{"id":31498,"date":"2026-09-26T15:44:35","date_gmt":"2026-09-26T18:44:35","guid":{"rendered":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/?p=31498"},"modified":"2026-07-02T09:49:21","modified_gmt":"2026-07-02T12:49:21","slug":"etica-nas-corporacoes-precisa-partir-de-valores-nao-de-regras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/etica-nas-corporacoes-precisa-partir-de-valores-nao-de-regras\/","title":{"rendered":"\u00c9tica nas corpora\u00e7\u00f5es precisa partir de valores, n\u00e3o de regras"},"content":{"rendered":"<p>A \u00e9tica nas corpora\u00e7\u00f5es precisa migrar do campo do \u201co que fazer\u201d para o \u201ccomo fazer\u201d. Essa \u00e9 a tese central de Mary Gentile, escritora, especialista em \u00e9tica e criadora do programa de lideran\u00e7a Giving Voice to Values (Dando Voz aos Valores). Para ela, lideran\u00e7as n\u00e3o devem aprender o que \u00e9 certo por meio de casos hipot\u00e9ticos e complexos, mas sim <a href=\"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">agir<\/a> de acordo com o que j\u00e1 sabem ser correto, transformando valores existentes em a\u00e7\u00e3o por meio de t\u00e1ticas, roteiros e ensaios comportamentais.<\/p>\n<p>Para a especialista, o modelo convencional de treinamento \u00e9tico falha por focar exclusivamente na conscientiza\u00e7\u00e3o e na an\u00e1lise de dilemas. Com frequ\u00eancia, as organiza\u00e7\u00f5es se limitam a ensinar leis, regulamentos e modelos filos\u00f3ficos \u2013 como utilitarismo ou deontologia \u2013 partindo do pressuposto de que o problema \u00e9 a falta de conhecimento. \u201cEu <a href=\"https:\/\/site.cndl.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">chamo<\/a> isso de m\u00e9todo \u2018pregar e fingir\u2019. Pregamos para voc\u00ea o que \u00e9 certo e depois fingimos que voc\u00ea \u00e9 capaz de faz\u00ea-lo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo GVV parte de uma premissa diferente: o verdadeiro obst\u00e1culo para a tomada de decis\u00e3o \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 saber o que fazer, mas a press\u00e3o emocional e social que paralisa o l\u00edder no momento da a\u00e7\u00e3o. Sem ferramentas t\u00e1ticas, a an\u00e1lise te\u00f3rica torna-se in\u00fatil diante da necessidade real de executar. Pesquisadores do campo do desvio positivo \u2013 psic\u00f3logos dedicados a estudar pessoas que se afastam das normas de um grupo, mas em dire\u00e7\u00e3o construtiva \u2013 conclu\u00edram que \u00e9 mais eficaz fazer as pessoas agirem em dire\u00e7\u00e3o a uma nova forma de pensar do que pedir que pensem antes de agir.<\/p>\n<p>Gentile recorreu a uma analogia com cursos de defesa pessoal baseados em simula\u00e7\u00f5es de ataques reais. Nesse tipo de treinamento, ela aprendeu que praticar movimentos no mesmo estado fisiol\u00f3gico e emocional em que eles precisar\u00e3o ser usados cria uma mem\u00f3ria muscular espec\u00edfica, garantindo que, sob extremo estresse, o corpo reaja naturalmente com a t\u00e9cnica correta, sem congelar.<\/p>\n<p>O verdadeiro obst\u00e1culo para a tomada de decis\u00e3o \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 saber o que fazer, mas a press\u00e3o emocional e social que paralisa o l\u00edder no momento da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas corpora\u00e7\u00f5es, o mecanismo \u00e9 semelhante. Diante de dilemas \u00e9ticos reais, a press\u00e3o do momento frequentemente leva profissionais a agir de forma autom\u00e1tica ou defensiva, racionalizando atitudes anti\u00e9ticas para evitar conflitos. Para combater isso, n\u00e3o basta o esfor\u00e7o