{"id":31939,"date":"2026-08-30T15:45:16","date_gmt":"2026-08-30T18:45:16","guid":{"rendered":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/?p=31939"},"modified":"2026-08-21T10:51:51","modified_gmt":"2026-08-21T13:51:51","slug":"cidades-do-amanha-o-varejo-precisa-entender-a-cidade-antes-de-entender-a-loja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/cidades-do-amanha-o-varejo-precisa-entender-a-cidade-antes-de-entender-a-loja\/","title":{"rendered":"Cidades do amanh\u00e3: o varejo precisa entender a cidade, antes de entender a loja"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo de mais de duas d\u00e9cadas analisando e vivenciando as engrenagens do varejo brasileiro, poucas vezes presenciei uma transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o estrutural quanto a atual. E n\u00e3o me refiro apenas aos avan\u00e7os dos algoritmos, \u00e0 intelig\u00eancia artificial ou \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do e-commerce. A verdadeira revolu\u00e7\u00e3o, na minha vis\u00e3o, \u00e9 muito mais profunda: trata-se de uma reconfigura\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria forma como as pessoas habitam, circulam, trabalham, consomem e se relacionam com o ecossistema urbano. E, como o varejo \u00e9 um reflexo direto da sociedade, quando a cidade altera sua din\u00e2mica, o com\u00e9rcio inevitavelmente precisa recalibrar sua opera\u00e7\u00e3o junto com ela.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que gosto tanto de provocar as discuss\u00f5es sobre o futuro do setor a partir do conceito de &#8220;Cidades do Amanh\u00e3&#8221;. Tradicionalmente, quando pensamos em expans\u00e3o e planejamento, focamos no microcosmo da loja: formato, metragem, localiza\u00e7\u00e3o, custo de ocupa\u00e7\u00e3o, mix de produtos e fluxo. Tudo isso continua sendo vital, claro. Mas acredito que chegamos a um momento em que a complexidade do mercado nos obriga a fazer o caminho inverso. Antes de planejar o ponto de venda, \u00e9 imperativo decodificar a cidade. Antes de focar no produto, precisamos compreender as pessoas. Antes de escolher o ponto comercial, \u00e9 preciso entender como aquela popula\u00e7\u00e3o est\u00e1, de fato, vivendo.<\/p>\n<p>Esse movimento de reintegra\u00e7\u00e3o urbana j\u00e1 dita tend\u00eancias globais e avan\u00e7a rapidamente no Brasil. A ascens\u00e3o do varejo de proximidade, o adensamento de novos formatos de conveni\u00eancia e o sucesso dos projetos que integram moradia, trabalho, servi\u00e7os, gastronomia e entretenimento sinalizam um novo paradigma. O consumidor moderno n\u00e3o est\u00e1 mais disposto a percorrer grandes dist\u00e2ncias para solucionar demandas que fazem parte do seu cotidiano.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o decreta o fim dos grandes centros comerciais, muito pelo contr\u00e1rio; significa que precisamos ressignificar o papel de cada um deles. O shopping center, a rua comercial, o strip mall e o mercado de bairro n\u00e3o disputam mais apenas o dinheiro do cliente. Eles disputam o seu ativo mais escasso: o tempo. O consumidor exige conveni\u00eancia, quer resolver mais em menos tempo, e quer comprar da maneira que fizer mais sentido naquele instante. Para ele, pesquisar no celular, consultar uma intelig\u00eancia artificial, experimentar na loja f\u00edsica e receber em casa \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. A divis\u00e3o cartesiana entre o f\u00edsico e o digital, que o mercado ainda insiste em fazer, simplesmente deixou de existir na cabe\u00e7a de quem compra.<\/p>\n<p>Paralelamente a essa digitaliza\u00e7\u00e3o, existe uma mudan\u00e7a ainda mais silenciosa e de impacto colossal reescrevendo as regras do neg\u00f3cio: a transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica. O Brasil est\u00e1 envelhecendo. Com o decl\u00ednio nas taxas de natalidade e o aumento da expectativa de vida, a chamada &#8220;economia prateada&#8221; passa a representar uma fatia cada vez mais determinante da popula\u00e7\u00e3o e do consumo. Esse fen\u00f4meno altera drasticamente a demanda por produtos, servi\u00e7os, mobilidade, sa\u00fade integrativa, turismo e moradia.<\/p>\n<p>A pergunta que os l\u00edderes do varejo devem se fazer \u00e9: estamos genuinamente preparados para esse novo consumidor? Porque n\u00e3o se trata de apenas adaptar corredores de uma loja para pessoas mais velhas. Trata-se de desenvolver uma empatia operacional profunda para atender a uma gera\u00e7\u00e3o longeva que continua economicamente ativa, que anseia por bem-estar, entretenimento, educa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancias. \u00c9 preciso entender, de uma vez por todas, que longevidade \u00e9 mercado. Ao mesmo tempo, o encolhimento do n\u00facleo familiar redefine a composi\u00e7\u00e3o das casas e dos bairros, alterando a volumetria das compras, a l\u00f3gica de frequ\u00eancia e o pr\u00f3prio consumo de alimentos e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a na forma como vivemos, a forma como consumimos se transforma inevitavelmente. \u00c9 nesse ponto que o varejista precisa transcender a pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o. Hoje, temos um volume assombroso de dados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o sobre mobilidade, renda, fluxo e CRM. O abismo, no entanto, est\u00e1 na transi\u00e7\u00e3o da coleta para a a\u00e7\u00e3o. O grande desafio para os pr\u00f3ximos anos \u00e9 abandonar a cultura do &#8220;eu acho&#8221; e dominar a cultura do &#8220;eu interpreto&#8221;.