Opinião

Day trade, pirâmides e fraudes: como fugir de ciladas no mercado de ações

Por Merula Borges*

Número recorde de desempregados, a inflação corroendo o dinheiro, enquanto a sua poupança não rende praticamente nada. Então, você vê um anúncio chamativo na rede social dizendo que é o fim da renda fixa e o day trade e moedas virtuais são a nova sensação, e ainda tem alguém que encontrou a ação mais barata do mundo. Ver outras pessoas supostamente ganhando dinheiro rápido dá a sensação de que ficamos para trás, mexe com as emoções.

Taxas de juros mais baixas tem sido uma tendência mundial, e no Brasil não tem sido diferente. Com isso, é preciso se expor a mais riscos para rendimentos melhores. Muita coisa se modernizou no mercado de ações, mas uma premissa lá do tempo dos nossos avós continua válida: “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.

Com muita gente procurando renda, rendimentos maiores e pouca informação sobre o mercado financeiro, surgem diariamente casos tristes de pessoas que perderam seu dinheiro ou se endividaram acreditando em promessas irreais. São casos de pirâmides supostamente envolvendo moedas virtuais, influencers colocando o day trade como forma de ganhar dinheiro fácil e lendas urbanas de como ficar rico com a bolsa de valores em um ano. Para fugir dessas fraudes, lendas e pirâmides não tem outro jeito: é pesquisar e não cair nas promessas de dinheiro fácil.

Vejamos algumas lendas que o povo conta no mundo dos investimentos:

1) Bolsa de valores é cassino
A bolsa de valores é composta por empresas em busca de investidores. Essas empresas disponibilizam dados que podem ser analisados e acompanhados. A Comissão de valores mobiliários (CVM) e a Bolsa de valores brasileira são modelos no que diz respeito à regulamentação, e supervisionam o mercado diariamente para evitar manipulação, uso indevido de informações privilegiadas, fraudes, lavagem de dinheiro, exercício irregular de atividade, dentre outros.

2) Rentabilidade de 3% (ou qualquer outro valor) ao dia garantido
Ninguém pode assegurar rentabilidade de renda variável. Qualquer um que diga que tem uma fórmula infalível merece desconfiança.

3) Tem uma carta fiança que protege o valor investido
Essa foi uma prática vista em supostas operações envolvendo bitcoins, mas na verdade se tratava de uma pirâmide financeira. Não existe cobertura para prejuízos decorrentes de oscilações de preço. O investidor tem o dever de tomar as decisões e assumir os riscos de mercado inerentes às operações que executa.

Na Bolsa de Valores, existe um mecanismo de ressarcimento de prejuízos, mas atende a hipóteses muito especificas e até o limite de R$ 120 mil. Não estão cobertas operações de balcão, como ações, aluguel de ações, cotas de fundos imobiliários, negociação de contratos a termo e operações de day trade.

4) Um day trader profissional ganha entre R$ 600 e R$ 20.000 por dia
A explicação dos vídeos parece muito lógica, mas segundo pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mais da metade (54%) apresenta resultado médio negativo e só 5% tem resultado médio superior a R$ 10.000 por mês, lembrando que essa é apenas uma média realizada ao longo de um ano. Houve mês em que um day trader teve prejuízo de R$ 158 mil. A pesquisa conclui que mesmo em carreiras altamente competitivas é 10 vezes maior a chance de ter renda superior a um day trader profissional.

A renda variável é extremamente importante nas carteiras de investimento, mas ninguém pode garantir um retorno. Moedas digitais podem ser uma boa opção, mas não é um investimento com rendimento garantido. Por isso, pesquise, se informe e desconfie de propostas muito tentadoras. Propostas de dinheiro fácil são indicativos poderosos de fraudes.

*Merula Borges é coordenadora financeira da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

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