Todo mundo conhece, poucos usam: por que a IA ainda não saiu do discurso nas empresas
Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil revela que, apesar do alto nível de conhecimento sobre inteligência artificial, a maioria das empresas brasileiras ainda não conseguiu transformar o tema em prática no dia a dia
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A inteligência artificial deixou de ser um conceito distante e passou a ocupar espaço constante nas conversas sobre inovação, produtividade e competitividade. No discurso, ela parece onipresente. Na prática, porém, a realidade das empresas brasileiras ainda é bem mais cautelosa. O resultado é um descompasso claro entre conhecimento e aplicação.
É o que mostra a pesquisa “Uso de inteligência artificial nas empresas”, realizada pela CNDL e pelo SPC Brasil, em parceria com a Offerwise Pesquisas. Segundo o levantamento, 87% dos empresários afirmam conhecer ou já ter tido contato com soluções de inteligência artificial, mas apenas 14% fazem uso efetivo da tecnologia atualmente. Outros 9% estão em fase de avaliação, enquanto a maioria segue apenas observando.
Os números indicam que a IA já venceu a etapa da conscientização, mas ainda não cruzou a fronteira da adoção em escala.
O gargalo não é tecnológico, é prático
Entre os empresários que não utilizam inteligência artificial, o principal entrave não é custo ou rejeição ideológica. A falta de conhecimento sobre como usar a tecnologia aparece como a maior barreira, citada por 52% dos entrevistados. Em outras palavras, a IA é conhecida no abstrato, mas pouco compreendida em sua aplicação concreta ao negócio.
Outro grupo relevante, 32%, afirma que a IA não é necessária para sua empresa. Esse dado revela uma percepção ainda limitada do potencial da tecnologia, frequentemente associada apenas a grandes corporações, projetos complexos ou áreas altamente técnicas, e não a atividades rotineiras como vendas, marketing ou atendimento.
A falta de recursos financeiros aparece apenas em terceiro lugar, mencionada por 16%, o que reforça que o principal obstáculo não é orçamento, mas clareza de uso e valor.
Intenção de adoção ainda é baixa
O distanciamento entre discurso e prática também se reflete nas expectativas para o curto prazo. Apenas 24% dos empresários pretendem implementar inteligência artificial em suas empresas nos próximos meses. Enquanto isso, 40% afirmam que não têm essa intenção, e 36% seguem indecisos.
Esse cenário mostra que a IA ainda não foi incorporada ao planejamento estratégico da maioria das empresas. Ela é vista como tendência relevante, mas não como prioridade imediata, especialmente em um contexto de cautela econômica e gestão conservadora.
Entre os empresários que planejam adotar a tecnologia, há maior consenso sobre onde a IA pode gerar valor. Marketing e vendas lideram o interesse, citados por 69%, seguidos por atendimento ao cliente (49%). São áreas mais próximas da rotina empresarial e onde os ganhos de eficiência são mais tangíveis.
Esse dado sugere que a adoção da IA tende a começar por aplicações práticas e operacionais, e não por projetos complexos ou estruturais. A tecnologia passa a ser vista como ferramenta de apoio à decisão e à produtividade, não como revolução abstrata.
Potencial reconhecido, preparo insuficiente
Apesar do uso restrito, 41% dos empresários acreditam que a inteligência artificial aumentará a competitividade de suas empresas nos próximos anos, principalmente por permitir a criação de novidades para os clientes, economia de tempo e dinheiro e melhoria no atendimento. Além disso, 52% veem a IA como fator de aumento de vendas, ao ajudar a entender melhor o perfil do consumidor e aprimorar a experiência de compra.
Por outro lado, entre os 22% que não acreditam nesse impacto positivo, o principal argumento é direto: a empresa não está preparada para essa transformação. O dado reforça que o desafio está menos na tecnologia e mais na capacidade de gestão, adaptação e aprendizado.
O retrato traçado pela pesquisa é o de um empresariado consciente da importância da inteligência artificial, mas ainda distante de sua aplicação prática. A IA é reconhecida como tendência, mas não como ferramenta cotidiana. Falta traduzir o conceito em soluções simples, acessíveis e conectadas à realidade dos negócios.
Enquanto isso não acontece, a inteligência artificial segue presente nas palestras, nos relatórios e nas conversas, mas ainda ausente da rotina de grande parte das empresas brasileiras. O desafio, daqui para frente, não é convencer sobre a relevância da IA, mas mostrar como ela pode funcionar na prática, no tamanho e no ritmo de cada negócio.

