Empreendedores sem crédito bancário recorrem a consórcios para expandir negócios
Caso de supermercado mostra como organização de indicadores e acesso planejado a capital reduziram risco financeiro em meio a juros elevados
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Com o crédito bancário operando em patamares elevados, pequenos e médios empresários têm buscado alternativas para financiar a expansão sem comprometer o fluxo de caixa. Entre elas, o consórcio vem sendo utilizado para a compra programada de veículos, máquinas e equipamentos, sobretudo por empresas que passaram a estruturar melhor sua gestão antes de investir.
Dados do Banco Central indicam que, em novembro de 2025, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas jurídicas chegou a 25,2% ao ano, pressionando decisões de investimento e reduzindo a margem para erros financeiros.
Leonardo Baldez Augusto, economista e educador financeiro, avalia que o ambiente de juros altos acelerou a mudança de mentalidade entre empreendedores. “Quando o empresário não conhece seus próprios números, qualquer financiamento vira um risco adicional. Com juros nesse nível, a expansão precisa ser planejada com muito mais critério, e o consórcio surge como alternativa quando há clareza sobre retorno, prazo e impacto no caixa”, afirma.
O movimento ganha relevância diante da fragilidade estrutural das pequenas empresas no país. Levantamento do Sebrae mostra que cerca de 29% dos microempreendedores individuais encerram as atividades em até cinco anos.
Entre as microempresas, o índice de fechamento chega a 21,6% no mesmo período, o que reforça a importância de decisões financeiras alinhadas à capacidade real do negócio.
Esse contexto ajuda a explicar o caso de um supermercado de médio porte que buscava crescer, mas enfrentava dificuldades por operar sem indicadores consolidados de margem, perdas e giro de estoque.
Antes de recorrer a qualquer forma de crédito, a empresa passou por um processo de reorganização interna, com padronização de controles, revisão de compras, análise de rentabilidade por categoria e acompanhamento mais frequente do fluxo de caixa. A partir desse diagnóstico, a expansão passou a ser tratada como projeto, com etapas, metas e retorno financeiro estimado.
Consórcio como estratégia de expansão
Com a operação mais previsível, o supermercado optou por consórcios para adquirir veículos e equipamentos necessários à ampliação da estrutura, evitando linhas de crédito com juros elevados. “O consórcio não é solução para emergência, mas funciona bem quando o empresário consegue planejar. Ele impõe disciplina e evita que a expansão consuma capital de giro”, afirma Baldez.
O avanço dessa estratégia acompanha o crescimento do sistema de consórcios no país. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), repercutidos por veículos de economia, indicam que o número de participantes ativos supera 12 milhões, com expansão anual acima de dois dígitos em 2025, ainda que os recortes oficiais sejam divulgados periodicamente pela entidade.
Regulado pela Lei nº 11.795, o consórcio funciona como um sistema de autofinanciamento coletivo, no qual os participantes contribuem mensalmente para a formação de um fundo comum destinado à aquisição de bens ou serviços. Diferentemente do empréstimo bancário tradicional, não há cobrança de juros, apenas taxa de administração, o que reduz o custo financeiro ao longo do tempo.
Para Baldez, a adoção do consórcio tende a se consolidar entre empresários que amadurecem a gestão e passam a priorizar previsibilidade. “Quando a empresa aprende a crescer com método, ela escolhe melhor as ferramentas financeiras. O consórcio deixa de ser apenas uma alternativa ao banco e passa a integrar a estratégia de longo prazo”, diz.
Em um cenário de juros elevados e alta taxa de mortalidade empresarial, a combinação entre organização de indicadores, planejamento financeiro e acesso consciente a capital tem se mostrado um caminho para transformar expansão em crescimento sustentável e não em mais um fator de risco para o negócio.


