03 jun, 2026
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Depois do CNPJ: a rotina invisível dos pequenos negócios no Brasil

Histórias de pequenos empreendedores mostram como gestão, educação financeira, organização fiscal, acesso a orientação e condições dignas de trabalho podem decidir a sobrevivência de um negócio

Depois do CNPJ a rotina invisível dos pequenos negócios no Brasil

Antes de o primeiro cliente pedir o prato, Israel de Aguiar já percorreu uma parte do negócio que quase ninguém vê. Acorda por volta das 6h40, passa por atacadões, loja de embalagens e sacolão, escolhe produtos perecíveis, segue para a cozinha e acompanha a preparação do almoço. Depois vem o food truck, o atendimento, outro ponto de venda à noite, o fechamento, o estoque, a limpeza e a higienização das caixas térmicas. Em muitos dias, só deita por volta das duas da manhã. Poucas horas depois, começa tudo de novo.

“O comerciante, quando ele não está dentro do estabelecimento, está fazendo compras”, resume Israel. No caso dele, isso significa passar por três ou quatro atacadões, comprar embalagens, selecionar legumes, verduras e insumos que precisam estar frescos todos os dias. “Até chegar na minha cozinha, armazenar meus produtos, guardar tudo, higienizar caixas térmicas, ir para casa e colocar a cabeça no travesseiro para dormir, é 2 horas da manhã todos os dias. Então eu durmo duas e acordo seis, seis e meia”, conta.

No celular de Nathalie Costa, o expediente também não termina. A loja de prata 925 e semijoias nasceu no Instagram, com R$ 500 em mercadorias, venda no boca a boca e a promessa de uma rotina flexível. Mas o que parecia caber na tela logo se espalhou pela casa: responder cliente, embalar pedido, escolher fornecedor, conferir peças, precificar, postar, enviar produtos, acompanhar acessos, cuidar do site e manter a vitrine digital sempre acesa.

“Eu tive muita desilusão no começo de que ia ser muito fácil e muito flexível trabalhar de casa”, diz Nathalie. “Tem essa flexibilidade, mas tem um outro lado que ninguém fala. A empresa está 100% no celular, você trabalha 100% 24 horas com o seu telefone. Então, de certa forma, você não consegue se desligar.”

Gabriel Porto conheceu outro lado da mesma história. Abriu uma agência de publicidade com sócios e, depois, uma loja de cookies. Em um caso, havia repertório de marketing. No outro, uma receita boa, boa avaliação no iFood e presença nas redes sociais. Ainda assim, os dois negócios escancaram uma lição que muitos empreendedores só aprendem tarde demais: saber fazer bem alguma coisa não significa, automaticamente, saber administrar uma empresa.

Na agência, a percepção veio cedo. “A gente entendia sobre marketing, já atuava no marketing, mas não sabia exatamente como funcionava uma agência”, lembra Gabriel. Com o tempo, a desorganização interna, os desalinhamentos entre sócios e as entregas que não saíam como o prometido começaram a cobrar a conta.

As três trajetórias partem de lugares diferentes, mas se encontram em uma pergunta comum: o que acontece depois que a ideia vira CNPJ?

O Brasil é um país que abre empresas em ritmo acelerado. Nos quatro primeiros meses de 2026, foram criados 2.050.548 pequenos negócios, quase 14% a mais que no mesmo período de 2025. Apenas em abril, foram 463.080 novos pequenos negócios, com o setor de serviços respondendo por 64% dos novos estabelecimentos.

A força desse segmento é evidente. Os pequenos negócios representam 97% do total de empresas do país e respondem por 26,5% do Produto Interno Bruto nacional, segundo o Sebrae. Mas esses números, sozinhos, não mostram o peso que existe entre abrir uma empresa e mantê-la viva. Não mostram a madrugada de Israel, a ansiedade de Nathalie diante do celular, a angústia de Gabriel antes de sair da agência ou o susto de quem descobre, já no meio da operação, que vender não significa lucrar.

O país que abre negócios, mas nem sempre ensina a sustentá-los

Empreender costuma ser apresentado como autonomia. Trabalhar para si, fazer o próprio horário, viver daquilo que gosta, transformar uma habilidade em renda. A narrativa seduz porque tem uma parte verdadeira. Para milhões de brasileiros, o pequeno negócio é caminho de renda, inclusão produtiva, realização pessoal e desenvolvimento local.

