Sucesso corporativo e bem-estar passam por relações de confiança
Especialistas defendem que segurança psicológica, pertencimento e escuta ativa são fatores essenciais para fortalecer vínculos, evitar o burnout e melhorar resultados organizacionais
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A confiança costuma ser tratada como um valor abstrato nas organizações, mas seus efeitos são concretos. Ela influencia a produtividade, a colaboração entre equipes, a qualidade das decisões e até mesmo a saúde mental dos profissionais. Por outro lado, para evitar os efeitos nocivos da desconfiança, líderes precisam monitorar as relações corporativas e utilizar a própria lógica da reciprocidade para criar ambientes mais seguros, colaborativos e produtivos.
O tema foi debatido no painel “O Elo Invisível: A Ciência da Confiança em Tempos de Caos”, realizado durante o Rio2C. A discussão reuniu a sócia-fundadora da Nêmesis Neurociência Organizacional e professora convidada da Fundação Dom Cabral (FDC), Ana Carolina Souza, sua sócia, Joana Coelho, e a sócia-fundadora da Amboni&Pieratti, a advogada Leila Amboni. Juntas, as executivas abordaram como a confiança é construída, por que ela vem sendo fragilizada e quais são os impactos desse fenômeno no ambiente corporativo.
Segundo as painelistas, a confiança não é apenas uma escolha racional, mas um mecanismo ligado à biologia humana. Ana Carolina explicou que a atitude estimula a liberação de ocitocina, hormônio associado à formação de vínculos sociais. O processo cria um ciclo de reciprocidade, no qual a demonstração dessa atitude aumenta a probabilidade de reciprocidade.
O elo invisível que sustenta os negócios
O debate tratou a confiança como uma atitude, com implicações no âmbito pessoal e profissional. Por trás dessa perspectiva, reside o fato de que organizações dependem da cooperação entre pessoas que muitas vezes têm pouca convivência prévia, mas precisam confiar umas nas outras para alcançar resultados.
Nesse contexto, as especialistas retomam o conceito de cinismo nas interações profissionais, pautado na autossuficiência e, consequentemente, em um certo isolamento. Alimentado por um excesso de informações, muitas vezes carregadas de experiências frustrantes e falta de segurança, essa condição leva indivíduos a acreditarem que não é possível confiar em ninguém.
De forma mais clara, Ana cita a forma como o Rio de Janeiro é retratado em jornais e redes sociais, como um lugar violento, onde sair de casa é um risco. Essa percepção não retrata toda a complexidade da realidade da cidade, embora a segurança pública permaneça um desafio recorrente.
Adotar precauções não é o problema, as consequências negativas se materializam quando essa postura defensiva se torna rígida e permanente. Pessoas que trabalham constantemente em estado de alerta tendem a apresentar níveis mais altos de estresse, dificuldade para delegar tarefas e menor disposição para desenvolver empatia.
Segundo Leila, esse comportamento pode contribuir para o acúmulo de tarefas e, portanto, para sobrecarga e burnout. Um dos componentes da síndrome é justamente o distanciamento emocional em relação ao trabalho e às pessoas, criando um ciclo que reforça ainda mais a desconfiança.
Neste ponto, a advogada ressalta o papel do líder em perceber o ambiente de pouca credibilidade e o cinismo presente na organização. Mais do que identificar esse cenário, é dever da liderança buscar caminhos para superá-la, inclusive por meio da reestruturação ou eliminação de práticas de gestão que desestimulam a confiabilidade entre os colaboradores.
Em um ambiente considerado burocrático, com constantes mudanças nas legislações que nem sempre serão acompanhadas em suas particularidades, abre-se uma lacuna que pode ser preenchida pela confiança. Além disso, espaços de experimentação permitem que vínculos se fortaleçam. Em suma, quando presente, a confiança favorece a colaboração, a inovação e a capacidade de resolver problemas coletivamente. Quando ausente, gera controles excessivos, burocracia e ambientes marcados pela suspeita constante.
Segurança psicológica e pertencimento
Nos ambientes profissionais, a construção da confiança também passa pelo sentimento de pertencimento. Estar formalmente inserido em uma equipe não significa necessariamente sentir-se parte dela.
Para Joana, um dos componentes da base dessa conexão é a segurança psicológica. Sem medo de julgamentos e de demonstrar vulnerabilidade, as pessoas conseguem ser mais autênticas e se sentem mais respeitadas. Não se trata apenas de “vestir a camisa” da empresa para se sentir pertencente, é preciso se sentir seguro para ser quem é.
Como recuperar ou construir a confiança no ambiente corporativo? As especialistas recomendam medidas simples: escuta ativa, comunicação clara, conversas presenciais, demonstrações genuínas de interesse pelo outro, disponibilidade e questionamento do próprio cinismo.
Por fim, Leila deixa uma citação do psiquiatra Carl Jung como um norte para a construção de relações de confiança: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

