimpl\u00eancia pode apertar o consumo. E o caixa, quando n\u00e3o \u00e9 acompanhado de perto, demora a avisar que a empresa j\u00e1 entrou em risco.<\/p>\n<p>Um levantamento do Sebrae sobre sobreviv\u00eancia de empresas mostrou que 29% dos microempreendedores individuais fecham ap\u00f3s cinco anos de atividade. Entre microempresas, <a href=\"https:\/\/rj.agenciasebrae.com.br\/cultura-empreendedora\/pesquisa-do-sebrae-aponta-que-microempreendedores-individuais-tem-a-maior-taxa-de-mortalidade-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a taxa \u00e9 de 21,6%<\/a>; entre empresas de pequeno porte, 17%. A pesquisa tamb\u00e9m apontou que 17% dos empreendedores n\u00e3o fizeram nenhum planejamento antes de abrir e 59% planejaram por, no m\u00e1ximo, seis meses.<\/p>\n<p>Israel come\u00e7ou com experi\u00eancia de vida. Filho de comerciante, cresceu no balc\u00e3o, aprendeu a lidar com p\u00fablico e traz para o food truck uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com os clientes. Antes de empreender, trabalhou 18 anos como terceirizado no servi\u00e7o p\u00fablico. Quando saiu, precisou se reorganizar. A esposa j\u00e1 atuava com espetinhos, e o casal come\u00e7ou de forma simples, com uma churrasqueira improvisada em aro de roda de caminh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEu sou filho de comerciante. Antes de trabalhar no servi\u00e7o p\u00fablico, fui criado dentro do com\u00e9rcio. Ent\u00e3o era uma vontade, um sonho que eu tinha de trabalhar para mim\u201d, conta. Hoje, s\u00e3o tr\u00eas pontos no Distrito Federal e cerca de 250 refei\u00e7\u00f5es servidas por dia entre almo\u00e7o e janta.<\/p>\n<p>Nathalie come\u00e7ou de outro jeito. Tinha acabado de terminar a escola, queria trabalhar, gostava de acess\u00f3rios e recebeu da m\u00e3e a provoca\u00e7\u00e3o que virou ponto de partida e por que n\u00e3o vender alguma coisa?<\/p>\n<p>\u201cEu comecei a pesquisar fornecedor, comecei a pesquisar como eu poderia abrir. Primeiro eu abri o Instagram, n\u00e3o tinha site, e comecei a vender no boca a boca, para amigas pr\u00f3ximas. Ia no sal\u00e3o fazer a unha e levava as pe\u00e7as tamb\u00e9m. De primeiro, comprei R$ 500 de mercadoria. Vendi tudo. Depois fui comprando e investindo mais\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Gabriel, por sua vez, tinha forma\u00e7\u00e3o em administra\u00e7\u00e3o, mestrado em estrat\u00e9gia, inova\u00e7\u00e3o e marketing, experi\u00eancia com produ\u00e7\u00e3o de festas e repert\u00f3rio criativo. Mesmo assim, a ag\u00eancia mostrou que conhecimento t\u00e9cnico n\u00e3o resolve, sozinho, problemas de cultura, sociedade, opera\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cCliente foi saindo porque a gente n\u00e3o conseguiu entregar alguma coisa que tinha se planejado para entregar. Come\u00e7ou a ficar ruim a situa\u00e7\u00e3o. Era cliente saindo, desorganiza\u00e7\u00e3o, era a cultura da empresa, e eu n\u00e3o conseguia organizar mais\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das primeiras armadilhas do pequeno neg\u00f3cio: confundir habilidade com empresa. Cozinhar bem n\u00e3o \u00e9 o mesmo que administrar um restaurante. Saber vender n\u00e3o \u00e9 o mesmo que controlar margem. Entender de marketing n\u00e3o \u00e9 o mesmo que gerir pessoas, contrato, prazo e fluxo de caixa. Gostar de acess\u00f3rios n\u00e3o \u00e9 o mesmo que precificar, comprar, embalar, atender, divulgar e formar uma base de clientes.