17 maio, 2026
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Brasil: transformação digital avança na cadeia de suprimentos

Estudo revela que tecnologia já impulsiona eficiência e desempenho, mas desafios humanos, culturais e de gestão do conhecimento seguem no centro da agenda executiva

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Brasil: transformação digital avança na cadeia de suprimentos

A transformação digital chegou às cadeias de suprimentos brasileiras. Cloud computing, big data, sistemas inteligentes de apoio à decisão e integração de dados já fazem parte do cotidiano de médias e grandes empresas. No entanto, o avanço tecnológico ainda ocorre de forma assimétrica, revelando que a maturidade digital vai muito além da simples adoção de ferramentas.

Essa é a principal conclusão do relatório Transformação Digital nas Atividades da Cadeia de Suprimentos, elaborado pela Fundação Dom Cabral (FDC), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a partir de uma pesquisa com 372 executivos e gestores de empresas brasileiras de médio e grande porte.

O estudo traz um retrato preciso de onde o Brasil já avançou e em quais áreas ainda enfrenta gargalos, ao combinar tecnologia, pessoas e conhecimento em um cenário de crescente complexidade logística e competitiva.

Cadeias mais digitais, mas não necessariamente mais inteligentes

Os dados mostram que as empresas brasileiras já incorporaram tecnologias consideradas “base” da transformação digital. Computação em nuvem, big data e sistemas inteligentes de apoio à decisão são amplamente utilizados, sobretudo para ampliar a visibilidade da cadeia, apoiar previsões de demanda e melhorar decisões operacionais.

Inteligência artificial, internet das coisas (IoT) e rastreabilidade digital também aparecem com níveis relevantes de adoção, reforçando o foco em eficiência, controle e confiabilidade.

Por outro lado, tecnologias mais avançadas e associadas a um estágio superior de maturidade, como gêmeos digitais, robótica inteligente, realidade aumentada, realidade virtual, dispositivos vestíveis e assistentes ativados por voz ainda são pouco exploradas. Em alguns casos, mais de 60% das empresas afirmam nunca ter utilizado essas soluções.

A percepção é de que a transformação digital avança, mas de forma incremental, concentrada em ganhos operacionais, e ainda distante de um modelo plenamente integrado e preditivo de cadeia de suprimentos.

O fator humano segue no centro da estratégia

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a constatação de que, apesar da digitalização crescente, o trabalhador continua sendo um ativo estratégico. A tecnologia, por si só, não substitui competências humanas, como análise crítica, julgamento, colaboração e tomada de decisão em ambientes incertos.

O relatório adota o conceito de Smart Working, que reposiciona a tecnologia como meio para ampliar produtividade, autonomia, segurança e aprendizado, e não apenas como ferramenta de automação.

Na prática, isso significa que cadeias de suprimentos mais digitais exigem profissionais mais qualificados, capazes de interpretar dados, interagir com sistemas inteligentes e atuar de forma integrada entre áreas, parceiros e clientes.

Gestão da cadeia: bases sólidas, processos bem estruturados

Os resultados indicam um bom nível de maturidade na gestão dos principais processos da cadeia de suprimentos. A maioria dos participantes da pesquisa demonstra confiança em suas práticas, que incluem:

  • relacionamento com fornecedores, com foco em parcerias de longo prazo, integração de dados, avaliação de desempenho e envolvimento em inovação;
  • gestão da demanda, com uso de previsões, simulações, gestão de riscos e alinhamento entre compras e produção;
  • logística e distribuição, abrangendo controle de estoques, fluxo de materiais, rotinas operacionais e comunicação entre áreas;
  • relacionamento com clientes, com estratégias claras de atração, fidelização, pós-venda e desenvolvimento conjunto de soluções.

Esse conjunto de resultados revela que as empresas brasileiras já estruturaram os pilares operacionais da cadeia. O desafio, agora, é evoluir da eficiência para a inteligência estratégica.

Gestão do conhecimento

Outro achado central do estudo está na gestão do conhecimento. As empresas demonstram uma forte adesão ao compartilhamento de conhecimento explícito, por meio de treinamentos formais, documentação de processos, registros de boas práticas e lições aprendidas.

No entanto, o conhecimento tácito (aquele que nasce da experiência, da vivência prática e da troca informal) ainda enfrenta barreiras. Práticas como mentoria, rotação de funções, relatos estruturados de experiências e aprendizado entre pares apresentam elevados índices de discordância.

Na prática, isso indica que muitas organizações ainda têm dificuldade em transformar experiência individual em aprendizado organizacional, limitando sua capacidade de inovação e adaptação contínua.

Desempenho melhora, mas estoques e engajamento preocupam

Nos últimos três anos, as empresas perceberam avanços consistentes em indicadores como qualidade de produtos e serviços, confiabilidade das entregas, redução de lead time e capacidade de resposta a mudanças na cadeia.

Porém, a redução dos níveis de estoque surge como um ponto crítico, com alto grau de discordância entre os respondentes. O dado sugere dificuldades em sincronizar demanda, produção e logística , mesmo com maior uso de dados e tecnologia.

No desempenho dos trabalhadores, houve melhora em produtividade, colaboração e qualidade do trabalho. Ainda assim, aspectos como autonomia, flexibilidade e redução da rotatividade permanecem como desafios, reforçando que a transformação digital nem sempre se traduz automaticamente em melhores condições organizacionais.

Agenda executiva

O relatório ainda faz um alerta para gestores e membros dos conselhos administrativos: o próximo estágio da transformação digital da cadeia de suprimentos não será tecnológico, mas estratégico e humano. Isso traz uma mudança importante de conceitos no setor, que inclui:

  • investir no desenvolvimento de lideranças com fluência digital;
  • avançar na adoção de tecnologias emergentes de forma integrada;
  • fortalecer mecanismos de compartilhamento de conhecimento tácito;
  • alinhar digitalização, cultura organizacional e desempenho humano.

A cadeia de suprimentos brasileira já entrou na era digital, mas, de acordo com o estudo, a competitividade sustentável virá da capacidade das organizações de integrar tecnologia, pessoas e conhecimento em um modelo de gestão inteligente.

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