cognitivo de analisar e decidir o que \u00e9 certo: \u00e9 preciso treinar para a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse treinamento se d\u00e1 pela pr\u00e1tica repetitiva de como agir. O m\u00e9todo prop\u00f5e experimentos mentais em que o indiv\u00edduo j\u00e1 tomou a decis\u00e3o correta e agora precisa ensaiar o que dir\u00e1, para quem, em qual sequ\u00eancia e com quais argumentos, incluindo a prepara\u00e7\u00e3o para obje\u00e7\u00f5es. Ao treinar como lidar com resist\u00eancias de chefes ou colegas antes que elas ocorram, o profissional deixa de ver o conflito como obst\u00e1culo intranspon\u00edvel e passa a encar\u00e1-lo como um desafio de comunica\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O objetivo central do m\u00e9todo \u00e9 substituir a resposta de congelamento por um padr\u00e3o de conduta. Com esse h\u00e1bito consolidado, o profissional aprende que defender seus valores n\u00e3o exige gestos extremos \u2013 den\u00fancias dram\u00e1ticas ou sacrif\u00edcio de carreira \u2013 , mas sim t\u00e1ticas sofisticadas, como reenquadrar o problema e construir alian\u00e7as internas.<\/p>\n<p>O GVV j\u00e1 foi testado ou apresentado em mais de 1.300 locais mundialmente, abrangendo todos os sete continentes. In\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es e empresas globais de diversos setores incorporaram e personalizaram a abordagem em seus treinamentos, incluindo companhias como Lockheed Martin, Unilever, McKinsey, KPMG, Takeda, Prudential, Mayo Clinic e Kaiser Permanente, entre dezenas de outras.<\/p>\n<p><strong>A necessidade de uma \u00e9tica modesta nas organiza\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Zeca de Mello, professor associado da FDC, estimula a sensibilidade \u00e9tica nas companhias. (Foto: Roberto Francellino)<br \/>\nNa mesma linha, Zeca de Mello, fil\u00f3sofo, te\u00f3logo e professor associado da Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral, defendeu a constru\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica modesta nas organiza\u00e7\u00f5es \u2014 isto \u00e9, uma \u00e9tica consciente de seus pr\u00f3prios limites. Diferente do aprendizado passivo, essa abordagem exige atrito com o contexto real: n\u00e3o o estudo de casos hipot\u00e9ticos e complexos, mas o confronto com situa\u00e7\u00f5es concretas do cotidiano.<\/p>\n<p>Mello trouxe ao debate a obra The Dark Pattern, de Guido Palazzo e Ulrich Hoffrage, professores de \u00e9tica da Universidade de Lausanne, na Su\u00ed\u00e7a. Com o subt\u00edtulo The Hidden Dynamics of Corporate Scandals (As Din\u00e2micas Escondidas dos Esc\u00e2ndalos Corporativos), o livro resulta de uma an\u00e1lise filos\u00f3fica e emp\u00edrica dos grandes esc\u00e2ndalos corporativos ocorridos nos \u00faltimos 20 anos em diferentes continentes.<\/p>\n<p>A obra questiona por que pessoas comuns se envolvem em esc\u00e2ndalos de grande escala. A conclus\u00e3o n\u00e3o aponta para um simples desvio de car\u00e1ter, mas para o que os autores chamam de \u201ccegueira \u00e9tica\u201d ou \u201canestesia \u00e9tica\u201d \u2014 um estado em que indiv\u00edduos com vidas comuns e v\u00ednculos familiares s\u00f3lidos tornam-se capazes de cometer ou aceitar atrocidades em fun\u00e7\u00e3o do ambiente organizacional em que est\u00e3o inseridos.