<\/p>\n<h3>O pre\u00e7o, o imposto e a conta que n\u00e3o aparece na venda<\/h3>\n<p>Em algum momento, a matem\u00e1tica chega. E ela n\u00e3o pergunta se havia paix\u00e3o, se o produto era bom ou se o cliente elogiou. Pergunta quanto custa, quanto entra, quanto sai, quanto sobra e por quanto tempo \u00e9 poss\u00edvel continuar.<\/p>\n<p>Para Israel, a conta pode mudar com o c\u00e9u. Quem trabalha na rua sabe que chuva n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 clima. \u00c9 faturamento. \u201cChoveu, principalmente \u00e0 noite, \u00e9 bem complicado. Porque a fam\u00edlia sai para jantar e, de repente, fecha o tempo ou come\u00e7a a chover. Acaba que o nosso p\u00fablico se afasta. Ningu\u00e9m vai para debaixo de uma tenda para ficar na chuva\u201d, diz.<\/p>\n<p>No neg\u00f3cio dele, se falta luz, muda a log\u00edstica. Se falta \u00e1gua na cozinha, muda a opera\u00e7\u00e3o. Se o tr\u00e2nsito atrasa, o atendimento sente. A empresa depende de compra di\u00e1ria, perec\u00edveis, deslocamento, equipe, ponto, fornecedor e movimento.<\/p>\n<p>Quando fala das contas que d\u00e3o frio na barriga, Israel cita duas prioridades: funcion\u00e1rio e fornecedor. Tem de cinco a seis fornecedores fixos, compra carnes de fora de Bras\u00edlia para manter qualidade e sabe que algumas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem quebrar. \u201cS\u00e3o duas coisas: primeiro, funcion\u00e1rio, que a gente n\u00e3o pode deixar de pagar. Segundo, os fornecedores. O resto a gente vai sobrevivendo\u201d, resume.<\/p>\n<p>No digital, a conta aparece com outra cara. Nathalie n\u00e3o depende da chuva, mas depende de presen\u00e7a. O site fica no ar 24 horas por dia, mas ela sente que as vendas dependem do movimento no Instagram.\u00a0\u201cEu tenho essa urg\u00eancia de estar sempre online, porque sinto que, com o Instagram, postando e produzindo conte\u00fado, meu site tem mais acessos. Se eu n\u00e3o estou ali dispon\u00edvel, o site acaba tendo menos acessos. Se estou dispon\u00edvel, converto mais em vendas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A precifica\u00e7\u00e3o foi um dos primeiros choques. No in\u00edcio, Nathalie tinha medo de cobrar. Perguntava se a pe\u00e7a estava cara, se algu\u00e9m compraria, se o valor fazia sentido.<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio, eu tinha muita dificuldade de precificar as pe\u00e7as, porque sentia que o meu produto estava caro. Ficava me perguntando: ser\u00e1 que est\u00e1 caro? Ser\u00e1 que algu\u00e9m vai comprar?\u201d, conta. Com o tempo, percebeu que o pre\u00e7o n\u00e3o era s\u00f3 o acess\u00f3rio. \u201cPor tr\u00e1s tem muito trabalho. Tenho que ir atr\u00e1s de fornecedores, fazer curadoria, porque nem sempre a pe\u00e7a vem 100% perfeita. Invisto o meu tempo e tamb\u00e9m na experi\u00eancia do cliente. Tudo isso agrega valor ao produto.\u201d<\/p>\n<p>Quando isso n\u00e3o est\u00e1 claro, o empreendedor pode vender muito e ainda assim n\u00e3o ver dinheiro sobrar.<\/p>\n<p>Gabriel aprendeu algo parecido na loja de cookies. O produto era bom, o marketing funcionava, o iFood tinha boa avalia\u00e7\u00e3o, mas o ponto, a mudan\u00e7a de comportamento ap\u00f3s a pandemia e a estrutura da opera\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a pesar. A localiza\u00e7\u00e3o era boa para entrega durante o isolamento. Quando as pessoas voltaram a sair, o rendimento caiu.<\/p>\n<p>\u201cO grande problema foi quando saiu da pandemia e as pessoas come\u00e7aram a sair de novo, em vez de pedir. O nosso rendimento come\u00e7ou a ser 30% do que um dia j\u00e1 foi 100%. A\u00ed eu vi que as coisas tinham que mudar para tentar sobreviver\u201d, relata.