Ética + empreendedorismo = bons negócios
Flávia Ribas Cada vez mais, torna-se necessário investir em medidas anticorrupção. Saiba como empresas de qualquer porte podem se preparar O país foi varrido, nos […]
Flávia Ribas
Cada vez mais, torna-se necessário investir em medidas anticorrupção. Saiba como empresas de qualquer porte podem se preparar
O país foi varrido, nos últimos meses, com notícias e denúncias sobre o envolvimento de grandes empresas em atos de corrupção relacionados à política. Cada delação é um golpe na autoestima dos brasileiros, sobretudo, naqueles que, há anos ou décadas, mantêm seus negócios de maneira honesta e dentro das regras e normas estabelecidas, o que se chama também compliance.
A ética é um valor presente no associativismo varejista e garante o equilíbrio entre as relações de empresas públicas e privadas. Essa é a base que deve permear a atuação de um país que quer se ver livre da corrupção. Ouvimos especialistas no assunto para saber como as empresas estão se adaptando às leis anticorrupção e se capacitando para um novo espectro de responsabilidades empresariais e cidadãs que guiarão o futuro do país.
Integridade é a chave do negócio
Quais são os valores da sua empresa? Você já se viu obrigado ou intimado a descumprir regras e leis para que seu negócio fosse adiante? O que fazer nesse caso? O que pode acontecer se descobrir falhas éticas em sua empresa?
Práticas que já foram comuns – como o cafezinho dos policiais que fazem a ronda do comércio ou a famosa “taxa de agilidade” do despachante para resolver pendências burocráticas junto aos agentes públicos – já não são mais toleradas e podem representar uma punição aos pequenos negócios. A Lei Anticorrupção foi aprovada, no Brasil, em 2013 e exige novas responsabilidades das empresas – de pequeno e grande porte – para que não corram riscos de punição.
Para que as mudanças efetivas aconteçam, é preciso uma mudança de cultura, que começa no dia a dia das empresas. “De forma bastante intensa, o pequeno negócio não se sente parte dessa problemática e subestima seu papel na mudança de cultura”, avalia o advogado Luiz Eduardo de Almeida, especialista em compliance. “Com frequência, os pequenos empresários ficam tão envolvidos com as demandas do dia a dia e têm tantas dificuldades com estruturação e relacionamento com o cliente que a preocupação com as regras de compliance privado fica em segundo plano”, avalia. Só neste ano, ele já apoiou cerca de 30 a 40 empresas do setor varejista que desejam adaptar-se às normas vigentes.
Buscando incentivar as pequenas empresas a adotar normas baseadas na ética, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) lançou, em 2015, o programa Empresa Íntegra, em parceria com o Ministério da Transparência, antiga Controladoria-Geral da União (CGU). O objetivo é incentivar e orientar empresas de pequeno porte a adotar normas, códigos de conduta e ações de baixo custo que possam proporcionar reconhecimento público e até retorno financeiro.
“O programa Empresa Íntegra é uma oportunidade de ouro para o Brasil. Se um país sem corrupção depende da honestidade de seu povo, o trabalho começa com cada um e com os pequenos empreendedores, que são 99% das empresas registradas no país”, avalia Gilberto Socoloski Junior, analista do Sebrae Nacional e gestor do programa.
No segundo semestre deste ano, Sebrae e CGU vão expandir as ações, criando programas de capacitação em dez estados brasileiros. “A ideia é fazer com que o micro e o pequeno empresário do país percebam que investir em integridade é um bom negócio, que pode ser realizado de acordo com cada realidade, causando um retorno efetivo no seu dia a dia”, ressalta a secretária de Transparência e Prevenção da Corrupção da CGU, Cláudia Taya.
Por onde começar?
O compliance, em especial, tem duas vertentes: uma relacionada a agentes públicos e outra relacionada ao próprio cliente. O primeiro passo, segundo Almeida, é realizar uma análise de riscos ou um diagnóstico. A alta cúpula de liderança de uma empresa deve estar envolvida e conhecer todos os processos do empreendimento para identificar as vulnerabilidades do negócio. Os principais pontos de risco variam de uma empresa para outra.
Despertar da consciência
O programa Pró-Ética, do Ministério da Transparência, viu um aumento de 200% no número de empresas interessadas em conquistar o selo de reconhecimento de âmbito nacional, entre 2015 e 2017. A iniciativa é uma parceria entre órgãos públicos e o Instituto Ethos e promove uma avaliação das empresas para incentivar a adoção de políticas e ações necessárias para criar um ambiente íntegro, que reduza os riscos de ocorrência de fraude e corrupção. Ao todo, 290 empresas inscreveram-se para a edição de 2017. Os resultados da avaliação serão divulgados no segundo semestre.
