12 mar, 2026
0 ° C

Nem todo problema é o sistema: o papel da conduta nos erros organizacionais

Com mais de 90% dos profissionais com dificuldades para assumir responsabilidade sobre resultados, integração entre cultura, tecnologia, liderança e rotinas bem estruturadas é fundamental para o sucesso das empresas

Eficiência na Prática - Muito além do pagamento: como o caixa influencia a experiência e a receita no varejo

Em muitas organizações, o mantra do “processo que falhou” é uma armadilha para esconder uma crise cultural. A frase surge com naturalidade em reuniões de crise, relatórios internos e apresentações executivas. Ela carrega um tom técnico, quase neutro, que sugere racionalidade e maturidade organizacional. Mas usada de forma recorrente e acrítica, essa explicação pode cumprir outra função menos nobre: servir como abrigo e zona de conforto para condutas inadequadas.

Claro que processos falham. Fluxos operacionais mal desenhados, falta de clareza sobre responsabilidades, lideranças que não estimulam uma cultura de feedbacks sobre rotinas ou ausência de controles são gargalos reais e relevantes no dia a dia corporativo. O problema começa quando o discurso do erro – em processos, sistemas ou tecnologias – se torna um atalho narrativo para diluir responsabilidades individuais.

É nesse contexto que atitudes antiéticas, negligência, falta de preparo ou simples descompromisso passam a ser enquadrados como “efeitos colaterais do sistema” e não como escolhas feitas por pessoas concretas.

Sobre esses fatores, que estão na raiz dos desafios culturais de muitas empresas, uma pesquisa recente (Workplace Accountability Study) com mais de 40 mil participantes de diferentes indústrias traz alguns insights preocupantes: segundo o levantamento, nada menos que 93% dos profissionais entrevistados não conseguem alinhar as exigências do seu trabalho ou assumir responsabilidade sobre resultados.

E parte desse problema está no comportamento das lideranças: ainda de acordo com a pesquisa, a atitude dos líderes é o fator mais importante para a responsabilidade organizacional, mas apenas 15% deles comunicam de maneira clara as metas-chave para seus colaboradores.

Essa estatística expõe o coração do problema: a falta de accountability não se resume a problemas sistêmicos ou de processos, mas também a falta de maturidade no assumir de responsabilidade, que nasce em culturas onde o comportamento de líderes e talentos não é suficientemente orientado, avaliado e os feedbacks não são frequentes.

Em contraponto, culturas organizacionais maduras sabem que processos e soluções são meios para reduzir riscos e dar previsibilidade às decisões, mas não substituem a responsabilidade pessoal. Quando a falha sistêmica se sobrepõe à análise da conduta, cria-se um ambiente permissivo no qual desvios recorrentes são tolerados, desde que possam ser enquadrados como falhas de fluxo ou de tecnologia.

Nesse sentido, em termos práticos, o avanço ocorre nas corporações que conseguem alinhar cultura, liderança, processos e tecnologia de forma integrada. Isso começa pela definição clara de papéis, expectativas e resultados.

A liderança tem papel central nesse alinhamento, não apenas pelo discurso, mas pelo exemplo cotidiano. Líderes que sustentam critérios claros, oferecem feedback contínuo e tratam erros como oportunidades de desenvolvimento — sem condescendência — ajudam a construir ambientes mais maduros e transparentes.

Os modelos de avaliação também precisam refletir essa visão integrada. Métricas devem incorporar a análise comportamental, a colaboração, a ética e a capacidade de assumir responsabilidades dos talentos, ampliando o horizonte de decisão e fortalecendo a cultura dos negócios.

Nesse contexto, tecnologias que favorecem uma gestão centralizada e o monitoramento avançado orientado por dados aparecem como aliados estratégicos das empresas. Elas não são soluções mágicas, mas ferramentas que consolidam indicadores operacionais, permitem auditorias frequentes e dão visibilidade a processos, criando condições melhores para a responsabilização e para a tomada de decisão baseada em informações confiáveis. Quando integradas a uma cultura que valoriza transparência e aprendizado, essas soluções ajudam a transformar o controle reativo em governança proativa.

Pois, no fim, processos eficientes e tecnologia robusta geram valor real quando caminham junto de uma cultura ética, responsável e orientada ao desenvolvimento humano.

*Vanessa Urbieta é gerente de desenvolvimento de negócios da Inwave

What's your reaction?