<\/p>\n<p>A conta fiscal tamb\u00e9m apareceu de forma dura. Gabriel lembra que o imposto nem sempre \u00e9 pago no momento da venda. Ele se acumula para depois. Se o empreendedor n\u00e3o separa o dinheiro, cria a ilus\u00e3o de que aquele valor est\u00e1 dispon\u00edvel. Quando o tributo chega e n\u00e3o houve lucro suficiente, a despesa sai do bolso do dono. \u201cImposto \u00e9 sempre complicado. Porque voc\u00ea n\u00e3o paga ali na hora. Junta o trimestral para pagar depois e, se voc\u00ea n\u00e3o teve lucro, est\u00e1 tirando 100% do seu bolso depois. Vira uma despesa gigante\u201d, diz Gabriel. \u201cComo ele n\u00e3o \u00e9 ali na hora, voc\u00ea acaba tendo uma ilus\u00e3o de que n\u00e3o vai pagar. Quando chega, \u00e0s vezes voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 preparado.\u201d<\/p>\n<p>Nesse momento que CPF e CNPJ come\u00e7am a se misturar e pode complicar o andar da empresa.\u00a0Fl\u00e1vio Petry aponta esse como um erro b\u00e1sico e frequente, o de usar o dinheiro do neg\u00f3cio para resolver despesas pessoais ou usar recursos pessoais de forma improvisada para cobrir buracos da empresa.<\/p>\n<p>\u201cEsse \u00e9 um erro muito b\u00e1sico e muito comum para quem est\u00e1 come\u00e7ando essa vida empreendedora: separar o que s\u00e3o as despesas e contas do neg\u00f3cio e as despesas e contas pessoais\u201d, explica. Ele cita o princ\u00edpio de entidade, conceito da contabilidade que estabelece a separa\u00e7\u00e3o entre o patrim\u00f4nio da empresa e o patrim\u00f4nio pessoal do empreendedor. \u201cN\u00e3o misturar os dinheiros, o que \u00e9 dinheiro pr\u00f3prio e o que \u00e9 dinheiro do neg\u00f3cio.\u201d<\/p>\n<p>Essa fronteira \u00e9 ainda mais importante em um pa\u00eds de or\u00e7amento dom\u00e9stico pressionado. Em abril de 2026, a inadimpl\u00eancia atingiu <a href=\"https:\/\/site.cndl.org.br\/com-novo-recorde-historico-inadimplencia-atinge-7482-milhoes-de-consumidores-em-abril-aponta-cndl-e-spc-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">74,82 milh\u00f5es de consumidores<\/a> no Brasil, o equivalente a 44,69% da popula\u00e7\u00e3o adulta, segundo CNDL e SPC Brasil. O dado n\u00e3o mede a inadimpl\u00eancia de empreendedores, mas ajuda a entender o risco de misturar sustento da casa, cr\u00e9dito pessoal e tentativa de manter uma empresa aberta.<\/p>\n<p>Quando o dinheiro pessoal socorre a empresa sem controle, e a empresa n\u00e3o gera caixa suficiente para devolver esse socorro, os dois lados enfraquecem. O neg\u00f3cio fica sem diagn\u00f3stico. A pessoa f\u00edsica fica mais vulner\u00e1vel. E a tomada de decis\u00e3o passa a ser feita no susto.<\/p>\n<h3>Capital de giro n\u00e3o \u00e9 detalhe t\u00e9cnico. \u00c9 sobreviv\u00eancia<\/h3>\n<p>A falta de dinheiro aparece como sintoma, mas muitas vezes nasce antes, na aus\u00eancia de planejamento. Falta calcular o custo real do produto. Falta prever imposto. Falta separar reserva. Falta saber quanto de capital de giro \u00e9 necess\u00e1rio para comprar, vender, esperar receber e continuar operando at\u00e9 o pr\u00f3ximo ciclo.<\/p>\n<p>Na pesquisa de sobreviv\u00eancia de empresas do Sebrae, entre os motivos citados para o fechamento aparecem falta de dinheiro ou financiamento, falta de clientes, burocracia, custos, impostos, taxas, aluguel e localiza\u00e7\u00e3o ruim. Entre os aux\u00edlios que poderiam evitar o fechamento, cr\u00e9dito mais facilitado aparece em primeiro lugar, citado por 34%; menos encargos e impostos aparece com 21%.