11 out, 2026
0 ° C

Mercado de fusões e aquisições encolhe em volume, mas cresce em valor

Queda de 30% no número de operações contrasta com avanço de 25% no ticket por empresa transacionada com valores divulgados

Shutterstock
Mercado de fusões e aquisições encolhe em volume, mas cresce em valor

O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) encerra os cinco primeiros meses de 2026 com uma queda. Dados da TTR Data mostram que, na comparação anual até maio de 2025, o número de operações caiu em aproximadamente 30%. Em contrapartida, o ticket por transação divulgadas avançou cerca de 25%, indicando uma concentração de recursos em ativos maiores e teses mais consistentes.

No período até maio do ano passado, o valor referente às transações com valor publicado (278 de um total de 789) foi de R$ 142,4 bi. No mesmo período de 2026, a transações com valor publicado (240 de 557) atingiram R$ 153,2 bi.

Para Vitor Lourencini, vice-presidente da Acorn Advisory, o movimento não representa uma perda de apetite dos investidores, mas uma mudança no perfil das operações e faz uma análise das transações desse primeiro semestre.

“O que estamos vendo não é uma retração do mercado, mas um processo de filtragem. Tivemos menos deals, mas com um ticket bem maior. Isso quer dizer que o capital continua disponível, porém direcionado para empresas com escala, governança estruturada e capacidade comprovada de geração de valor”, analisa.

Os setores de Tecnologia, Serviços Financeiros, Real Estate, Energia, Distribuição e Varejo concentraram as operações mais relevantes do semestre. Em comum, as operações refletiram a busca de empresas por crescimento acelerado por meio de aquisições, no lugar da expansão orgânica tradicional. De outro lado, fundos de Private Equity que mantiveram o foco em ativos de maior porte, com potencial de geração de valor em escala.

Outro destaque do período foi a permanência do interesse estrangeiro. “Apesar das incertezas macroeconômicas e do ambiente global mais cauteloso, investidores da América do Norte e da Europa lideraram as aquisições, atraídos por valuations descontados em dólar e pela expectativa de uma reforma tributária à frente. Nesse contexto, o câmbio, que quase sempre aparece como vilão, virou trunfo para quem compra em moeda forte”, diz Lourencini.

Reforma Tributária impacta nos próximo deals

Para ele, a reforma tributária desponta como uma das principais variáveis para a formação de valor dos ativos nos próximos anos. A indefinição sobre a alíquota final dos novos impostos adiciona incerteza às avaliações de empresas e ativos.

“A extinção gradual dos incentivos fiscais até 2033 e a não cumulatividade plena já separam os alvos em dois grupos: de um lado, empresas que dependem de incentivos e tendem a perder valuation; de outro, empresas em setores beneficiados, que viram ativos estratégicos”, diz Lourencini.

Neste cenário, ele prevê que é no mercado de empresas de capital fechado que estão grande parte das oportunidades. “Empresas familiares de médio porte, com geração de caixa consistente, estrutura de capital equilibrada e padrões mínimos de governança, estão entre os ativos mais disputados por compradores e investidores”, explica.
Segundo ele, o segundo semestre será um teste para o mercado. Com a disputa eleitoral ganhando força e sem perspectiva de redução do custo de capital no curto prazo, a tendência é que o mercado de M&A continue focado em empresas preparadas, concentrando um volume maior de transações no próximo trimestre pré-eleições.

“Em um cenário de custo de capital elevado, como o brasileiro, a previsibilidade se tornou um ativo valioso. Investidores estão dispostos a pagar mais por empresas capazes de oferecer resultados estáveis e menor risco de execução. Assim, quem usou o primeiro semestre para arrumar governança e equilibrar a estrutura de capital chega nessa janela bem à frente de quem ainda está empurrando a decisão”, finaliza.

What's your reaction?