14 jul, 2024
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“Ninguém pode ser líder de mercado se não liderar na classe C”

Pesquisa da Locomotiva traça panorama da classe média brasileira, que abrange metade da população.

Quando falamos de otimismo ou pessimismo na população, quem direciona esse humor é a classe C. Os altos e baixos da economia significam privação de consumo. Em uma palavra, escolhas. A classe C é o retrato do Brasil. “Nós estamos falando aí de uma classe C que, se a gente não entender, não vamos entender nada”, afirma Renato Meirelles, fundador e presidente do Instituto Locomotiva.

Essa classe tem rosto:

  • 57% é formada por pretos ou pardos;
  • 49% dos lares chefiados por mulheres, porque parte é mãe solteira, ou foi pro mercado de trabalho e o homem não divide as tarefas como deveria; e
  • 52% de pessoas que não concluíram o ensino médio.

A classe C é o retrato do Brasil
Nesse momento de retomada econômica, ele avalia que a classe C será o motor do aumento do consumo. “Quando falamos de liderança de varejo, de negócios, ninguém no Brasil pode ser líder de mercado se não for também na classe C”, vaticina Renato Meirelles. Isso porque a base da economia brasileira se movimenta pela classe C.

“As classes D e E consomem, principalmente, nos pequenos varejos do bairro. Cujos donos são da classe C, que com isso contratam mais gente, passam a ter um pouco mais dinheiro no bolso e essa pessoa que está contratando ou têm emprego formal sobe para a classe C, que também é empregada pela indústria, que vai passar a produzir mais para atender a essa nova demanda de consumo. Então, o grosso do crescimento econômico se dará por essa nova classe média”, explica o presidente do Instituto Locomotiva.

Um exemplo em relação à renda é a classe A tem recursos suficientes para comprar, mas não tem a necessidade desse volume de consumo. “É preciso vender para essa classe C que hoje está endividada”.

Quem é a classe C?

  • 57% é formada por pretos ou pardos;
  • 49% dos lares são chefiados por mulheres – parte é mãe solteira ou foi pro mercado de trabalho e o homem não divide as tarefas como deveria;
  • 52% não concluíram o ensino médio;
  • 43% da sua renda é dedicada a alimentação, dentro e fora de casa;
  • 7 em cada 10 pessoas leva marmita para o trabalho;
  • 83% das pessoas deixaram de comer ou comem carne muito raramente;
  • 7 em cada 10 pessoas deixaram de comer fora.

O bolso da classe C encolheu!
No entanto, a inflação apertou o cinto dos consumidores. A classe C gasta 43% da sua renda com comida, dentro e fora de casa. E segundo a pesquisa da Locomotiva, encomendada pela VR, 7 em cada 10 pessoas leva marmita para o trabalho.

Segundo os dados internos da VR, 83% das pessoas deixaram de comer ou comem carne muito raramente. E 7 em cada 10 pessoas deixaram de comer fora. Ela consome a qualidade da nutrição.

Além disso, oito em cada dez brasileiros da classe C tem dívidas em aberto. Meirelles explica o contexto deste endividamento, que não é só imprudência ou má educação financeira, explica. “Existe uma espécie de rodízio de contas para sobreviver, um cálculo para atrasar uma conta e resolver a outra, priorizando garantir a alimentação e pagar dívidas que tem mais impacto, como cartão de crédito e contas de casa, as utilities”.

Com isso, o brasileiro foi se tornando um “especialista em estratégias para manter o consumo”, explica Meirelles. “E surge a radicalização do custo-benefício, em que o consumidor passa ser muito mais exigente sobre os produtos que estão comprando, da relação qualidade-preço”, indica.

A lógica de levar mais por menos e vantagens concretas na compra se tornaram fatores decisivos para a o consumidor botar um produto no carrinho, muito mais do que a fidelidade a marcas ou locais.

Segundo o levantamento, 73% olham o preço, 52% preferem qualidade, e 36% elegem suas compras pela marca.

Há cinco anos, 40% do valor de um salário-mínimo comprava uma cesta básica. Hoje é necessário gastar 59% do salário-mínimo para comprar a mesma cesta.

O que determina o consumo na classe C?

  • 73% → Preço;
  • 52 → Qualidade;
  • 36% → Marca.

Com a pandemia, surgiu um novo fenômeno, que envolve onde e como se trabalha. O home office não foi a opção mais popular para a classe C, mas é um desejo de quem experimentou o trabalho sem precisar de deslocamento.

“As empresas que entenderem essa nova demanda da classe C vão largar na frente nessa nova demanda da economia”, avalia Meirelles.

Quem é quem entre as classes

  • Classe A (2,8%): renda mensal domiciliar superior a R$ 26 mil – 20 salários-mínimos;
  • Classe B (13,2%): renda mensal domiciliar entre R$ 13 mil e R$ 26 mil – entre 10 e 20 salários-mínimos;
  • Classe C (33,3%): renda mensal domiciliar entre R$ 5,2 mil e R$ 13 mil – entre 4 e 10 salários-mínimos;
  • Classes D/E (50,7%): renda mensal domiciliar até R$ 1.320 a 5,2 mil entre 1 e 4 salários-mínimos.