<\/p>\n<p>O cr\u00e9dito, por\u00e9m, tamb\u00e9m exige preparo. Em levantamento do Sebrae sobre financiamento dos pequenos neg\u00f3cios, capital de giro foi a principal finalidade apontada por empres\u00e1rios na busca por empr\u00e9stimo, <a href=\"https:\/\/agenciasebrae.com.br\/economia-e-politica\/pequenos-negocios-batem-recorde-na-obtencao-de-credito-com-melhor-indice-desde-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com 41%<\/a>. Entre os que declararam dificuldades para obter cr\u00e9dito, os principais obst\u00e1culos foram taxa de juros alta, falta de garantias reais, falta de documenta\u00e7\u00e3o fiscal e falta de documenta\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil.<\/p>\n<p>Ou seja, acesso a cr\u00e9dito n\u00e3o se resume a dinheiro dispon\u00edvel. Tamb\u00e9m depende de organiza\u00e7\u00e3o, documenta\u00e7\u00e3o, contabilidade, capacidade de pagamento e orienta\u00e7\u00e3o para usar o recurso sem transformar al\u00edvio moment\u00e2neo em d\u00edvida futura.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio afirma que planejamento financeiro, fluxo de caixa, capital de giro e precifica\u00e7\u00e3o precisam ser tratados de forma integrada. \u201cTudo isso a gente consegue resolver com um processo de planejamento financeiro e controles financeiros. Temos capacita\u00e7\u00f5es que falam sobre fluxo de caixa, capital de giro e at\u00e9 precifica\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p>No caso de Israel, capital de giro aparece na rotina. \u00c9 a compra di\u00e1ria de alimentos, a negocia\u00e7\u00e3o com fornecedores, a necessidade de manter qualidade e a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o atrasar funcion\u00e1rio. No caso de Nathalie, aparece no estoque pequeno, na escolha de pe\u00e7as, na curadoria e no reinvestimento gradual. No caso de Gabriel, aparece no imposto que chega depois, no ponto que n\u00e3o performa, no aluguel, nos fornecedores e na decis\u00e3o de vender a loja de cookies para recuperar parte do preju\u00edzo.<\/p>\n<p>O pequeno neg\u00f3cio n\u00e3o quebra apenas porque vende pouco. \u00c0s vezes quebra porque vende sem margem, cresce sem controle, toma cr\u00e9dito sem planejamento, confunde faturamento com lucro ou deixa para entender o imposto quando o boleto j\u00e1 venceu.<\/p>\n<h3>Ser o pr\u00f3prio chefe tamb\u00e9m \u00e9 ser todos os funcion\u00e1rios<\/h3>\n<p>\u201cSer seu pr\u00f3prio chefe\u201d talvez seja uma das frases mais repetidas do empreendedorismo. Parece liberdade. Mas, para quem come\u00e7a pequeno, muitas vezes significa ser tamb\u00e9m o financeiro, o atendimento, o marketing, o estoque, a entrega, o RH, o compras, a opera\u00e7\u00e3o, a estrat\u00e9gia e o suporte t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Nathalie chama isso de \u201ceuquipe\u201d. A palavra tem leveza, mas descreve uma sobrecarga concreta. Quando a cliente pergunta, \u00e9 ela quem responde. Quando uma pe\u00e7a chega com defeito, \u00e9 ela quem faz a curadoria. Quando o pedido sai, \u00e9 ela quem embala. Quando a loja precisa aparecer, \u00e9 ela quem produz conte\u00fado. Quando h\u00e1 uma d\u00favida de pre\u00e7o, fornecedor ou estrat\u00e9gia, muitas vezes tamb\u00e9m \u00e9 ela quem decide. \u201cEu preciso produzir conte\u00fado, eu preciso vender, tirar d\u00favidas das clientes, precificar, enviar pedidos. Acaba que fica um pouco exaustivo\u201d, afirma. Mesmo quando tenta organizar a rotina, a empresa continua dependendo dela. \u201cSe eu me desligar 100% da loja, a loja para.