Como funciona o Pró-Ética? A empresa participante preenche formulários e é pontuada de acordo com sua conduta e critérios específicos. Ao alcançar uma pontuação igual ou superior a 70 pontos (do máximo de 100) e, cumulativamente, atingir o mínimo de 40% em todas as áreas do questionário, estará habilitada a compor a lista Pró-Ética. O comitê gestor de avaliação é composto por órgãos públicos e federações empresariais, como Confederação Nacional da Indústria (CNI), Federação Brasileira de Bancos (Febraban), BM&FBOVESPA, além do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), Sebrae, Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial e Instituto de Auditores Independentes do Brasil.
Entre os benefícios para as empresas que participam da iniciativa, estão: reconhecimento público do comprometimento com a prevenção e combate à corrupção; publicidade positiva para empresa aprovada que figure na lista; avaliação do Programa de Integridade por equipe especializada; e relatório com a análise detalhada de suas medidas de integridade e sugestões de aprimoramento.
Acesse www.cgu.gov.br/proetica e saiba mais sobre o Pró-Ética.
Quando a integridade é a marca do negócio
A Tecnew Informática foi a primeira pequena empresa do Brasil a receber o selo Pró-Ética, destacando-se entre as 25 condecoradas no fim de 2016. A empresa é especializada em vendas de soluções de tecnologia da informação para governos e se viu estimulada a participar da iniciativa. “Precisamos de políticas públicas para fortalecer a adoção dessas medidas em outras empresas”, defende Marco Túlio Chaparro, sócio-fundador da empresa.
A Tecnew já lidava com regras de compliance, pois representava diversas empresas estrangeiras. Em 2013, implementou política própria de compliance, com uma ferramenta criada por um escritório de advocacia brasileiro. A expectativa é atrair mais clientes com o novo reconhecimento. “A implantação de um sistema de compliance aferido pelo governo federal, mediante o Ministério da Transparência, trará ganho de credibilidade por parte de clientes, investidores, fornecedores etc.”, diz.
“Entendemos que esse seja o caminho de um Brasil livre de escândalos de corrupção, um caminho para um Brasil melhor para todos”, afirma o empresário, com otimismo.
Problemas de corrupção não acontecem só no Brasil
Um recente estudo divulgado pela Harvard Business Review, com as maiores 2.500 empresas do mundo, identificou que a substituição de diretores executivos por motivos éticos cresceu 36% entre 2012 e 2016. Todos os anos, pesquisadores mapeiam as empresas que tiveram mudanças no cargo mais alto e investigam os motivos. Os deslizes éticos representam 5,3% dos casos nos últimos quatro anos. O crescimento acentuado aconteceu principalmente em empresas dos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental. Em países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o aumento de substituições por motivos éticos foi de 3,6% para 8,8%. O estudo foi realizado pela consultoria internacional PwC.
As dez posturas de uma Empresa Íntegra
- Assuma o compromisso de lutar contra a corrupção
Viva essa ideia no dia a dia de sua empresa, seja um exemplo.
- Conheça bem sua empresa
Fazer uma análise de risco prévia é muito importante para criar medidas de proteção.
- Tenha um código de ética
Quais são os valores de sua empresa? Quais são as condutas e os comportamentos desejados? Coloque essas informações em um documento e divulgue-o para todos os funcionários e para o público externo.
- Promova cursos e treinamentos
Treinar funcionários e partilhar informações é fundamental.
- Certifique-se de que seus registros contábeis são confiáveis e feitos de forma correta
Converse com seu contador e garanta que os trabalhos estão sendo feitos de acordo com a lei.
- Aplique as regras do jogo
Institua medidas e procedimentos disciplinares para apurar e reprimir a prática de irregularidades.
- Crie mecanismos de controle
Controles ajudam sua empresa a prevenir a prática de irregularidades e a identificar erros de forma rápida.
- Respeite as regras que tratam de licitações
O uso de dinheiro público envolve fiscalização, princípios e regras próprias, mais rigorosas do que as aplicadas entre particulares.
- Pare e corrija tudo que estiver errado
Identificou fraudes e riscos? Repare os danos de forma rápida e direta.
- Mantenha-se atualizado
Estude, pesquise sobre o assunto, busque informações e divulgue essa iniciativa.
Saiba mais
Se quiser se informar sobre o assunto, leia e prepare sua empresa para o próximo Pró-Ética:
Ética a Nicômano – clássico da filosofia grega, a obra de Aristóteles, dedicada a seu filho Nicômano, sugere que a virtude da ética tem de ser ensinada.
Integridade para pequenas empresas – cartilha do Sebrae para orientar pequenos empreendedores a seguir as normas e melhorar o compliance.
Cartilha: proteja sua empresa contra a corrupção
Biblioteca do Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial (IBDEE) – o instituto oferece uma série de publicações e cartilhas que podem inspirar os empresários. http://www.ibdee.org.br/biblioteca/
Compliance, gestão e cultura corporativa – caderno da Fundação Getulio Vargas (FGV Projetos). http://fgvprojetos.fgv.br/sites/fgvprojetos.fgv.br/files/cadernos_compliance_site_update.pdf




