Vencendo a fome com produção suspensa de alimentos
Start-up desenvolve técnica de plantio inovadora no Brasil Carolina Laert São cerca de 800 milhões de pessoas no mundo que passam fome, segundo o último […]
Start-up desenvolve técnica de plantio inovadora no Brasil
Carolina Laert
São cerca de 800 milhões de pessoas no mundo que passam fome, segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). Por aqui, mais de sete milhões de brasileiros também são afetados pelo mesmo problema. Mas, mesmo com números tão desanimadores, há muita gente trabalhando para que esse cenário mude. Foi o que aconteceu recentemente quando a Organização Não Governamental (ONG) francesa Hello Tomorrow desembarcou no Brasil, pela primeira vez, e lançou o Desafio de Start-ups, com o seguinte tema “Comida do amanhã para todos”.
No total, foram 120 projetos inscritos, seis finalistas e um grande vencedor – a CBA Sementes –, que em outubro estará em Paris para participar do Hello Tomorrow Global Summit, um evento que irá reunir importantes nomes da indústria de alimentos, além de grandes investidores do setor.
Cultivo no ar
A CBA Sementes desenvolveu uma tecnologia inovadora para produzir batata-semente utilizando aeroponia. A técnica permite que o alimento seja cultivado de forma suspensa, ou seja, sem o uso da terra. “Desde 2014, tento implementar essa técnica aqui no Brasil. Tive o primeiro contato durante um intercâmbio na Coreia do Sul. De lá para cá, passei alguns anos tentando comprovar que não é bruxaria, é apenas uma evolução da hidroponia. Digo evolução porque, além de não utilizar substratos, é possível reduzir em mais de 90% o consumo de água e em 80% o uso de fertilizantes em relação aos processos produtivos tradicionais”, relata Lucas Moreira, 31 anos, dono da start-up.
Ele explica que a técnica pode ser realizada com outros alimentos, como tomates, alfaces e morangos, por exemplo. Para o empreendedor, a aeroponia é perfeita para os dias atuais, uma vez que os espaços estão cada vez mais escassos e muitos lugares não têm condições adequadas de solo. “Com a técnica, eu posso cultivar um alimento em qualquer lugar, seja dentro de um apartamento, seja numa gôndola de supermercado ou até mesmo na Sibéria”, brinca.
De olho no futuro
De acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), das 4.180 empresas cadastradas em todo o país, 23 são dedicadas ao agronegócio, mas existem outras áreas relacionadas, como meio ambiente, com 14 empresas, por exemplo.
“Muitas dessas empresas estão recebendo aporte de grandes varejistas interessados nesse tipo de negócio”, explica Moreira. Ainda segundo ele, como o Hello Tomorrow recebeu apoio do Carrefour, já está em contato com a rede varejista de alimentos para uma possível implementação da técnica nas gôndolas do supermercado.
Outra grande vantagem apontada pela aeroponia é a diminuição do desperdício. “Um dos grandes problemas que muitos empresários do ramo enfrentam é em relação às condições de transportes que esses alimentos passam até chegar ao consumidor final. Como essa técnica é desenvolvida no próprio espaço, na própria gôndola, não há problemas em relação à logística, o que diminui o desperdício”.
Mapa da fome
No início deste ano, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que mais de 20 milhões de pessoas no Sudão do Sul, Somália, Iêmen e região Nordeste da Nigéria estão passando fome e enfrentam altos níveis de insegurança alimentar.
Outro dado alarmante é que, de acordo com o último documento apresentado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o continente africano permanece com o maior índice: ao menos 20% da população não tem acesso aos alimentos, seguido da Oceania, com 14%. A Ásia aparece com 12% e a América Latina, 5%.
Segundo Moreira, com a aeroponia, é possível mudar o cenário de escassez de um determinado tipo alimento em até cinco anos. “Alguns países com deficiência na produção de alimentos já me procuraram para estudarmos uma forma de implantar a técnica. Não tenho a pretensão de acabar com a fome do mundo, mas, sim, de ser um agente transformador dela”, finaliza.


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