\u201d<\/p>\n<p>A solid\u00e3o, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 apenas trabalhar sem colegas de mesa. \u00c9 decidir sem ter com quem dividir o peso. No in\u00edcio, Nathalie n\u00e3o tinha pessoas pr\u00f3ximas que empreendessem. Hoje, conversa com amigas de outros nichos porque percebeu que as dores se repetem: d\u00favida, inseguran\u00e7a, press\u00e3o por venda, problema com cliente, medo de errar e necessidade de decidir r\u00e1pido.<\/p>\n<p>\u201cPor mais que n\u00e3o seja o mesmo nicho, a dor do empreendedorismo \u00e9 muito parecida\u201d, diz. \u201c\u00c0s vezes a gente passa por problemas e tem dificuldades muito semelhantes.\u201d<\/p>\n<p>No Brasil, essa discuss\u00e3o dialoga com um mercado de trabalho em que uma parcela relevante da popula\u00e7\u00e3o ocupada atua por conta pr\u00f3pria. No primeiro trimestre de 2026, 25,5% dos trabalhadores ocupados estavam nessa condi\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/46676-pnad-continua-trimestral-desocupacao-sobe-em-15-das-27-ufs-no-1-trimestre-de-2026\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segundo o IBGE<\/a>. A taxa de informalidade no pa\u00eds era de 37,3% da popula\u00e7\u00e3o ocupada.<\/p>\n<p>Nem todo trabalhador por conta pr\u00f3pria \u00e9 empreendedor formal. Nem todo MEI vive a mesma realidade. Nem todo pequeno empres\u00e1rio est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. Mas os dados ajudam a mostrar que, para milh\u00f5es de pessoas, renda, trabalho e neg\u00f3cio se misturam em estruturas muito pequenas, muitas vezes sem rede de prote\u00e7\u00e3o, sem equipe robusta e sem margem para parar.<\/p>\n<p>Israel sente isso no corpo. Passa horas em p\u00e9, compra, transporta, atende, organiza, acompanha cozinha, serve, fecha e recome\u00e7a. Diz que praticamente toda semana pensa em desistir, n\u00e3o porque n\u00e3o goste do que faz, mas porque o ramo exige demais.<\/p>\n<p>\u201cPraticamente toda semana a gente pensa em desistir, sim. \u00c9 um neg\u00f3cio que n\u00e3o \u00e9 para qualquer um. \u00c9 um ramo que exige bastante empenho, dedica\u00e7\u00e3o, amor\u201d, afirma. \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o tiver o amor e o carinho para servir aquele prato final para o cliente, n\u00e3o d\u00e1 certo. \u00c9 melhor inventar outra coisa.\u201d<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ele rejeita a ideia f\u00e1cil de que ser dono significa ter liberdade para simplesmente parar quando quiser. \u201c\u00c0s vezes a gente fala: queria ser dono do meu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, hoje eu n\u00e3o quero trabalhar, hoje eu quero dormir at\u00e9 mais tarde. Conversa, isso \u00e9 mentira. A gente pode sonhar com isso. Mas fazer, n\u00e3o tem como\u201d, diz.<\/p>\n<p>Gabriel viveu essa press\u00e3o de outra forma. Na ag\u00eancia, a desorganiza\u00e7\u00e3o foi corroendo a rela\u00e7\u00e3o entre s\u00f3cios, a entrega aos clientes e a cultura interna. Antes de sair, passou por uma noite de ang\u00fastia. A dificuldade, segundo ele, era n\u00e3o ter com quem dividir aquela decis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuando voc\u00ea tenta se desligar de alguma coisa que acreditava muito, fica muito angustiado. E voc\u00ea n\u00e3o tem muito com quem dividir essa ang\u00fastia quando \u00e9 dono\u201d, conta. \u201cVoc\u00ea vai falar com seus colaboradores que vai sair antes de sair? Isso pode criar uma confus\u00e3o na empresa.