17 maio, 2026
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Ritmos circadianos devem ser respeitados

Estudo convoca escolas de negócio e empresas a estimular sono saudável e considerar horários alternativos de estudo e trabalho conforme tendência matutina ou vespertina do aluno ou funcionário

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Ritmos circadianos devem ser respeitados

Organizações que não estimulam seus colaboradores a viverem corretamente seus ritmos circadianos podem estar contribuindo para gerar uma crise de saúde e bem-estar. Essa é a conclusão de estudo desenvolvido por pesquisadores de universidades da Austrália, que encorajaram as escolas de negócio e empresas a estimularem rotinas de sono saudáveis e até mesmo adaptarem tarefas à tendência matutina ou vespertina dos profissionais.

Vale explicar que o ritmo circadiano refere-se ao relógio biológico do organismo, que regula processos físicos, mentais e comportamentais, em um ciclo de 24 horas, controlando sono e vigília, hormônios, temperatura corporal e digestão.

O estudo foi elaborado por Stefan Volk, da Universidade de Sydney, Jon Billsberry, da Universidade La Trobe, e Véronique Ambrosini, da Universidade Monash. Os autores também convocaram as escolas de negócios a adotarem uma abordagem mais “holística” no relacionamento com os alunos, estimulando bons ritmos circadianos dos estudantes, o que favoreceria sua saúde fisiológica e psicológica e ainda impactaria de forma positiva seu futuro como gestores no mundo corporativo.

Menos sono não está ligado a sucesso

O que ocorre hoje, segundo os pesquisadores, é que as escolas oferecem cursos muito exigentes e estimulam cultura competitiva, envolvendo longas horas de estudo e pressão para networking, e com isso trazendo prejuízo à saúde e bem-estar dos alunos, ao não favorecerem o cumprimento de bons ritmos circadianos. O estudo afirma que este cenário é agravado pelo estereótipo de “executivos de negócios durões que não podem se dar ao luxo de admitir quaisquer vulnerabilidades”, e pela máxima de que “menos sono está ligado a mais sucesso”.

“Incentivamos as escolas de negócios a se tornarem agentes de mudança para uma melhor gestão circadiana e liderança no local de trabalho e dentro de suas próprias instituições”, afirmou o estudo.

Comportamentos negativos

Para os autores, alunos – e também acadêmicos – vêm sofrendo reflexos de baixos níveis de energia e, muitas vezes, esgotamento, ansiedade e depressão. Eles destacaram que o mau cumprimento dos ritmos circadianos pode levar a atitudes impulsivas negativas, como consumo de alimentos não saudáveis, uso indevido de drogas e álcool e comportamentos sexuais de risco. Apesar disso, o sono é subvalorizado quando os alunos se preparam para o futuro de gestão nas empresas.

“Não é incomum que, em escolas de negócios, a má saúde circadiana seja celebrada e a privação do sono usada como um distintivo de honra, com expressões como ‘você pode dormir quando o MBA acabar!’”, alertaram os pesquisadores.

Aprendizado ocorre durante o sono

O estudo aborda um aspecto desconhecido por boa parte das pessoas. A partir da uma perspectiva neurológica, o aprendizado não ocorre apenas na sala de aula ou nas sessões de estudo, mas enquanto dormimos. Os seres humanos passam por duas fases principais do sono: sono sem movimento rápido dos olhos (NREM) e sono com movimento rápido dos olhos (REM). Ambas as fases são essenciais para o aprendizado, segundo a pesquisa.

Durante a vigília, o cérebro recebe novas informações e as absorve na memória de curto prazo. Mas a capacidade dessa memória de curto prazo do cérebro é severamente limitada se a informação não for transferida para a memória de longo prazo diariamente. Essa transferência ocorre durante o sono NREM, que é importante para a reflexão e retenção do conhecimento.

O sono REM, por outro lado, é a fase do sonho, durante a qual o cérebro dá sentido às informações armazenadas e forja novas ligações entre peças de informação não relacionadas. O sono REM é, portanto, importante para a consolidação e integração da memória para o aprendizado e a cognição.

