Como evitar um problema de US$ 1,73 trilhão por ano no varejo?
Boa parte da experiência do consumidor começa antes do contato com a loja física
Envato
Durante muito tempo, a gestão de armazéns foi tratada como uma etapa operacional distante das grandes discussões estratégicas do varejo. Enquanto a atenção se concentrava na loja, no sortimento, no preço e, mais recentemente, nos canais digitais, o centro de distribuição permanecia em segundo plano, quase como uma engrenagem invisível. Esse cenário mudou.
Hoje, boa parte da experiência do consumidor começa antes do contato com a loja física, o aplicativo ou o marketplace. Ela nasce no controle do estoque, na organização dos produtos, na precisão da separação, na agilidade da reposição e na capacidade da empresa de entregar aquilo que prometeu no momento da compra. Quando esse fluxo falha, o impacto aparece de forma direta: ruptura na gôndola, atraso na entrega, pedido cancelado, aumento de custos ou perda de confiança na marca.
Esse debate se torna ainda mais relevante em um momento de expansão e amadurecimento do varejo digital. Segundo dados da Abiacom, o e-commerce brasileiro faturou R$ 235,5 bilhões em 2025, alta de 15,3% em relação ao ano anterior. Para 2026, a projeção é chegar a R$259,8 bilhões, com mais de 460 milhões de pedidos e cerca de 97 milhões de compradores online.
O crescimento das vendas digitais, no entanto, não representa apenas mais transações. Ele significa mais pontos de contato, mais pedidos fracionados, maior pressão por prazos curtos, aumento da demanda por visibilidade de estoque e necessidade de integração entre loja física, e-commerce, marketplaces, centros de distribuição e operadores logísticos. Em outras palavras, vender mais passou a exigir uma operação muito mais inteligente.
É nesse contexto que o WMS, sistema de gestão de armazéns, deixa de ser apenas uma ferramenta de controle interno e passa a ocupar um papel estratégico no varejo. Sua função vai além de indicar onde um produto está armazenado. Um WMS bem implementado permite estruturar processos de recebimento, armazenagem, endereçamento, separação, conferência, expedição, rastreabilidade, controle de validade, produtividade e movimentação de estoque. Na prática, transforma a operação física em uma base de dados capaz de apoiar decisões de negócio.
A importância dessa camada de controle fica mais evidente quando se observa o custo de falta de precisão. De acordo com o IHL Group, o varejo global perde US$ 1,73 trilhão por ano com distorção de inventário, considerando problemas como ruptura e excesso de estoque. O levantamento aponta que esse impacto equivale a 6,5% das vendas globais do setor.
Para o varejo, esse dado traduz uma realidade conhecida: estoque errado custa caro. Produto parado compromete capital de giro, ocupa espaço e pressiona margens. Produto indisponível, por outro lado, representa venda perdida e frustração do consumidor. Entre um extremo e outro, a operação precisa encontrar equilíbrio entre disponibilidade, giro, prazo e rentabilidade.
Esse cenário ajuda a explicar por que a modernização dos armazéns avançou na agenda das empresas. Segundo estudo da Zebra Technologies, 73% dos decisores de armazenagem afirmam que já aceleraram ou pretendem acelerar projetos de modernização, enquanto 69% já autorizaram ou planejam autorizar fluxos de trabalho.
Mas modernizar não significa apenas automatizar. No varejo, a tecnologia precisa responder a uma pergunta mais ampla: como sustentar o crescimento sem perder controle? Essa é uma diferença importante. Uma operação pode crescer em número de lojas, canais, pedidos e SKUs, mas, se continuar dependente de processos manuais, planilhas e conhecimento tácito, tende a acumular gargalos difíceis de identificar e ainda mais difíceis de corrigir.
Alguns exemplos práticos ajudam a dimensionar essa mudança. Em operações de varejo em expansão, como a da MonteKali Supermercados, a adoção do WMS da Infor aparece associada à necessidade de sustentar crescimento com mais controle, previsibilidade e capacidade de abastecimento. O ponto central não está apenas na automação em si, mas na possibilidade de organizar uma operação mais complexa e aproximar a gestão do centro de distribuição das demandas reais das lojas.
Outros cases ajustam a ilustrar como o mesmo princípio se manifesta de formas diferentes. Em distribuidores de tecnologia, como a ScanSource, a rastreabilidade e o controle por número de série são elementos críticos, já que a operação envolve produtos de alto valor agregado e maior sensibilidade a erros. Já em uma transformação como a da JDE, empresa líder global em produção de café, em que uma unidade passa a exercer um novo papel como hub regional, a tecnologia funciona como base para redesenhar processos e viabilizar um modelo operacional mais robusto.
Esses casos mostram que o WMS não deve ser visto como uma solução única para um problema único. Seu valor está justamente na capacidade de se adaptar a diferentes contextos: expansão de redes varejistas, operações com alto volume de SKUs, negócios com exigência de rastreabilidade, projetos de regionalização logística ou estruturas omnichannel.
Para o consumidor final, essa discussão pode parecer distante, mas seus efeitos são concretos. Uma loja bem abastecida, um pedido separado corretamente, uma entrega dentro do prazo e uma política de troca mais eficiente dependem de processos que acontecem antes da compra ser concluída. O centro de distribuição deixou de ser apenas um espaço de armazenagem para se tornar uma extensão da promessa da marca.
Há também uma dimensão importante relacionada às pessoas. Ao contrário da ideia de que tecnologia substitui completamente o trabalho humano, a modernização dos armazéns tende a redefinir funções, apoiar equipes e reduzir dependência de tarefas excessivamente manuais. Quando bem implementado, o WMS melhora a rotina operacional, reduz improvisos e cria uma base mais clara para treinamento, produtividade e desenvolvimento de equipes.
Nos próximos anos, a diferença entre crescer com eficiência e crescer com perda de controle estará cada vez mais ligada à qualidade da gestão operacional. Os varejistas que conseguir enxergar o estoque com precisão, repor com inteligência, reduzir rupturas e operar múltiplos canais de forma integrada terá mais condições de proteger margens e fidelizar consumidores.
O WMS, portanto, deixou de ser uma tecnologia de bastidor. Ele passou a ser uma peça estratégica para um varejo que precisa ser mais ágil, mais preciso e mais orientado por dados. Em um mercado no qual cada venda depende da combinação entre disponibilidade, prazo e confiança, a eficiência do centro de distribuição pode ser justamente o que define a experiência do consumidor.
*Por Marcela Cantino, Sales Account Manager da Infor

