Sem ajuda, varejo teria caído 9%, diz MB
Setor mais impulsionado pelo auxílio emergencial e um dos responsáveis pela retomada forte da atividade no terceiro trimestre, o varejo teria mostrado queda de quase 9% em […]
Setor mais impulsionado pelo auxílio emergencial e um dos responsáveis pela retomada forte da atividade no terceiro trimestre, o varejo teria mostrado queda de quase 9% em 2020 sem a renda extra proporcionada pelo benefício. A estimativa é da MB Associados, que projeta recuo de 1,4% para o volume de vendas do varejo ampliado (inclui automóveis e material de construção) no ano passado. De janeiro até novembro, a retração acumulada em relação a igual período de 2019 foi de 1,9%.
Em comentário quinzenal enviado a clientes, Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria, calcula que, excluindo o auxílio, o segmento teria registrado perda bem maior de janeiro a dezembro, de 8,8%. O exercício foi feito para mensurar o que o benefício representou para o varejo no ano passado e qual deve ser o “efeito rebote” em 2021 com o fim dele, diz Vale.
Concedido a trabalhadores informais a partir de abril, o “coronavoucher” foi reduzido de R$ 600 para R$ 300 em setembro e teve seu último pagamento em dezembro. Considerando a projeção da MB para o último mês do ano, foi pago aos beneficiários um total de R$ 296 bilhões, observa o economista.
Ele cita, também, pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de dezembro que apontou que, em média, 49% desses recursos foram gastos na compra de bens, o que significa cerca de R$ 145 bilhões. Para estimar o impacto desses recursos nas vendas, Vale usou os dados de receita operacional líquida do setor contidos na Pesquisa Anual do Varejo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A consultoria transformou o indicador anual em ciados mensais, com base no peso de cada mês no dado anual. A partir daí, foi construída uma série histórica para esse índice do varejo usando também a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE, que calcula a trajetória do volume de vendas mês a mês.
Em 2019, por exemplo, menciona Vale, a expansão de 3,9% do volume de vendas do comércio ampliado significou aumento de R$ 72,7 bilhões na receita líquida desse ramo de atividade. “Considerando os valores mensais do auxílio pagos pelo Tesouro Nacional, conseguimos identificar o gasto mensal médio com o varejo que a população teve e seu impacto mensal no indicador”, explicou o economista.
Assim, em seus cálculos, sem o “coronavoucher”, o volume cie vendas ampliadas teria diminuído 8,8% em 2020, em vez do 1,4% esperado pela consultoria. “Ou seja, o auxílio emergencial conseguiu evitar uma perda de cerca de 7,4 pontos percentuais no varejo ano passado. Certamente essa queda teria sido ainda maior pelos efeitos dinâmicos decorrentes das quedas em outros setores”, destacou o economista.
Em abril, mês que marcou o auge do impacto da pandemia na economia brasileira, ressalta Vale, a contração no varejo ampliado teria sido de 39%, em vez de 27,4%, frente a igual mês do ano anterior. Ao longo do ano, devido ao “colchão” de renda proporcionado pelo auxílio, o varejo teve apenas quatro meses de queda na comparação anual: março, abril, maio e junho.
Segundo Vale, a retomada em “V” do comércio, com crescimento acelerado nos últimos meses de 2020, coloca em dúvida a capacidade de sustentação do setor em 2021, quando o consumo deve ser mais destinado a serviços do que bens. “Não apenas o auxílio não estará mais disponível, mas também o mercado de trabalho continuará em recuperação muito lenta, com a taxa de desemprego chegando a 15% no primeiro semestre”, alerta ele.
No cenário da consultoria, o varejo ampliado deve crescer 3,6% na média deste ano, em grande parte influenciada pelo carregamento estatístico deixado por 2020, que seria, cie acordo com Vale, de quase 11%. Isso significa que, se o setor ficasse estável neste ano, mesmo assim terminaria 2021 com alta de 11%. “Com o mercado de trabalho ainda enfraquecido, é provável que o resultado final do varejo ampliado fique próximo cio nível mínimo”, avalia Vale.
Com a retirada do benefício e a piora da pandemia, é natural que a discussão sobre a extensão do auxílio volte, afirma o economista. Em sua visão, mesmo se houver alguma decisão do governo nesse sentido, é provável que o “coronavoucher” seja pago em apenas parte do ano e com valores menores do que os do ano passado, “com o agravante de não se pensar em um benefício permanente com incentivos para a saída futura do programa”.
Da Isto É Dinheiro

