Brasil chega à marca de 50 milhões de apostadores em bets, revela pesquisa CNDL/SPC Brasil
Endividamento e riscos à saúde mental acendem alerta. 25% dos entrevistados já deixaram de pagar alguma conta para apostar, e 24% tiveram o nome negativado
Envato
O mercado de apostas esportivas e jogos de azar online, conhecidos popularmente como bets, continua em ritmo acelerado de expansão no Brasil, mas os reflexos dessa febre digital começam a pesar de forma expressiva sobre a economia e o orçamento das famílias. É o que revela a nova pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas. que aponta que o país já alcança a marca de 50 milhões de apostadores nas capitais (um salto de 10,5 milhões de pessoas em relação a 2025). O estudo detalha o perfil, os hábitos e os impactos financeiros e sociais dessa modalidade de consumo que atinge 36% dos consumidores digitais brasileiros.
O levantamento mostra que o gasto médio mensal com apostas subiu para R$ 213 (chegando a R$ 314 na classe A/B). Além disso, cerca de 23% dos apostadores admitem ter investido valores que comprometeram sua renda ou seu bem-estar financeiro. O impacto no consumo diário é direto: 43% dos apostadores relatam que já abriram mão de algum item de consumo, como internet (15%), contas básicas de água, luz e telefone (13%), passeios em família (12%), vestuário (12%) e alimentação fora de casa (12%), para destinar dinheiro aos jogos.
A gravidade da situação financeira reflete-se na inadimplência: 25% dos entrevistados afirmam que já deixaram de pagar alguma conta para apostar, e 24% já tiveram o nome negativado por causa de gastos com jogos online. Destes, 11% continuam com o nome sujo. Para piorar o cenário, 28% dos apostadores admitiram ter recorrido ou considerado ações extremas para conseguir recursos para o jogo, como pegar dinheiro emprestado (12%), vender bens próprios ou da família sem consentimento (8%) ou utilizar cartões de terceiros sem autorização (8%).
O vício e os impactos na saúde mental e nas famílias
Mais do que uma questão econômica, o estudo mostra o avanço da dependência e os riscos associados ao vício. Entre os apostadores, 37% já tentaram parar ou reduzir a frequência dos jogos, mas não conseguiram. A frequência de uso é alta: 62% jogam de todos os dias a semanalmente (incluindo 11% que jogam todos os dias), sendo o PIX o principal meio de pagamento (78%).
Os efeitos colaterais extrapolam as finanças pessoais: 34% dos apostadores relatam impactos diretos na vida pessoal, destacando problemas de saúde mental como ansiedade, depressão e insônia (11%), conflitos familiares por ausência (9%), endividamento (8%), além de advertências, suspensões ou demissões no trabalho (8%).
A influência negativa também atinge os lares com adolescentes: 10% dos entrevistados com filhos de 12 a 18 anos relatam o envolvimento dos jovens com bets, sendo que 70% desses pais observam prejuízos na vida dos filhos, como sinais de vício (26%), endividamento (24%) e uso de dinheiro da família sem autorização (14%). Além disso, o estudo mostra que 49% dos apostadores conhecem alguém próximo que já teve problemas com os jogos online.
Apesar da alta incidência de dificuldades, a busca por apoio institucional ainda é baixa: embora a procura por ajuda tenha subido de 21% para 30% (com foco em parentes, amigos e grupos de apoio a vícios em jogos), 69% dos apostadores com dificuldades não buscaram nenhum tipo de suporte especializado.
“O avanço vertiginoso das apostas online no Brasil deixou de ser apenas uma questão de entretenimento digital e se transformou em uma grave crise de saúde pública e de desestruturação social. Quando o vício em jogos passa a comprometer a renda familiar, gerar conflitos profundos nos lares e distanciar os indivíduos de suas rotinas de trabalho e convivência, fica evidente que estamos lidando com um transtorno comportamental que exige acolhimento clínico e terapêutico, e não mera culpabilização do cidadão. O cenário atual impõe a urgência de políticas públicas mais rigorosas, campanhas educativas contínuas e travas severas de regulação para conter a livre exposição da população, em especial dos jovens e adolescentes, a esse modelo predatório de diversão”, destaca o presidente da CNDL, José César da Costa.
Regulação e responsabilidade social
Diante do cenário de vulnerabilidade, para 39% dos entrevistados, os jogos online deveriam ser totalmente proibidos. Contudo, a maioria (53%) defende a manutenção das apostas desde que haja maior regulação e fiscalização rígida (46%).
Entre as medidas apontadas pelos entrevistados como mais eficazes para mitigar os danos causados pelas apostas, estão a realização de campanhas educativas sobre os riscos do vício (44%), a proibição de propagandas estreladas por famosos e influenciadores (43%) e a restrição de marketing voltado a jovens e adolescentes (36%).
A imagem de celebridades, atletas, influenciadores e artistas que promovem as plataformas é vista de forma negativa por 66% da população, evidenciando uma rejeição crescente ao endosso publicitário desse mercado.
“Sob a ótica econômica, a popularização em massa das plataformas de apostas representa uma ameaça concreta à estabilidade financeira das famílias e à própria dinâmica de consumo do país. Quando uma parcela significativa da população recorre a economias essenciais, deixa de honrar compromissos básicos de subsistência ou acumula restrições de crédito para sustentar o hábito de jogar, o resultado direto é a escalada da inadimplência e o endividamento crônico. Esse desvio de recursos do consumo produtivo e do pagamento de contas essenciais para o mercado de apostas comprime o poder de compra das famílias, enfraquece o comércio e gera um efeito cascata altamente nocivo e real para a economia”, alerta o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Júnior.
METODOLOGIA
Público-alvo: Homens e mulheres, com idade igual ou maior a 18 anos, de todas as classes econômicas, e que realizaram compras pela internet nos últimos 12 meses.
Método de coleta: Pesquisa quantitativa realizada pela web e pós-ponderada por sexo, idade, estado e renda.
Foram realizados 939 contatos em um primeiro levantamento para identificar o percentual de pessoas que compraram pela internet nos últimos 12 meses. Em seguida, continuaram a responder o questionário 800 casos, que fizeram alguma compra ao longo deste período. Resultando, respectivamente, uma margem de erro no geral de 3,2 p.p e 3,5 p.p para um nível de confiança de 95% para mais ou para menos
Data de coleta dos dados: 25 de maio a 04 de junho de 2026

