17 set, 2026
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Farmácia na palma da mão: digital avança e muda a disputa no varejo farmacêutico

Vendas online das grandes redes já movimentam R$ 21,58 bilhões, enquanto plataformas, delivery e receitas eletrônicas desafiam empresas e regulação a acompanhar uma jornada cada vez mais digital

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Farmácia na palma da mão: digital avança e muda a disputa no varejo farmacêutico

Em 2020, os canais digitais representavam cerca de 3% dos negócios das grandes redes de farmácias brasileiras. Cinco anos depois, essa participação chegou a aproximadamente 18%. O salto ajuda a dimensionar uma transformação que vai além de trocar o balcão pelo aplicativo. Assim, a pesquisa, a prescrição, a consulta de preços e estoque, o pagamento e a entrega começam a se conectar em uma mesma jornada.

Entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, as vendas digitais das 29 redes que integram a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) movimentaram R$ 21,58 bilhões, crescimento de 54,82% em relação ao período anterior. O indicador de clientes atendidos pelos canais digitais ultrapassou 150,8 milhões no intervalo analisado, segundo levantamento auditado pela FIA-USP.

O avanço ajuda a reposicionar uma característica historicamente importante para o setor, a proximidade. Durante décadas, estar perto significava manter uma unidade na esquina, no bairro ou em uma região de grande circulação. No ambiente digital, proximidade passa também pela capacidade de aparecer rapidamente em uma busca, informar disponibilidade, permitir a compra sem atrito e entregar o produto no tempo esperado pelo consumidor.

A lógica acompanha uma transformação mais ampla do varejo. No OmniVarejo 2026, realizado em agosto em João Pessoa, Marília Prado, da Cielo, resumiu essa mudança ao analisar o comportamento de compra: “As pessoas não escolhem o canal para comprar; elas têm a necessidade de comprar e transitam em vários meios”.

No varejo farmacêutico, porém, essa circulação entre canais acrescenta uma camada que não existe da mesma maneira em outros segmentos: medicamento não é uma mercadoria qualquer. Procedência, armazenamento, prescrição, responsabilidade técnica e uso adequado continuam existindo mesmo quando a compra passa a acontecer em poucos cliques.

E é justamente nesse ponto que crescimento digital, competição e regulação começam a se encontrar.

O digital cresce, mas não na mesma velocidade para todos

Os bilhões movimentados pelo comércio eletrônico mostram a força do canal nas grandes redes, mas não significam que toda a indústria esteja no mesmo estágio de maturidade digital. A diferença aparece até entre empresas de porte relevante.

Neilton Neves, CEO da Redepharma, reconheceu que o digital ainda é um dos pontos em que a companhia precisa avançar. Com origem na Paraíba, a rede construiu sua expansão principalmente a partir das lojas físicas e deve chegar ao fim deste ano, segundo o executivo, ampliando novamente sua presença. “No nosso caso, o grande desafio que nós temos hoje é o canal digital. Hoje é uma deficiência nossa, a gente precisa aprender muito”, afirmou.

A declaração expõe uma realidade importante do setor. Enquanto algumas companhias já trabalham com uma participação digital próxima ou superior a um quinto das vendas, redes regionais precisam conciliar investimentos em expansão física, sistemas, estoque, logística e relacionamento digital sem necessariamente dispor da mesma estrutura tecnológica dos maiores grupos nacionais.

Reconhecer a distância, para o executivo, é o primeiro passo. “Temos consciência disso, então cabe a nós trabalhar e evoluir nesse aspecto”, reflete.

O desafio ganha peso porque a tecnologia também encurtou o prazo para tomar decisões. Ele também chamou atenção para a velocidade com que soluções se tornam ultrapassadas. “Um projeto que chega hoje, se você não implantar em três meses, daqui a três meses já tem coisas mais evoluídas. A gente está num processo tão evolutivo que você tem que se agarrar e fazer de imediato”, disse.

Isso não significa que o ponto de venda perdeu importância. Pelo contrário, já que o movimento que ganha força é justamente de integração. A loja pode funcionar simultaneamente como espaço de atendimento, ponto de retirada, estoque próximo ao consumidor e base para entregas.

O problema deixa de ser apenas “ter um e-commerce”. É fazer site, aplicativo, estoque, equipe, pagamento, prescrição e logística conversarem sem transformar a conveniência prometida ao consumidor em complexidade operacional para a empresa.

Marketplaces entram no jogo, mas as regras ainda estão sendo construídas

Uma mudança na legislação brasileira tornou essa discussão ainda mais relevante em 2026. Sancionada em março, a Lei nº 15.357 alterou a legislação que regula o comércio farmacêutico e passou a permitir que farmácias e drogarias devidamente licenciadas contratem canais digitais e plataformas de comércio eletrônico para fins de logística e entrega ao consumidor, desde que toda a regulamentação sanitária seja cumprida.

