Como investir no ano da vacina

Fioto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

*Gabriela Santos

Não devemos abandonar temas que continuarão sua tendência de forte crescimento ao longo da próxima decada como: tecnologia, saúde, ascensão da China, e energia limpa


O ano de 2020 foi um período de fins e de novos começos. As medidas de distanciamento social impostas globalmente para controlar a pandemia causaram a recessão global mais profunda em quase cem anos, colocando um fim a uma expansão global de dez anos.

Uma recuperação global começou no terceiro trimestre de 2020, mas ainda provisória e desigual por setores e regiões. Isso deve continuar ainda no começo de 2021, pois o mundo continuará refém das reviravoltas da pandemia.

Porém, ao longo de 2021 a recuperação global deverá ganhar mais e mais força com a distribuição global de vacinas contra a covid-19. A segunda metade do ano deverá ser particularmente forte, com uma ativação do setor de serviços que tem estado tão pressionado durante a pandemia.

Regionalmente, devemos ver uma aceleração particularmente forte fora do norte da Ásia, em países que têm tido muita dificuldade este ano em conviver com o vírus. Adicionalmente, as políticas monetárias e fiscais deveriam continuar apoiando a recuperação, especialmente em países desenvolvidos que têm espaço adicional para apoio. Ao todo, devemos ver todas a regiões com um crescimento econômico acima da média em 2021.

Como a economia, o crescimento de lucro das empresas globais deverá registrar um forte aumento em 2021. Esse é um ambiente propício para ativos de risco, como crédito corporativo e renda variável. Ao contrário de 2020, esse crescimento de lucro deverá ser mais abrangente por setor. Este ano, o crescimento de lucro tem sido positivo somente para as empresas relacionadas ao “mundo virtual”, como tecnologia e varejo on-line.

Em 2021, devemos ver as empresas relacionadas ao “mundo real” tendo uma melhora expressiva em lucro, em setores como o financeiro, industrial e material. Essa tendencia deverá apoiar particularmente os mercados acionários que têm mais exposição a esses setores cíclicos, como Europa, Japão, países emergentes, e companhias de pequeno porte nos Estados Unidos.

Na renda fixa, deveria ser um ambiente favorável para setores de mais alto risco, como o de “high yield” nos Estados Unidos e a dívida soberana emergente em dólares.

Muito mudará em 2021 em comparação a este ano, porém cinco princípios de investimento vão resistir ao teste do tempo:

1) Os mercados sempre se adiantam. Enquanto os efeitos mais fortes da vacina serão sentidos somente em um ano, os seus efeitos para os mercados já estão sendo percebidos hoje;

2) É crucial pensar na qualidade das companhias nas quais investimos. No fim do dia, as companhias ainda têm que sobreviver ao fim da pandemia – e prosperar no mundo pós vacina;

3) Por mais positiva que seja a perspectiva, volatilidade é esperada. Infelizmente, nada na vida é grátis. Com mais risco que adicionamos à carteira, mais volatilidade devemos esperar. É importante manter na carteira uma coleção de ativos que nos ajudam com a diversificação: dívida soberana, moedas fortes, alternativos e opções;

4) Haverá muitos anos depois do ano da vacina. Não devemos abandonar temas que continuarão sua tendência de forte crescimento ao longo da próxima década como: tecnologia, saúde, ascensão da China, e energia limpa;

5) Investimento internacional não é opcional, ele é essencial. Adicionar ativos internacionais à carteira de ativos locais continuará não só ajudando a diversificar o risco-país, mas também sendo chave para a geração de renda e crescimento.

*Gabriela Santos é estrategista de mercados globais da J.P. Morgan Asset

Fonte: Texto publicado originalmente no Valor Econômico

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