<\/p>\n<p>Mello identificou tr\u00eas causas recorrentes desse fen\u00f4meno. A primeira \u00e9 a l\u00f3gica de maximiza\u00e7\u00e3o de resultados de curto prazo a qualquer custo: a press\u00e3o por metas transforma o ambiente de tal forma que as decis\u00f5es passam a ser justificadas exclusivamente pelo vi\u00e9s financeiro, corroendo o senso moral e, paradoxalmente, destruindo o valor da empresa no longo prazo. A segunda \u00e9 a lideran\u00e7a t\u00f3xica: organiza\u00e7\u00f5es operadas sob forte press\u00e3o hier\u00e1rquica anulam o senso cr\u00edtico e levam pessoas comuns a um estado de \u201cbanalidade do mal\u201d \u2014 conceito formulado por Hannah Arendt \u2014, em que atos anti\u00e9ticos s\u00e3o justificados pela obedi\u00eancia a ordens. A terceira \u00e9 o que Mello chama de \u201cgravidade financeira\u201d: empresas que nascem com prop\u00f3sitos nobres acabam sendo paulatinamente capturadas pelas exig\u00eancias do mercado de capitais, que esmaga os valores fundadores em prol do lucro imediato.<\/p>\n<p>Segundo estudo da Grant Thornton Brasil realizada em 2025, 63% das empresas relataram ter registrado pelo menos um epis\u00f3dio de fraude no per\u00edodo de um ano (at\u00e9 agosto do ano anterior \u00e0 pesquisa).<\/p>\n<p>A fraude ocorre predominantemente devido a brechas organizacionais: 94% dos casos foram motivados pela identifica\u00e7\u00e3o de oportunidades pelos fraudadores, sendo o ganho financeiro o objetivo principal em 73% das ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Sensibilidade \u00e9tica ajuda a enfrentar rachaduras organizacionais<\/strong><\/p>\n<p>O ant\u00eddoto apontado pelo professor \u00e9 o desenvolvimento da sensibilidade \u00e9tica como capacidade organizacional deliberada. Diferente da aplica\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos de conduta e regras de compliance que, segundo ele, se tornam insuficientes diante das tens\u00f5es complexas do mundo atual, a sensibilidade \u00e9tica ajuda a antecipar consequ\u00eancias de decis\u00f5es e a enfrentar o que ele denomina \u201crachaduras organizacionais\u201d: verdades inc\u00f4modas que os problemas tentam revelar.<\/p>\n<p>\u201cQuando a delibera\u00e7\u00e3o \u00e9 superficial ou puramente legalista, corre-se o risco de ser profundamente desumano\u201d, afirmou Mello. Desenvolver sensibilidade \u00e9tica, nesse sentido, significa sentir o impacto real das decis\u00f5es sobre pessoas e stakeholders, e n\u00e3o operar com base em c\u00f3digos frios ou teorias abstratas. O professor citou como exemplo iniciativas em que estudantes de direito e ju\u00edzes passaram a participar de aulas baseadas em di\u00e1logos socr\u00e1ticos dentro de pres\u00eddios, com o objetivo de evitar que esses profissionais aplicassem o direito penal sem jamais terem tido contato com a realidade do sistema prisional. Assim como Gentile, Mello converge para a mesma conclus\u00e3o: a dimens\u00e3o pr\u00e1tica e experiencial da \u00e9tica \u00e9 insubstitu\u00edvel.<\/p>\n<p>Os especialistas falaram sobre esses temas durante o 3\u00ba Encontro do Centro de Refer\u00eancia em Lideran\u00e7a Respons\u00e1vel e Tend\u00eancias (CRL), da FDC, realizado no dia 17 de junho de 2026, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro (RJ).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas defendem que a tomada de decis\u00e3o \u00e9tica exige treinamento para a a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas an\u00e1lise de dilemas<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":26435,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1370],"tags":[3225],"class_list":["post-31498","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-seja-relevante","tag-etica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31498"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31498\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}