A alteração abre caminho para uma presença maior de plataformas que já fazem parte da rotina do comércio eletrônico e do delivery brasileiro. Mas não significa que qualquer marketplace possa simplesmente começar a vender medicamentos.

Em agosto, depois de revogar medidas preventivas que atingiam plataformas como iFood, Rappi, Mercado Livre, Americanas e Shopee, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez questão de esclarecer que a decisão não representava uma autorização automática para a comercialização de medicamentos nesses ambientes. A aplicação da nova lei depende da regulamentação sanitária que ainda está sendo elaborada.

No dia 19 do mesmo mês, a diretoria colegiada da agência aprovou a abertura formal do processo para definir as regras sobre contratação de plataformas digitais para logística e entrega. Entre os pontos em discussão estão responsabilidades dos envolvidos, rastreabilidade, fiscalização, segurança sanitária e responsabilidade técnica.

Ao comentar a abertura do processo regulatório, o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, destacou uma particularidade que diferencia o setor de outros segmentos do comércio: “o medicamento não é um bem de consumo comum”.

A diferença é fundamental.

Em um marketplace tradicional, a experiência ideal costuma ser medida por variedade, preço, velocidade e conveniência. No comércio de medicamentos, esses fatores continuam relevantes, mas precisam conviver com outras perguntas: quem responde pela dispensação? Como garantir a origem do produto? Quem verifica requisitos de prescrição? Como são preservadas as condições adequadas de armazenamento e transporte? E até onde vai a responsabilidade da farmácia e começa a da plataforma?

A discussão regulatória, portanto, acontece enquanto o comportamento do consumidor já se move.

Até a receita entra na transformação

A Anvisa está implantando o Sistema Nacional de Controle de Receituários (SNCR), que centralizará nacionalmente a numeração de receitas de medicamentos sujeitos a controle especial e permitirá ampliar o uso de prescrições eletrônicas.

Quando plenamente integrado, o sistema permitirá acompanhar o ciclo da receita, incluindo emissão, validação, dispensação e baixa. Para as farmácias, isso envolverá verificar autenticidade, confirmar informações do prescritor e registrar eletronicamente a utilização, reduzindo a possibilidade de reutilização irregular de uma mesma numeração.

A agência estabeleceu 30 de setembro de 2026 como prazo para disponibilizar as funcionalidades eletrônicas do SNCR. Isso não significa o fim das receitas físicas, que continuarão existindo, nem que todas as farmácias passarão automaticamente a operar o novo modelo nessa data. A implementação envolve integração gradual com sistemas de prescrição e adaptação dos diferentes atores da cadeia.

Ainda assim, o movimento aponta para uma jornada progressivamente conectada.

O consumidor pode receber uma prescrição em meio eletrônico, localizar o produto pelo celular, comparar condições, realizar o pagamento digital e receber o medicamento em casa. Na superfície, são menos etapas. Por trás da tela, no entanto, aumenta o número de sistemas, agentes e responsabilidades que precisam funcionar de maneira coordenada.

É uma diferença importante, já que digitalizar a experiência não significa simplificar a operação.

Para o consumidor, tudo deve parecer cada vez mais fácil. Para o varejista, fazer essa facilidade funcionar tende a exigir investimentos crescentes em tecnologia, integração, logística, dados, treinamento e segurança.

A próxima disputa não será apenas por lojas

O varejo farmacêutico brasileiro continua ampliando sua presença física. Lojas ainda são fundamentais para capilaridade, atendimento imediato, confiança e serviços que dificilmente podem ser reproduzidos integralmente na tela.

Mas os números mostram que a disputa por proximidade ganhou uma segunda dimensão.

Se, há poucos anos, uma rede regional podia construir vantagem competitiva principalmente escolhendo bons pontos comerciais e conhecendo profundamente o consumidor de determinada cidade ou estado, agora precisa também ser encontrada no celular desse mesmo cliente.

Para o CEO da Redepharma, Neilton Neves, essa corrida exige velocidade sem abandonar aquilo que acontece dentro da unidade. A própria Redepharma, antes de reconhecer a necessidade de avançar no online, foi pioneira regionalmente em mudanças no espaço físico, como a expansão do autosserviço e a adoção de novos formatos de atendimento.

É justamente essa combinação que deve marcar a próxima etapa do setor.

O digital não elimina a farmácia física. A farmácia física também já não basta, sozinha, para garantir proximidade.

À medida que e-commerce, aplicativos, plataformas de delivery e prescrições eletrônicas avançam, a vantagem competitiva tende a migrar para quem conseguir fazer esses diferentes pontos funcionar como uma experiência única, sem transformar velocidade em perda de segurança.

A farmácia já chegou à palma da mão do consumidor. O desafio agora é garantir que, ao caber no celular, ela continue sendo farmácia e não se transforme apenas em mais um botão de entrega.

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