Do diploma à prática: por que a formação acadêmica já não basta?
O aprendizado contínuo não é mais opcional. É estratégico
Envato
No mundo do trabalho atual, a formação acadêmica deixou de ser sinônimo absoluto de empregabilidade. Cresce o reconhecimento de que competências práticas, certificações específicas e soft skills são os verdadeiros diferenciais competitivos. E mais: o aprendizado contínuo não é mais opcional. É estratégico. Segundo a advogada, empresária e membra da CDL Jovem, Hosana Lima, o mercado mudou mais rápido que as grades curriculares. “Hoje o que pesa é a capacidade de execução, criatividade, adaptabilidade e visão de negócios”, explica. Para ela, embora o diploma ainda tenha valor, ele deixou de ser decisivo. “As empresas buscam compromisso, senso resolutivo, agilidade e resultado e isso nem sempre é garantido pela formação acadêmica”, destaca.
Relatório do Instituto de Educação da União Europeia previa que 40% da população de 30–34 anos deveria possuir ensino superior até 2020. No entanto, essa certificação deixou de ser um filtro determinante. Segundo reportagem da The Times, grandes empresas, como IBM e Accenture, vêm eliminando exigência de diploma formal e priorizando habilidades e experiência prática. Inclusive, dados do LinkedIn mostram um aumento de 14,2% entre 2021 e 2024 nas vagas que não mencionam exigência de diploma no Reino Unido, enquanto pesquisa da Hays revela que quase metade dos empregadores britânicos não considera mais o diploma essencial para contratar.
Em vez do “canudo”, competências práticas e comportamentais ganham protagonismo. “A comunicação assertiva, o pensamento crítico e a resolução de problemas são habilidades essenciais em um ambiente cada dia mais dinâmico. Liderar com escuta ativa e se adaptar a mudanças com inovação também se destacam”, afirma Hosana. O domínio de ferramentas digitais e a inteligência emocional completam esse novo perfil profissional.
Vagas em tecnologia e aprendizado ao longo da vida
Um estudo acadêmico que analisou vagas de emprego no Reino Unido entre 2018 e meados de 2024 concluiu que a exigência de diploma para cargos em inteligência artificial caiu 15%, enquanto habilidades técnicas passaram a valer mais: conferem prêmio salarial de 23%. O cenário revela um deslocamento sólido na valorização do que o candidato sabe fazer, e comprova. Os recrutadores consideram as soft skills tão ou mais importantes do que as habilidades técnicas. Esses dados ecoam com o que pensa a membra da CDL Jovem. “As hard skills, que são habilidades técnicas, podem ser ensinadas. Mas as soft skills são mais difíceis de desenvolver. E são justamente elas que impactam diretamente o clima organizacional, a experiência do cliente e os resultados do negócio”, diz. Profissionais com essas habilidades geram conexões mais fortes, lideram melhor e se adaptam mais rápido às mudanças do mercado.
Dados da UNESCO indicam que em quase um terço dos países menos de 5% dos adultos participam de programas de educação formal ou não formal após os 15 anos. Esse índice aponta para uma lacuna significativa entre a necessidade de reciclagem profissional e a oferta real de oportunidades de aprendizagem. O relatório GRALE 5 ainda revela que em 23% dos países menos de 1% da população adulta está envolvida em qualquer forma de educação contínua, especialmente entre grupos vulneráveis.
E o mercado?
Mas e o papel das empresas nesse processo? Elas estão fazendo sua parte? Segundo a especialista, há uma divisão clara. “As empresas mais inovadoras já entenderam que investir no desenvolvimento do time é uma vantagem competitiva. Oferecem treinamentos, bolsas de estudo e programas de capacitação. Mas a realidade da grande maioria ainda é diferente: esse investimento continua sendo responsabilidade do colaborador”, explica. Para ela, o ideal é que o desenvolvimento seja uma via de mão dupla, com iniciativas tanto dos profissionais quanto das empresas.
O desafio, portanto, é equilibrar teoria e prática, e entender que o aprendizado não acaba com a formatura. Para se manter competitivo, o profissional precisa adotar uma postura de aprendizado contínuo. “É preciso investir em cursos, imersões, mentorias, networking ativo, consumo de conteúdo relevante e, principalmente, aplicar o que se aprende na prática. Caso contrário, vira ‘obesidade mental’, muito conhecimento teórico e pouca ou nenhuma aplicação”, alerta Hosana. Abaixo algumas dicas que podem ajudar a conquistar o espaço no mercado:
- Adaptação rápida: ambientes de tecnologia e inovação exigem constante atualização. Um curso técnico ou certificação prática pode superar um diploma acadêmico defasado.
- Transferência imediata de valor: habilidades certificadas (como Scrum, ferramentas da Microsoft ou Bootcamps de tecnologia) indicam prontidão para contribuírem sem longo período de adaptação.
- Capacidade de aprendizado contínuo: empresas buscam profissionais que demonstram iniciativa de atualizar-se, seja por cursos online, treinamentos práticos ou experiências autodidatas.
- Competências humanas cada vez mais valorizadas: em um contexto automatizado, quem sabe colaborar, comunicar-se e resolver problemas complexos tem vantagem — é o que as métricas de recrutamento têm sinalizado.
Ou seja, diplomas seguem sendo importantes, especialmente para setores regulados ou técnicos. Mas já não bastam. O mercado evoluiu: hoje, empregabilidade e performance dependem de habilidades demonstráveis, certificações relevantes, soft skills e de uma mentalidade de aprendizado contínuo. Para profissionais e empresas, essa combinação é o verdadeiro diferencial de competitividade.

