Postura defensiva: empresários evitam crédito e priorizam sobrevivência
Pesquisa da CNDL e SPC Brasil mostra que o ambiente de incerteza econômica leva empresas a conter investimentos, adiar expansão e focar na manutenção do caixa
Envato
Há um ano, no segundo semestre de 2025, houve um clima de cautela entre os empresários brasileiros. Diante de um cenário econômico instável, percepção negativa da conjuntura nacional e entraves estruturais persistentes, a estratégia predominante tem sido a preservação do negócio e não a expansão. Os dados mais recentes indicam que o crédito, tradicional motor de crescimento, está sendo evitado.
A pesquisa “Gestão e confiança do empresário”, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil, em parceria com a Offerwise Pesquisas, apontou que 61% dos empresários afirmam que não pretendem contratar crédito nos próximos 90 dias, enquanto apenas 12% demonstram intenção de buscar empréstimos ou financiamentos.
A baixa disposição para contratar crédito revela uma mudança importante no comportamento empresarial. Em vez de utilizar financiamentos para ampliar operações, investir em marketing ou contratar funcionários, grande parte dos empresários tem optado por reduzir riscos e proteger o fluxo de caixa.
O receio está diretamente ligado ao ambiente macroeconômico. Para 50% dos empresários, a economia brasileira piorou nos últimos seis meses. Esse sentimento de deterioração, somado ao aumento do pessimismo em relação ao futuro próximo, torna o crédito uma decisão vista como arriscada.
Gestão focada em sobreviver
A postura defensiva se reflete em diversas frentes da gestão. A pesquisa mostra que 45% das empresas realizaram cortes no orçamento, 25% enfrentaram meses seguidos no vermelho e 19% lidaram com dívidas em atraso no primeiro semestre do ano. Além disso, 15% precisaram demitir funcionários e 7% tiveram crédito restrito devido ao nome negativado.
Esses números ajudam a entender por que a prioridade deixou de ser crescer e passou a ser manter o negócio em funcionamento. Em um contexto de margens apertadas, qualquer aumento de endividamento pode comprometer a sobrevivência da empresa.
Mesmo com a cautela, os empresários não pararam completamente de investir. 68% realizaram algum tipo de investimento nos últimos seis meses, mas com foco em ações mais defensivas. Os principais destinos foram ampliação de estoque, compra de equipamentos, reformas do espaço físico e ajustes operacionais.
Esse perfil de investimento indica uma busca por eficiência e manutenção da competitividade, e não por expansão acelerada. O objetivo é sustentar o negócio no curto prazo, mantendo clientes e operação ativa.
Confiança no negócio, desconfiança no ambiente
Curiosamente, a pesquisa revela um paradoxo. Apesar do cenário adverso, 59% dos empresários ainda confiam no crescimento do próprio negócio nos próximos meses. Esse otimismo, no entanto, é seletivo: ele está mais associado ao esforço individual do empreendedor e à qualidade dos produtos ou serviços do que à expectativa de melhora da economia.
Ou seja, o empresário acredita em si, mas não no ambiente em que está inserido.
Sobrevivência como estratégia
A decisão de evitar crédito não é, necessariamente, sinal de fraqueza, mas de prudência. Em um ambiente onde custos trabalhistas, carga tributária elevada e dificuldade de acesso a financiamentos continuam sendo obstáculos, sobreviver já é um desafio estratégico.
O retrato que emerge da pesquisa é de um empresariado resiliente, porém cauteloso, que escolheu atravessar a instabilidade com o freio puxado. Crescer pode ficar para depois. No presente, a prioridade é clara: manter o negócio vivo.

