SaaSpocalypse no Varejo: a tecnologia continua transformando os negócios
Nesse contexto, a decisão entre construir ou comprar exige mais do que escolher uma ferramenta
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A tecnologia continua redefinindo a forma como o varejo opera, compete e cresce. O que mudou recentemente é a velocidade com que o próprio mercado de tecnologia está sendo reconfigurado.
O movimento conhecido como SaaSpocalypse chegou às salas executivas: ferramentas de desenvolvimento baseadas em IA reduziram significativamente o custo e o tempo necessários para construir software. Isso alterou a percepção de valor de toda uma categoria e reabriu um debate que o setor acreditava já ter resolvido: construir ou comprar.
Mas sempre reforço que, quando esse debate começa pela tecnologia, ele já começa no lugar errado.
A pergunta certa começa pelo negócio
Magazine Luiza construiu seu superapp com 50 milhões de usuários mensais e transformou lojas físicas em hubs logísticos. A C&A desenvolveu o C&A Pay com 25 milhões de clientes, optando por construir diferenciação financeira. A Renner criou a Realize como seu braço financeiro próprio. O Grupo Mateus investiu em automação e logística própria para sustentar escala regional.
Essas decisões não nasceram de avaliações de ferramentas. Vieram de uma leitura clara sobre onde cada empresa precisava ser diferente e sobre o que as soluções disponíveis no mercado não entregavam com a especificidade necessária.
Sempre reforço que a diferenciação no varejo não vem de ter a mesma plataforma que todos os concorrentes. Vem de como a empresa usa, adapta e integra a tecnologia à sua operação e à sua proposta de valor.
Antes de qualquer avaliação técnica, três perguntas precisam ser respondidas:
- Essa capacidade é genuinamente diferenciadora ou apenas uma commodity operacional?
- A empresa tem liderança técnica e governança para sustentar o que vai construir?
- E o que efetivamente destrava valor com o menor custo de sustentação no longo prazo?
Build vs. Buy: uma equação estratégica, não uma escolha ideológica
Comprar faz sentido quando a capacidade é operacional e não diferencia o modelo de negócio, como ERPs fiscais, ferramentas de compliance ou infraestrutura de pagamentos, quando o tempo para geração de valor de uma solução de mercado é significativamente menor do que o custo de construir e sustentar internamente, ou quando a empresa ainda está desenvolvendo a maturidade técnica necessária para governar o que criaria.
Construir passa a fazer sentido quando a capacidade é diferenciadora e o mercado não entrega com a especificidade necessária; quando a empresa utiliza apenas 30% das funcionalidades de uma solução SaaS, enquanto os 70% restantes representam custo sem uso e rigidez desnecessária; ou quando dados proprietários transformam a solução em uma vantagem competitiva real.
A pergunta central permanece: o que realmente precisa ser diferenciado? Sem clareza sobre isso, qualquer escolha carrega o risco de desperdício.
CAPEX, OPEX e o processo de compra que precisa ser revisto
Construir é CAPEX. Impacta a alocação de capital no curto prazo, mas pode gerar um ativo proprietário com potencial de diferenciação no médio e longo prazo. Contratar software como serviço é OPEX. Acelera o tempo de geração de valor, mas cria dependência contratual e expõe a empresa a reajustes que podem alterar a equação original na renovação.
Há uma dimensão que frequentemente fica fora dessa análise: o processo de compra de tecnologia no varejo ainda está calibrado para um cenário que não existe mais.
A maioria dos processos de RFP foi desenhada para avaliar fornecedores em um contexto em que construir software era caro e demorado. Os critérios dominantes eram funcionalidades, preço por usuário e SLAs de suporte.
Esse modelo precisa ser revisto. Um processo de compra adequado ao cenário atual deve incluir:
→ Avaliação de arquitetura aberta: o fornecedor oferece APIs que permitem integração real ou cria dependência estrutural?
→ Análise de lock-in técnico: é possível sair sem uma migração traumática? Os dados são portáveis?
