01 jun, 2026
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Prevenção de perdas: por onde começar quando tudo parece urgente?

A pressão por eficiência no varejo transformou a prevenção de perdas em uma discussão cada vez mais estratégica para negócios do setor. Em um cenário […]

A pressão por eficiência no varejo transformou a prevenção de perdas em uma discussão cada vez mais estratégica para negócios do setor. Em um cenário de margens apertadas, aumento dos custos operacionais e operações mais complexas, reduzir perdas significa proteger resultado, produtividade e capacidade de crescimento.

Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo a Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025, as perdas geraram um prejuízo de R$ 36,5 bilhões para o varejo. Isso representa um montante expressivo de faturamento que se perde em falhas operacionais, furtos, divergências de estoque e processos ineficientes. O estudo também mostra que cerca de 70% das perdas estão concentradas em quebras operacionais, furtos internos e externos e erros de inventário.

Diante desse cenário, é comum que empresas tentem atacar todas as frentes simultaneamente. Investem em novos sistemas, ampliam equipes, revisam processos e adicionam camadas de controle em diferentes áreas ao mesmo tempo. O problema é que, sem priorização, a operação tende a ganhar complexidade antes de ganhar eficiência.

A prevenção de perdas exige uma lógica diferente. O primeiro passo não está em ampliar iniciativas indiscriminadamente, mas em identificar quais vulnerabilidades geram maior impacto financeiro e operacional. Antes de expandir controles, o varejo precisa entender onde estão os prejuízos recorrentes e quais perdas poderiam ser evitadas com mais inteligência operacional.

Em grande parte das operações, três áreas concentram os principais focos de atenção: erros e fraudes operacionais, furtos externos e falhas nas decisões de compra.

Os erros operacionais continuam entre as principais origens de perdas no varejo. Frente de caixa, recebimento de mercadorias, controle de estoque e inventários reúnem processos repetitivos, alto volume de movimentação e múltiplas interações humanas ao longo do dia. Nesse ambiente, pequenas falhas acumulam impactos relevantes.

Uma divergência no recebimento, um item registrado incorretamente ou uma inconsistência no inventário podem parecer ocorrências pontuais. O desafio aparece justamente na repetição silenciosa desses desvios. Quando não existe visibilidade em tempo real, os prejuízos se acumulam durante semanas ou meses antes de serem identificados.

Por isso, a tecnologia ganha espaço como ferramenta de prevenção operacional. Sistemas inteligentes conseguem correlacionar dados, imagens e comportamento operacional para identificar inconsistências no momento em que acontecem. Isso reduz tempo de resposta, amplia rastreabilidade e evita que falhas recorrentes permaneçam invisíveis dentro da operação.

E o ganho não está apenas na automação, mas na capacidade de antecipação. Em vez de atuar somente após a consolidação da perda, o varejo passa a acompanhar desvios enquanto eles ainda podem ser corrigidos.

Segurança operacional depende de inteligência

Os furtos externos também se tornaram mais sofisticados. Além das ocorrências isoladas, muitas redes convivem com a atuação recorrente de quadrilhas organizadas, que conhecem vulnerabilidades operacionais, horários de menor controle e limitações dos sistemas tradicionais de monitoramento. Nesse contexto, apenas registrar imagens já não resolve o problema. Câmeras convencionais ajudam na investigação posterior, mas oferecem pouca capacidade preventiva.

O reconhecimento facial aplicado à prevenção de perdas cria uma dinâmica diferente porque atua de forma preditiva. A tecnologia permite identificar, em tempo real, pessoas associadas a ocorrências anteriores ou com histórico de furto antes que uma nova ação aconteça. Essa capacidade muda a lógica da operação, de forma que equipes de segurança conseguem agir de forma direcionada, com maior assertividade e menor dependência exclusiva da análise humana em ambientes de alta movimentação.

Outro ponto relevante é a inteligência operacional gerada a partir dessas informações. O reconhecimento facial também ajuda a identificar padrões de comportamento, recorrência de atuação e deslocamento de grupos organizados entre diferentes unidades. Em operações distribuídas, esse tipo de visibilidade fortalece protocolos internos e melhora a capacidade de antecipação de riscos.

Ao mesmo tempo, parte importante das perdas nasce antes mesmo de o produto chegar à loja. Quando um item vence no estoque, sofre avaria ou apresenta baixo giro, a tendência é tratar o problema como consequência operacional. Em muitos casos, porém, a origem está na decisão de compra.

Comprar acima da demanda real, ignorar histórico de vendas, desconsiderar sazonalidade ou negociar volumes excessivos em busca de descontos pontuais transfere o risco para o estoque. O impacto aparece depois em forma de capital imobilizado, excesso de armazenagem, produtos parados e descarte.

Controlar perdas exige olhar para trás e entender se a operação está comprando com base em demanda real, giro e previsibilidade de venda ou apenas ampliando estoque sem inteligência de abastecimento. Comprar melhor se tornou tão importante quanto negociar preço.

Esse movimento ajuda a explicar o amadurecimento da prevenção de perdas dentro do varejo brasileiro. A pesquisa da Abrappe aponta aumento de 27% no número de empresas que possuem uma área dedicada ao tema. No setor alimentício, por exemplo, trata-se de uma prática já bastante comum, com empresas criando estruturas específicas para prevenção de perdas, reflexo do impacto direto que essas perdas exercem sobre margem e eficiência operacional.

A questão central, portanto, não está em ampliar controles de forma indiscriminada. O desafio está em definir prioridades, entender vulnerabilidades críticas e concentrar esforços onde o impacto financeiro é maior.

Quando tudo parece urgente, começar pelos principais focos de perda costuma ser a decisão mais eficiente. É esse direcionamento que permite transformar a prevenção de perdas em inteligência operacional – e não apenas em reação contínua aos problemas do dia a dia.

*Vanessa Urbieta é gerente de desenvolvimento de negócios da Inwave

 

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