Mas há uma distância entre incentivar a abertura de empresas e preparar pessoas para administrar empresas.

Flávio Petry, especialista em varejo e analista técnico do Sebrae Nacional, chama atenção para uma diferença essencial. Existe o empreendedorismo por oportunidade, quando a pessoa enxerga uma chance de mercado, e o empreendedorismo por necessidade, quando ela começa porque precisa gerar renda. Em muitos casos, a urgência vem antes do preparo.

“Na abordagem do empreendedorismo por necessidade, muitas vezes essa pessoa não consegue pesquisar com um pouco mais de profundidade antes de ter que tomar a primeira ação, que é se jogar no mercado”, explica. Segundo ele, isso faz com que o empreendedor comece sem planejamento prévio mais robusto, sem escutar outros profissionais e, muitas vezes, com “informações picadas” que não levam à melhor decisão.

O problema é que o mercado não cobra menos de quem começou por necessidade. O fornecedor cobra. O imposto chega. O cliente compara. A concorrência avança. O ponto pode não funcionar. O algoritmo pode parar de entregar. A chuva pode esvaziar a rua. A inadimplência pode apertar o consumo. E o caixa, quando não é acompanhado de perto, demora a avisar que a empresa já entrou em risco.

Um levantamento do Sebrae sobre sobrevivência de empresas mostrou que 29% dos microempreendedores individuais fecham após cinco anos de atividade. Entre microempresas, a taxa é de 21,6%; entre empresas de pequeno porte, 17%. A pesquisa também apontou que 17% dos empreendedores não fizeram nenhum planejamento antes de abrir e 59% planejaram por, no máximo, seis meses.

Israel começou com experiência de vida. Filho de comerciante, cresceu no balcão, aprendeu a lidar com público e traz para o food truck uma relação próxima com os clientes. Antes de empreender, trabalhou 18 anos como terceirizado no serviço público. Quando saiu, precisou se reorganizar. A esposa já atuava com espetinhos, e o casal começou de forma simples, com uma churrasqueira improvisada em aro de roda de caminhão.

“Eu sou filho de comerciante. Antes de trabalhar no serviço público, fui criado dentro do comércio. Então era uma vontade, um sonho que eu tinha de trabalhar para mim”, conta. Hoje, são três pontos no Distrito Federal e cerca de 250 refeições servidas por dia entre almoço e janta.

Nathalie começou de outro jeito. Tinha acabado de terminar a escola, queria trabalhar, gostava de acessórios e recebeu da mãe a provocação que virou ponto de partida e por que não vender alguma coisa?

“Eu comecei a pesquisar fornecedor, comecei a pesquisar como eu poderia abrir. Primeiro eu abri o Instagram, não tinha site, e comecei a vender no boca a boca, para amigas próximas. Ia no salão fazer a unha e levava as peças também. De primeiro, comprei R$ 500 de mercadoria. Vendi tudo. Depois fui comprando e investindo mais”, lembra.

Gabriel, por sua vez, tinha formação em administração, mestrado em estratégia, inovação e marketing, experiência com produção de festas e repertório criativo. Mesmo assim, a agência mostrou que conhecimento técnico não resolve, sozinho, problemas de cultura, sociedade, operação e gestão.

“Cliente foi saindo porque a gente não conseguiu entregar alguma coisa que tinha se planejado para entregar. Começou a ficar ruim a situação. Era cliente saindo, desorganização, era a cultura da empresa, e eu não conseguia organizar mais”, afirma.

Essa é uma das primeiras armadilhas do pequeno negócio: confundir habilidade com empresa. Cozinhar bem não é o mesmo que administrar um restaurante. Saber vender não é o mesmo que controlar margem. Entender de marketing não é o mesmo que gerir pessoas, contrato, prazo e fluxo de caixa. Gostar de acessórios não é o mesmo que precificar, comprar, embalar, atender, divulgar e formar uma base de clientes.

O preço, o imposto e a conta que não aparece na venda

Em algum momento, a matemática chega. E ela não pergunta se havia paixão, se o produto era bom ou se o cliente elogiou. Pergunta quanto custa, quanto entra, quanto sai, quanto sobra e por quanto tempo é possível continuar.

