25 jul, 2026
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Perdas no varejo crescem e expõem a urgência de uma prevenção mais inteligente

Índice médio de perdas avançou de 1,51% para 1,65% em 2025, enquanto prejuízo financeiro do setor já alcança R$ 36,5 bilhões, mostrando que a prevenção se tornou uma questão de inteligência operacional

Perdas no varejo crescem e expõem a urgência de uma prevenção mais inteligente

As perdas sempre fizeram parte da rotina do varejo. Furtos, erros operacionais, falhas de processos, avarias, vencimentos, rupturas e divergências de inventário acompanham o setor há décadas. O que mudou, no entanto, foi a dimensão do problema e a complexidade das operações nas quais ele está inserido.

Os dados mais recentes apresentados pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas, a Abrappe, mostram que o índice médio de perdas do varejo passou de 1,51% em 2024 para 1,65% em 2025. O movimento interrompe a redução registrada no ano anterior e reforça a necessidade de uma atuação mais estruturada por parte das empresas.

O histórico do indicador ajuda a dimensionar o desafio. Após alcançar 1,21% em 2021, o menor patamar da série apresentada, o índice avançou para 1,48% em 2022 e 1,57% em 2023. Em 2024, houve uma redução para 1,51%, mas o crescimento registrado em 2025 mostra que as perdas permanecem como um problema relevante para o setor.

Além do impacto percentual, o prejuízo financeiro já atingiu R$ 36,5 bilhões, R$ 1,6 bilhão a mais do que no levantamento anterior. Os números deixam um recado claro: a prevenção de perdas não pode ser tratada apenas como uma atividade de segurança ou como uma resposta posterior à ocorrência de um problema. Ela se tornou uma questão de inteligência operacional, diretamente ligada à rentabilidade, à eficiência dos processos e à experiência do consumidor.

Outro dado que chama atenção é a concentração das perdas em três grandes causas: quebras operacionais, furtos — internos e externos — e divergência de estoque. Embora tenham origens distintas, esses problemas compartilham um ponto em comum: podem ser reduzidos por meio de processos mais consistentes, melhor acompanhamento das operações e uso qualificado das informações geradas pelas lojas.

A pesquisa também mostra que cada segmento enfrenta uma realidade própria. Em 2025, as lojas de conveniência apresentaram o maior índice de perdas, com 3,80%, acima dos 3,06% registrados no ano anterior. Na sequência aparecem os mercados de vizinhança, com 3,01%, e os supermercados convencionais, com 2,52%.

Embora mercados de vizinhança e supermercados tenham reduzido seus índices em relação a 2024, quando registravam 3,30% e 2,79%, respectivamente, os percentuais continuam elevados. Nos hipermercados, houve relativa estabilidade, com uma pequena redução de 2,11% para 2,08%.

Outros segmentos registraram movimentos expressivos. Nas perfumarias, o índice avançou de 1,01% para 1,55%. O magazine nacional passou de 1,04% para 1,18%, enquanto o segmento de eletromóveis subiu de 0,16% para 0,58%.

Em sentido contrário, atacados e atacarejos reduziram o índice de perdas de 1,85% em 2024 para 1,43% em 2025. Farmácias e drogarias também apresentaram uma pequena queda, de 1,28% para 1,24%, enquanto materiais de construção recuaram de 1,30% para 1,02%.

Essas diferenças mostram que não existe uma única resposta para a prevenção de perdas. Cada modelo de negócio possui fluxos, produtos, níveis de exposição e vulnerabilidades específicos. Uma loja de conveniência, marcada por alta circulação de consumidores e operações rápidas, enfrenta desafios diferentes dos encontrados em uma farmácia, em um supermercado ou em uma loja de materiais de construção.

Por isso, mais do que observar o índice consolidado, é necessário compreender onde as perdas acontecem, como se manifestam e quais processos estão relacionados a elas. Esse diagnóstico permite que a empresa deixe de atuar apenas sobre os efeitos e passe a identificar as causas dos desvios.

Ter câmeras é suficiente?

A tecnologia já ocupa uma posição importante nas estratégias de prevenção. Segundo a Abrappe, o Circuito Fechado de Televisão, o CFTV, é a ferramenta mais utilizada pelas empresas, presente em 86,9% das operações.

Trata-se de um percentual elevado, que demonstra a preocupação das redes em manter sistemas de monitoramento nas lojas. Ao mesmo tempo, o dado levanta uma pergunta importante: ter câmeras é suficiente?

Embora essenciais, as câmeras sozinhas não resolvem o problema. Quando as imagens dependem exclusivamente da observação humana ou são acessadas apenas depois de uma ocorrência, sua atuação permanece predominantemente reativa.

O principal desafio está em transformar as imagens e os demais dados produzidos pelas operações em informações úteis para a tomada de decisão. É nesse ponto que a tecnologia amplia seu papel, permitindo criar gatilhos automáticos para situações de risco, identificar comportamentos fora do padrão, cruzar informações operacionais e emitir alertas em tempo real.

