O paradoxo do crédito no Brasil: quem não confia não empresta, quem empresta recebe
Enquanto maioria evita risco de emprestar o nome, dados mostram alta taxa de pagamento entre quem utiliza crédito de terceiros
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O crédito entre pessoas físicas no Brasil vive uma contradição difícil de ignorar.
De um lado, a desconfiança. De outro, a disciplina.
Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise Pesquisas, revela que 63% dos brasileiros não aceitariam emprestar o nome a terceiros, evidenciando o receio de assumir dívidas que não são suas.
Ao mesmo tempo, entre aqueles que participam desse sistema informal, o comportamento é outro: 86% dos consumidores que utilizaram o nome de terceiros estão em dia com os pagamentos, índice que chega a 91% quando a operação envolve cartão de crédito.
A combinação desses dados expõe um paradoxo relevante: o medo de inadimplência é alto, mas, na prática, quem empresta o nome tende a receber.
Relações pessoais funcionam como mecanismo de cobrança
Diferentemente do crédito tradicional, que se apoia em contratos, juros e instrumentos formais de cobrança, o crédito entre pessoas físicas é sustentado por outro tipo de garantia: a relação entre as partes.
Nesse ambiente, o risco financeiro é mediado por fatores emocionais e sociais. O receio de comprometer vínculos familiares, desgastar relações ou perder credibilidade dentro do círculo próximo atua como um freio mais imediato do que a própria inadimplência.
Isso ajuda a explicar por que, mesmo sem mecanismos formais de controle, os níveis de pagamento permanecem elevados.
Percepção de risco não acompanha a realidade dos dados
A distância entre o comportamento real e a percepção de risco indica que o medo de emprestar o nome pode estar mais ligado à incerteza do que à experiência concreta.
Para quem está fora desse tipo de operação, o risco tende a ser visto de forma ampliada, já que envolve a possibilidade de prejuízo financeiro direto e impacto nas relações pessoais. Já entre aqueles que aceitam participar, a experiência prática mostra um cenário mais equilibrado, com alto índice de compromisso com o pagamento.
Ainda assim, isso não elimina o risco, apenas mostra que ele pode ser diferente do que se imagina.
Para o varejo e para o mercado de crédito, o fenômeno aponta para uma dinâmica menos visível, mas relevante: a existência de um sistema informal que opera com base na confiança e que, em muitos casos, apresenta níveis de adimplência superiores ao esperado.
Ao mesmo tempo, a resistência da maioria da população indica que esse modelo tem limites claros de expansão, já que depende de relações pessoais muito específicas para funcionar.
Na prática, o crédito de terceiros no Brasil avança tensionado entre dois fatores: a necessidade de quem precisa consumir e o receio de quem pode assumir o risco.

