Mercado de sorvetes não esfria, mas exige estratégias além da novidade
O consumo de sorvetes vai além da sazonalidade, conheça a história de um empreendedor que se atentou a isso para crescer
Envato
Transformar uma tendência passageira em um negócio consistente é um dos maiores desafios do varejo alimentar. O mercado brasileiro de sorvetes segue aquecido, mas já não responde da mesma forma. Dados de uma pesquisa da Abrasorvete mostram que 75% dos brasileiros consomem sorvete ao menos uma vez por mês, enquanto um em cada três consome semanalmente, indicando um hábito consolidado e recorrente.
O levantamento também revela que o consumo vai além da sazonalidade: mais de 40% dos entrevistados afirmam consumir sorvete durante todo o ano, não apenas nos meses mais quentes. Ao mesmo tempo, fatores como qualidade do produto, sabor e preço aparecem como decisivos na escolha da marca, sinalizando um consumidor mais atento à experiência e menos suscetível apenas à novidade.
É nesse cenário que a trajetória da Sorvetes Los Los ajuda a ilustrar o amadurecimento do setor. Fundada em 2014, durante o boom das paletas mexicanas, a empresa atravessou o ciclo de popularização do formato e manteve crescimento ao apostar menos na moda em si e mais em pilares estruturais como produto, operação e distribuição.
Segundo José Vicente Mazzarella, desde o início houve a preocupação em separar euforia momentânea de hábito de consumo. “O mercado de sorvetes é muito suscetível a ondas passageiras. Nosso desafio sempre foi entender o que poderia se sustentar no longo prazo”, explica. A estratégia passou por investimentos em processos produtivos, padronização e desenvolvimento de receitas próprias, inclusive em sabores tradicionais, buscando identidade além da novidade. A leitura foi clara: em um mercado de consumo recorrente, consistência pesa mais do que lançamento.
Outro ponto central foi o modelo de expansão. Em vez de priorizar lojas próprias ou franchising tradicional, a empresa apostou em presença capilarizada em pontos de venda parceiros, alinhada ao comportamento de compra por impulso típico da categoria. “Sorvete é comprado onde o consumidor já está. Por isso, nossa estratégia sempre foi estar presente no dia a dia do varejo”, conta.
O uso de freezers em comodato permitiu acelerar a distribuição mantendo controle sobre exposição, abastecimento e padrão de qualidade. Esse formato também exigiu atenção à rentabilidade de toda a cadeia, equilibrando indústria, distribuidores e varejo.
Olhando para os próximos anos, o setor tende a lidar com um consumidor mais criterioso. A indulgência segue relevante, mas acompanhada de maior atenção à composição, transparência e entrega real de valor. Na operação, eficiência logística e tecnologia ganham protagonismo. “Hoje, controle de estoque, leitura de giro por ponto de venda e logística eficiente deixaram de ser bastidores e passaram a ser diferenciais competitivos”, diz o empresário.
O mercado de sorvetes, portanto, vive um momento de maturidade. A demanda existe e o hábito está consolidado, mas o crescimento passa cada vez mais por execução, leitura de comportamento e decisões estruturais, e menos por movimentos oportunistas baseados apenas na novidade.
Com um consumidor que valoriza cada vez mais transparência, qualidade e acesso, o case exemplar mostra que crescer no varejo alimentar exige mais do que surfar tendências. Exige método, decisões de longo prazo e capacidade de transformar um produto sazonal em presença recorrente no carrinho, ou no freezer, do consumidor.