Essa inteligência modifica a própria função do CFTV. Em vez de servir somente como fonte para investigações posteriores, o sistema passa a apoiar a prevenção, ajudando as equipes a identificar possíveis desvios antes que eles resultem em perdas.

A elevada utilização de ferramentas de Business Intelligence, presentes em 82,8% das operações, mostra que o varejo já avança em direção a uma gestão mais orientada por dados. O BI permite reunir informações de diferentes áreas, acompanhar indicadores, localizar pontos de vulnerabilidade e apoiar decisões mais rápidas.

As antenas antifurto, adotadas por 54,5% das empresas, também permanecem entre as principais tecnologias utilizadas. Além de funcionarem como uma barreira contra a retirada indevida de mercadorias, essas soluções podem ser integradas a outros sistemas, contribuindo para ampliar o controle e a rastreabilidade dos produtos.

Outras ferramentas já começam a complementar essa estrutura. Os relatórios de exceção estão presentes em 40,4% das operações, o reconhecimento facial aparece em 39,4% e os analíticos de vídeo alcançam 35,4%.

Os analíticos de vídeo representam uma evolução importante porque permitem interpretar automaticamente as imagens captadas pelas câmeras. Em vez de exigir o acompanhamento ininterrupto das telas, os sistemas podem reconhecer situações previamente configuradas e direcionar a atenção dos profissionais para os casos que realmente demandam análise.

Os softwares de monitoramento de caixas, utilizados por 27,3% das empresas, também ajudam a identificar cancelamentos, divergências, operações incomuns e outros padrões associados a erros, falhas de processo ou possíveis fraudes.

Soluções mais recentes ainda aparecem em uma parcela menor das operações. As aplicações de inteligência artificial destinadas à identificação de atitudes suspeitas ou furtos são utilizadas por 10,1% das empresas. Sistemas de prevenção de perdas baseados em Internet das Coisas estão presentes em 7,1%, enquanto as ferramentas de IA voltadas à identificação de subescaneamento ou ausência de registro no caixa alcançam 6,1%.

O RFID, adotado por 15,2% das empresas, oferece possibilidades relevantes para rastreabilidade e controle de inventário. Já os sistemas de inventário baseados em inteligência artificial aparecem em apenas 4% das operações.

Esses números demonstram que existe uma distância entre a disponibilidade das tecnologias e sua adoção em escala. Mas essa lacuna não está relacionada apenas ao investimento financeiro. A implantação de uma solução exige integração entre sistemas, qualidade dos dados, processos bem definidos e profissionais preparados para interpretar as informações geradas.

Pessoas e processos continuam no centro da prevenção

A evolução tecnológica não reduz a importância do fator humano. Pelo contrário: quanto maior o volume de dados produzido pelas operações, mais relevante se torna a capacidade das equipes de interpretar os sinais, avaliar os riscos e tomar decisões.

Essas ferramentas não devem substituir pessoas, mas ampliar sua capacidade de atuação. Ao automatizar o monitoramento e direcionar os alertas, elas permitem que os profissionais concentrem esforços nas ocorrências que exigem investigação, análise e intervenção.

Por esse motivo, o investimento em equipamentos e sistemas precisa caminhar junto com a revisão dos processos e a qualificação das equipes. Não basta produzir mais informações se os profissionais não estiverem preparados para compreender os indicadores e transformá-los em ações concretas.

No contexto do ecossistema humano das empresas do varejo, é essencial ampliarmos essa discussão para dois pilares: inclusão e desenvolvimento. Sobre o primeiro fator, enquanto a participação feminina em cargos de liderança no mercado brasileiro gira em torno de 35%, na área de prevenção de perdas esse percentual cai para apenas 15,6%.

Estimular a participação de profissionais com experiências e perspectivas distintas contribui para enriquecer a análise dos problemas e construir respostas mais adequadas à complexidade das operações. A formação de equipes plurais não deve ser tratada apenas como uma questão de representação, mas como um elemento capaz de fortalecer a tomada de decisão.

O varejo já compreendeu que as perdas não representam somente um percentual no balanço. Elas afetam a disponibilidade de produtos, a produtividade das equipes, a eficiência logística, o abastecimento, a experiência do consumidor e a margem das empresas.

O próximo passo é entender que a maturidade de uma operação não deve ser medida pelo número de câmeras, antenas ou sistemas instalados, mas pela capacidade de integrar tecnologia, processos e pessoas para gerar inteligência operacional.

Mais do que registrar o que aconteceu, a prevenção de perdas precisa identificar vulnerabilidades, antecipar riscos e orientar decisões antes que o prejuízo ocorra.

 

*Vanessa Urbieta é gerente de desenvolvimento de negócios da Inwave

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