\u201d<\/p>\n<p>Para ele, ser o pr\u00f3prio chefe tamb\u00e9m est\u00e1 longe da imagem idealizada. \u201cSer seu pr\u00f3prio chefe, na verdade, \u00e9 se ferrar muito. N\u00e3o tem facilidade quando voc\u00ea \u00e9 seu pr\u00f3prio chefe. Tudo depende de voc\u00ea. Voc\u00ea n\u00e3o tem nenhuma diretriz que algu\u00e9m vai estar dando. Voc\u00ea tem que correr atr\u00e1s de tudo, planejar os pr\u00f3ximos passos e executar tudo ao mesmo tempo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O mundo do trabalho do pequeno empreendedor \u00e9, muitas vezes, invis\u00edvel porque n\u00e3o cabe nas categorias tradicionais. Ele n\u00e3o \u00e9 apenas patr\u00e3o. Tamb\u00e9m trabalha na opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 apenas trabalhador. Tamb\u00e9m assume risco, d\u00edvida e responsabilidade sobre outras pessoas. Essa ambiguidade torna a discuss\u00e3o mais complexa e mais necess\u00e1ria.<\/p>\n<h3>O que deveria vir antes do susto<\/h3>\n<p>At\u00e9 aqui, a hist\u00f3ria falou de madrugada, tela, chuva, imposto, pre\u00e7o, cr\u00e9dito, solid\u00e3o, fornecedor, s\u00f3cios e cansa\u00e7o. Mas existe uma pergunta por tr\u00e1s de todas essas camadas: o que essas pessoas precisavam saber antes de abrir a empresa?<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o \u00e9 simples, porque nenhuma capacita\u00e7\u00e3o elimina o risco de empreender. Planejamento n\u00e3o impede chuva. Curso n\u00e3o garante cliente. Consultoria n\u00e3o resolve sozinha uma sociedade desalinhada. Cr\u00e9dito n\u00e3o salva neg\u00f3cio sem margem. Formaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o transforma automaticamente uma ocupa\u00e7\u00e3o em empresa sustent\u00e1vel.<\/p>\n<blockquote><p><em>Mas orienta\u00e7\u00e3o pode encurtar caminhos.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Nathalie diz que teria buscado ajuda mais cedo. Cursos, mentoria, consultoria, algu\u00e9m que pudesse apontar erros antes que eles custassem tempo, dinheiro e ansiedade. Ela aprendeu sozinha, com internet, observando pessoas do nicho, testando e corrigindo. Funcionou, mas foi mais doloroso.<\/p>\n<p>\u201cEu fui totalmente na coragem. No in\u00edcio, n\u00e3o tive nenhuma ajuda al\u00e9m da minha m\u00e3e, que \u00e9 minha s\u00f3cia. N\u00e3o fui atr\u00e1s de cursos, n\u00e3o fui atr\u00e1s de consultoria. A internet foi a minha maior aliada. Tudo que eu tinha d\u00favida, tudo que eu n\u00e3o sabia, eu pesquisava\u201d, conta.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ela percebeu que const\u00e2ncia, sozinha, n\u00e3o resolvia tudo. \u201cAs pessoas falam que \u00e9 muito f\u00e1cil empreender, e na verdade n\u00e3o \u00e9. \u00c9 um pouco dif\u00edcil, \u00e9 burocr\u00e1tico, e uma coisa que ningu\u00e9m fala \u00e9 que voc\u00ea tem que ter muita disciplina\u201d, diz. \u201cConst\u00e2ncia \u00e9 muito bom, mas disciplina e organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m fazem parte.\u201d<\/p>\n<p>Gabriel tamb\u00e9m reconhece lacunas. Na ag\u00eancia, acredita que uma consultoria poderia ter ajudado s\u00f3cios e l\u00edderes a alinharem discurso, pr\u00e1tica e funcionamento. Na loja de cookies, sentiu falta de conhecimento mais profundo sobre o setor aliment\u00edcio.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o conhecia tanto sobre o setor aliment\u00edcio e a\u00ed, sim, valeria a pena ter feito alguma coisa mais voltada para aprender sobre o setor aliment\u00edcio\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Israel, mesmo vindo de fam\u00edlia comerciante, tamb\u00e9m v\u00ea valor em continuar aprendendo. Ele e a fam\u00edlia ficam atentos a cursos e informa\u00e7\u00f5es que possam melhorar o neg\u00f3cio, embora a dificuldade seja encaixar capacita\u00e7\u00e3o em uma rotina pesada. \u201cA gente est\u00e1 sempre atento a esse mercado de cursos. \u00c0s vezes v\u00ea algo interessante, compra na internet. Estamos sempre com vontade de crescer, sempre com vontade de levantar a nossa bandeira\u201d, diz.