<\/p>\n<p>Precisamos interpretar o territ\u00f3rio, interpretar as mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas, interpretar o fluxo urbano e interpretar tend\u00eancias antes que elas virem consenso. Em nossos projetos de desenvolvimento de neg\u00f3cios e shopping centers, percebo cada vez mais que as melhores oportunidades surgem quando conectamos elementos aparentemente isolados. Uma altera\u00e7\u00e3o na mobilidade urbana pode gerar uma nova voca\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria; um novo empreendimento residencial cria v\u00e1cuos para servi\u00e7os in\u00e9ditos na regi\u00e3o; uma popula\u00e7\u00e3o mais velha viabiliza modelos de neg\u00f3cios que antes n\u00e3o se sustentariam. Varejo n\u00e3o \u00e9 apenas transacionar produtos. Varejo \u00e9 interpretar comportamento, e essa interpreta\u00e7\u00e3o precisa estar organicamente conectada \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Nos polos mais inovadores do mundo, o com\u00e9rcio deixou de ser exclusivamente um destino final para se tornar uma plataforma integrada \u00e0 rotina. Essa \u00e9 uma janela de oportunidade \u00edmpar para o Brasil. Em cidades enormes com complexidades log\u00edsticas e tr\u00e2nsito intenso, a l\u00f3gica da proximidade ganha um valor inestim\u00e1vel. Talvez a loja mais rent\u00e1vel do futuro n\u00e3o seja uma opera\u00e7\u00e3o gigantesca em uma avenida de alto fluxo, mas sim um formato enxuto, inteligente e profundamente conectado \u00e0s necessidades daquela microrregi\u00e3o. Talvez o consumidor n\u00e3o queira mais ir at\u00e9 o varejo; o varejo \u00e9 que precisa ir at\u00e9 onde o consumidor est\u00e1.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de mentalidade abrange todos os formatos. A discuss\u00e3o sobre o futuro dos shopping centers n\u00e3o \u00e9 se eles continuar\u00e3o existindo, mas sim os motivos que levar\u00e3o as pessoas at\u00e9 eles. O shopping precisa se consolidar como um polo de conviv\u00eancia, sa\u00fade, entretenimento e servi\u00e7os, oferecendo algo que fa\u00e7a sentido real para a vida das pessoas. Da mesma forma, a rua comercial e os pequenos empres\u00e1rios precisam cruzar o calor humano do atendimento local com a efici\u00eancia da tecnologia e dos dados para se manterem competitivos.<\/p>\n<p>O futuro n\u00e3o \u00e9 uma apresenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de PowerPoint. O futuro \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Quando provoco o mercado sobre as &#8220;Cidades do Amanh\u00e3&#8221;, minha inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exibir tecnologias futuristas inalcan\u00e7\u00e1veis, mas questionar: o que os movimentos que j\u00e1 est\u00e3o ocorrendo nos nossos bairros significam para a sua loja, para a sua rede ou para a sua entidade de classe?<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o genu\u00edna n\u00e3o ocorre quando algu\u00e9m anuncia uma tend\u00eancia em uma palestra, mas quando o empres\u00e1rio traduz uma mudan\u00e7a no comportamento do seu cliente em uma solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. \u00c9 nesse instante que a tend\u00eancia vira estrat\u00e9gia, e a estrat\u00e9gia vira neg\u00f3cio. A grande vantagem competitiva do varejo nos pr\u00f3ximos anos n\u00e3o estar\u00e1 apenas na capacidade de vender, mas na agilidade de antecipar. Antecipar o consumidor, o territ\u00f3rio, a tecnologia e as oportunidades.<\/p>\n<p>A cidade do amanh\u00e3 j\u00e1 est\u00e1 pulsando nos novos planos diretores, nas transforma\u00e7\u00f5es de mobilidade e na maneira como as pessoas est\u00e3o reorganizando suas vidas. O varejo \u00e9 o palco central dessa transforma\u00e7\u00e3o, e quem decodificar esse cen\u00e1rio antes ter\u00e1 uma vantagem incalcul\u00e1vel. O futuro do nosso setor n\u00e3o est\u00e1 distante; ele j\u00e1 est\u00e1 acontecendo agora. A \u00fanica pergunta que resta \u00e9: voc\u00ea est\u00e1 preparado para enxerg\u00e1-lo?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>*Antonio Eloy \u00e9 especialista em varejo, planejamento urbano comercial, desenvolvimento de neg\u00f3cios e opera\u00e7\u00f5es de shopping centers, com mais de 25 anos de experi\u00eancia estruturando e reposicionando ativos em diferentes mercados e regi\u00f5es do Brasil<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O shopping precisa se consolidar como um polo de conviv\u00eancia, sa\u00fade, entretenimento e servi\u00e7os, oferecendo algo que fa\u00e7a sentido real para a vida das pessoas<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":24492,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2234],"tags":[6011],"class_list":["post-31939","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-vozes-do-varejo","tag-vozes-do-varejo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31939"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31939\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24492"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cndl.org.br\/varejosa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}