→ TCO real: o custo total de propriedade deve incluir integração, manutenção, customizações e custo de saída, não apenas o valor inicial do contrato.
→ Build readiness: a empresa tem, ou pode desenvolver, capacidade para construir parte do que está comprando?
Um processo de RFP que avalia apenas funcionalidades e preço está respondendo às perguntas do passado. O varejo precisa de um processo que avalie flexibilidade estratégica, maturidade de integração e sustentabilidade no longo prazo.
Negócio e tecnologia: coautoria sem perder velocidade
Uma das maiores desconexões nas organizações de varejo é de linguagem: negócio e tecnologia compartilham reuniões, mas raramente compartilham critérios de decisão.
A solução não está em criar mais camadas de aprovação. Está em construir uma coautoria ágil, na qual ambos os lados participam das decisões com clareza sobre prioridades e trade-offs, sem desacelerar os ciclos de entrega.: times de tecnologia que falam em resultado, receita, margem e experiência do cliente, lideranças de negócio que fazem perguntas técnicas melhores e ciclos curtos de revisão, porque a decisão tomada hoje precisa ser revisitada em 90 dias, não em 18 meses.
Modernização de legados: habilitação estratégica
A decisão de construir ou comprar pressupõe uma base sobre a qual construir ou integrar. Quando essa base é composta por sistemas com 15 ou 20 anos de operação, ERPs monolíticos, PDVs sem APIs e OMS desconectados do e-commerce, qualquer escolha se torna mais cara e mais lenta do que deveria. Na prática, a modernização de legados torna-se uma agenda habilitadora que viabiliza decisões mais eficazes entre construir ou comprar.
Um PDV cloud-native conectado em tempo real com estoque e e-commerce permite experiências omnichannel que sistemas legados simplesmente bloqueiam. Arquiteturas MACH, baseadas em Microservices, API-first, Cloud-native e Headless, ampliam o leque de escolhas, pois a base tecnológica deixa de ser um gargalo.
A decisão entre construir ou comprar torna-se mais simples quando a base tecnológica é flexível o suficiente para suportar ambos. A modernização de legados não é o objetivo final. É o que torna o caminho possível.
Agentes de IA no varejo: arquitetura antes da escala
Projeções indicam até US$ 1 trilhão em receita orquestrada por agentes de IA no mercado B2C dos Estados Unidos até 2030. A NRF 2026 confirmou: o Agentic Commerce deixou de ser um cenário futuro e passou a fazer parte da agenda de execução.
Esse cenário é real e exige rigor antes de velocidade. A questão central é arquitetura, integração e impacto econômico mensurável.
Agentes sem uma arquitetura adequada criam fragmentação de dados e duplicação de lógica. Cada agente rodando em nuvem sem critérios de otimização aumenta os custos de infraestrutura de forma não linear e esse custo aparece no resultado financeiro.
Sem governança clara, o que parece avanço se transforma em sobrecarga técnica sem retorno mensurável.
No varejo, onde logística, experiência do cliente e margem precisam funcionar de forma integrada, decisões sobre agentes de IA têm consequências operacionais e financeiras que se intensificam com a escala.
Tomada de decisão estruturada como vantagem competitiva
A SaaSpocalypse é um sinal de que o mercado amadureceu o suficiente para questionar o valor real da tecnologia. Para o varejo, isso representa uma oportunidade de revisar processos de compra, reavaliar o que vale construir e modernizar a base tecnológica que sustenta as próximas decisões.
Construir ou comprar é uma equação com variáveis reais: ROI, governança técnica, maturidade de arquitetura, capacidade interna de execução e visão de sustentação no longo prazo.
Quem resolve essa equação com clareza e a revisita com honestidade está mais bem posicionado para transformar tecnologia em resultados concretos que, no varejo, importam mais do que qualquer hype tecnológico.
*Juliana Velozo é Senior VP Retail, CPG, Travel & Transportation, Healthcare na Thoughtworks LATAM