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio Petry defende que o plano de neg\u00f3cios \u00e9 uma ferramenta b\u00e1sica, mas muitas vezes ignorada. Antes de abrir, ajuda a entender mercado, concorr\u00eancia, fornecedores, aspectos legais, necessidade dos consumidores, investimento necess\u00e1rio e previs\u00e3o de retorno. Depois de abrir, continua sendo \u00fatil para ajustar rota.<\/p>\n<p>\u201cO ideal \u00e9 que, antes de empreender, esse candidato a empreendedor construa o seu plano de neg\u00f3cios\u201d, afirma. Mas ele faz uma ressalva importante: o plano n\u00e3o serve apenas para quem ainda vai come\u00e7ar. \u201cE se eu j\u00e1 comecei a empreender? Quer dizer que eu n\u00e3o preciso mais fazer um plano de neg\u00f3cios? N\u00e3o, muito pelo contr\u00e1rio. Agora \u00e9 mais urgente ainda fazer o plano de neg\u00f3cios para entender quais s\u00e3o os pontos que voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 fazendo, o que precisa ajustar, melhorar, corrigir ou redirecionar na sua rota.\u201d<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o empreendedora, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas ensinar algu\u00e9m a abrir um CNPJ. \u00c9 preparar para calcular custo, formar pre\u00e7o, separar conta pessoal de conta empresarial, entender obriga\u00e7\u00f5es fiscais, organizar documentos, planejar capital de giro, negociar com fornecedor, contratar, atender, vender, usar tecnologia e tomar cr\u00e9dito de forma respons\u00e1vel.<\/p>\n<h3>A empresa que o cliente n\u00e3o v\u00ea<\/h3>\n<p>O cliente v\u00ea o prato servido por Israel. N\u00e3o v\u00ea os atacad\u00f5es, a compra da carne, a escolha dos legumes, a cozinha, a higieniza\u00e7\u00e3o, o medo da chuva, o pagamento do fornecedor, a escala da fam\u00edlia e a madrugada.<\/p>\n<p>A cliente v\u00ea a semijoia de Nathalie no Instagram. N\u00e3o v\u00ea a d\u00favida sobre pre\u00e7o, a curadoria da pe\u00e7a, o pedido embalado em casa, o medo de sumir do algoritmo, a urg\u00eancia de responder r\u00e1pido e a dificuldade de tirar f\u00e9rias sem a loja parar.<\/p>\n<p>O consumidor v\u00ea o cookie, a marca, o perfil movimentado, a avalia\u00e7\u00e3o no aplicativo. N\u00e3o v\u00ea o aluguel, o imposto acumulado, a localiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o traz fluxo, o s\u00f3cio que desalinha, o custo que escapa e a decis\u00e3o de vender o neg\u00f3cio n\u00e3o como vit\u00f3ria, mas como tentativa de recuperar parte do preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a empresa que o cliente n\u00e3o v\u00ea. E \u00e9 justamente ela que decide se o neg\u00f3cio sobrevive.<\/p>\n<p>O sucesso mais sustent\u00e1vel talvez seja menos glamouroso do que a propaganda do empreendedorismo costuma sugerir. N\u00e3o \u00e9 apenas viralizar, crescer r\u00e1pido ou abrir novas unidades. Pode ser fechar o m\u00eas sabendo quanto sobrou. Pagar funcion\u00e1rio em dia. N\u00e3o atrasar fornecedor. Separar CPF de CNPJ. Cobrar pre\u00e7o justo. Ter documenta\u00e7\u00e3o para acessar cr\u00e9dito melhor. Entender imposto antes do vencimento. Criar processos para n\u00e3o depender de uma pessoa s\u00f3. Pedir ajuda antes do colapso.