Estagiário morreu após 72 horas sem dormir

O desrespeito aos ritmos circadianos, em especial a privação de sono, poderia até levar à consequências trágicas. A pesquisa dos acadêmicos australianos citou o caso do estagiário Moritz Erhardt, de 21 anos. Aluno da Universidade de Michigan, Erhardt faleceu, em 2013, após uma convulsão epiléptica depois de trabalhar por 72 horas sem dormir para seu empregador Bank of America Merrill Lynch.

Embora não tenha sido comprovado que a privação de sono foi a causa mortis, o caso tornou-se icônico no meio acadêmico e empresarial. Erhardt costumava pegar um táxi do trabalho para casa depois de uma noite em claro, deixava o táxi esperando enquanto tomava banho e trocava de roupa, e voltava no mesmo veículo para o escritório.

Embora todos os humanos tenham ritmos circadianos semelhantes, há diferenças significativas entre estes ciclos. Sob uma ótica circadiana, a humanidade pode ser dividida entre cotovias – pessoas com hábitos matutinos – e corujas – indivíduos com atividade mais vespertina e noturna. Cotovias são aves muito comuns na Europa, Ásia e Norte da África.

As diferenças individuais nos ritmos circadianos são chamadas de cronotipos. Pessoas com cronotipos mais precoces, chamados de tipos matutinos, atingem seus níveis máximos de melatonina, cortisol e temperatura corporal mais cedo no dia, em comparação com cronotipos posteriores. As cotovias acordam cedo, são ativas nas primeiras horas da manhã e vão para a cama cedo. Já as corujas costumam acordar mais tarde, são ativas mais tarde e vão para a cama mais tarde. Devido a esse contexto, os autores do estudo defendem que sejam criados “horários escolares e de trabalho biocompatíveis”.

Pessoas mais velhas costumam ser matutinas

A cronobiologia pode criar situações conflitantes. De acordo com o estudo, ao longo da vida os indivíduos sofrem oscilações entre ter atividade mais diurna, vespertina ou noturna. À medida que as pessoas envelhecem, seu relógio biológico muda e os ciclos de sono e vigília avançam em direção ao comportamento mais matutino.

Pessoas maduras, em geral após os 40 anos, atingem seus picos mentais, emocionais e físicos cada vez mais cedo e acham difícil estar energizados após o início da tarde. Mas os programas de educação executiva são comumente agendados à noite e terminam em horas avançadas, para permitir que funcionários assistam as aulas após o trabalho. Como resultado de ficarem alertas até tarde e acordarem cedo na manhã seguinte para ir ao trabalho, esses profissionais podem sofrer uma espécie de ‘jetlag social’.

Como as organizações podem mudar este cenário?

Considerando que o desempenho e a produtividade dos colaboradores tende a ser maior (ou menor) de acordo com os ciclos circadianos, o ideal seria que as lideranças estabelecessem uma janela de horário em sincronia com tais ritmos e adotassem posturas mais flexíveis.

Dentre as dicas sugeridas pelos pesquisadores, um ponto essencial, para os líderes, é identificar os cronotipos dos trabalhadores, procurando entender se a equipe é composta por “cotovias” ou “corujas”. Além disso, o estabelecimento de jornadas de colaboração flexíveis, com horários centrais de trabalho comuns (por exemplo, entre 10h e 15h) e o restante flexível, pode ser uma alternativa para garantir o melhor desempenho dos diferentes perfis de profissionais.

Um ponto importante a ser considerado pelas organizações é que o respeito ao ritmo biológico das pessoas gera não somente maior produtividade e engajamento, mas também torna essas empresas mais atraentes para novos talentos, que entendem que o ambiente é ideal para o desenvolvimento de suas potencialidades.

Confira, abaixo, um comparativo dos dois modelos de gestão, que permite visualizar melhor a importância de incluir o respeito aos ciclos circadianos na estratégia organizacional.

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