<\/p>\n<p>Para Israel, sucesso passa por servir bem e manter a confian\u00e7a. Atendimento, presen\u00e7a e qualidade s\u00e3o parte do produto. \u201cNo dia que eu perder o tes\u00e3o por isso, acho que vou ter que desistir do neg\u00f3cio. Mas, enquanto eu tiver esse amor, a vontade, o carinho, vou lutar e fazer tudo para servir. Servir bem para servir sempre\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para Nathalie, sucesso \u00e9 olhar para tr\u00e1s e ver que saiu do boca a boca para uma base de clientes online, ainda que queira crescer mais com marketing de influ\u00eancia, tr\u00e1fego pago, TikTok e Instagram. Mas ela sabe que a loja ainda depende muito dela. \u201cEu consigo tirar um recesso, mas n\u00e3o consigo me desligar totalmente\u201d, afirma. \u201cContinuo postando, continuo dando uma olhada no site e tamb\u00e9m no WhatsApp, porque \u00e0s vezes surgem d\u00favidas.\u201d<\/p>\n<p>Para Gabriel, sucesso deixou de ser apenas ter uma marca em vitrine. Depois das experi\u00eancias com ag\u00eancia e cookies, passou a incluir aprendizado, tranquilidade, fam\u00edlia, trabalho principal e menos preocupa\u00e7\u00f5es. \u201cTodos os neg\u00f3cios que eu j\u00e1 fiz na minha vida eu levo como uma experi\u00eancia que adquiri\u201d, afirma. \u201cToda vez que precisei fechar um neg\u00f3cio, comecei a entender o que fiz de errado para n\u00e3o errar no pr\u00f3ximo.\u201d<\/p>\n<p>No pa\u00eds em que mais de dois milh\u00f5es de pequenos neg\u00f3cios foram abertos em apenas quatro meses, incentivar o empreendedorismo continua importante. Mas talvez a pergunta central n\u00e3o seja apenas quantas empresas o Brasil consegue abrir. \u00c9 quantas consegue preparar para continuar.<\/p>\n<p>Abrir uma empresa \u00e9 a primeira porta. Depois dela v\u00eam pre\u00e7o, imposto, fluxo de caixa, fornecedor, cliente, ponto, chuva, algoritmo, cr\u00e9dito, documenta\u00e7\u00e3o, equipe, sa\u00fade, descanso e decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Coragem coloca o empreendedor em movimento. Mas coragem sozinha n\u00e3o calcula margem, n\u00e3o separa contas, n\u00e3o organiza impostos, n\u00e3o escolhe ponto, n\u00e3o resolve conflito societ\u00e1rio, n\u00e3o cria capital de giro e n\u00e3o substitui rede de apoio.<\/p>\n<p>Para Fl\u00e1vio Petry, pedir ajuda n\u00e3o deve ser visto como fracasso. \u201cNem todo empreendedor precisa ser autodidata. Se voc\u00ea busca o aux\u00edlio de quem j\u00e1 conhece ou j\u00e1 caminhou por determinadas rotas, j\u00e1 \u00e9 um corte de caminho. Isso faz voc\u00ea ganhar produtividade, ganhar tempo e ampliar seus horizontes.\u201d<\/p>\n<p>Porque o pequeno neg\u00f3cio n\u00e3o sobrevive apenas da vontade de dar certo. Sobrevive quando a vontade encontra m\u00e9todo, informa\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es reais para atravessar o dia seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Esta reportagem faz parte da editoria Dossi\u00ea Varejo S.A., publicada em 3 de junho de 2026 sobre os desafios, bastidores e aprendizados de pequenos empreendedores brasileiros<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3rias de pequenos empreendedores mostram como gest\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o financeira, organiza\u00e7\u00e3o fiscal, acesso a orienta\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho podem decidir a sobreviv\u00eancia de um neg\u00f3cio<\/p>\n","protected":false},"author":33,"featured_media":31381,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[70,26],"tags":[2846,441,6014],"class_list":["post-31380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-negocios-e-economia","tag-cnpj","tag-pequenos-negocios","tag-pequenos-negocios-no-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/33"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31380\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31381"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}