Para Israel, a conta pode mudar com o céu. Quem trabalha na rua sabe que chuva não é só clima. É faturamento. “Choveu, principalmente à noite, é bem complicado. Porque a família sai para jantar e, de repente, fecha o tempo ou começa a chover. Acaba que o nosso público se afasta. Ninguém vai para debaixo de uma tenda para ficar na chuva”, diz.

No negócio dele, se falta luz, muda a logística. Se falta água na cozinha, muda a operação. Se o trânsito atrasa, o atendimento sente. A empresa depende de compra diária, perecíveis, deslocamento, equipe, ponto, fornecedor e movimento.

Quando fala das contas que dão frio na barriga, Israel cita duas prioridades: funcionário e fornecedor. Tem de cinco a seis fornecedores fixos, compra carnes de fora de Brasília para manter qualidade e sabe que algumas relações não podem quebrar. “São duas coisas: primeiro, funcionário, que a gente não pode deixar de pagar. Segundo, os fornecedores. O resto a gente vai sobrevivendo”, resume.

No digital, a conta aparece com outra cara. Nathalie não depende da chuva, mas depende de presença. O site fica no ar 24 horas por dia, mas ela sente que as vendas dependem do movimento no Instagram. “Eu tenho essa urgência de estar sempre online, porque sinto que, com o Instagram, postando e produzindo conteúdo, meu site tem mais acessos. Se eu não estou ali disponível, o site acaba tendo menos acessos. Se estou disponível, converto mais em vendas”, afirma.

A precificação foi um dos primeiros choques. No início, Nathalie tinha medo de cobrar. Perguntava se a peça estava cara, se alguém compraria, se o valor fazia sentido.

“No início, eu tinha muita dificuldade de precificar as peças, porque sentia que o meu produto estava caro. Ficava me perguntando: será que está caro? Será que alguém vai comprar?”, conta. Com o tempo, percebeu que o preço não era só o acessório. “Por trás tem muito trabalho. Tenho que ir atrás de fornecedores, fazer curadoria, porque nem sempre a peça vem 100% perfeita. Invisto o meu tempo e também na experiência do cliente. Tudo isso agrega valor ao produto.”

Quando isso não está claro, o empreendedor pode vender muito e ainda assim não ver dinheiro sobrar.

Gabriel aprendeu algo parecido na loja de cookies. O produto era bom, o marketing funcionava, o iFood tinha boa avaliação, mas o ponto, a mudança de comportamento após a pandemia e a estrutura da operação começaram a pesar. A localização era boa para entrega durante o isolamento. Quando as pessoas voltaram a sair, o rendimento caiu.

“O grande problema foi quando saiu da pandemia e as pessoas começaram a sair de novo, em vez de pedir. O nosso rendimento começou a ser 30% do que um dia já foi 100%. Aí eu vi que as coisas tinham que mudar para tentar sobreviver”, relata.

A conta fiscal também apareceu de forma dura. Gabriel lembra que o imposto nem sempre é pago no momento da venda. Ele se acumula para depois. Se o empreendedor não separa o dinheiro, cria a ilusão de que aquele valor está disponível. Quando o tributo chega e não houve lucro suficiente, a despesa sai do bolso do dono. “Imposto é sempre complicado. Porque você não paga ali na hora. Junta o trimestral para pagar depois e, se você não teve lucro, está tirando 100% do seu bolso depois. Vira uma despesa gigante”, diz Gabriel. “Como ele não é ali na hora, você acaba tendo uma ilusão de que não vai pagar. Quando chega, às vezes você não está preparado.”

Nesse momento que CPF e CNPJ começam a se misturar e pode complicar o andar da empresa. Flávio Petry aponta esse como um erro básico e frequente, o de usar o dinheiro do negócio para resolver despesas pessoais ou usar recursos pessoais de forma improvisada para cobrir buracos da empresa.

“Esse é um erro muito básico e muito comum para quem está começando essa vida empreendedora: separar o que são as despesas e contas do negócio e as despesas e contas pessoais”, explica. Ele cita o princípio de entidade, conceito da contabilidade que estabelece a separação entre o patrimônio da empresa e o patrimônio pessoal do empreendedor. “Não misturar os dinheiros, o que é dinheiro próprio e o que é dinheiro do negócio.”

Essa fronteira é ainda mais importante em um país de orçamento doméstico pressionado. Em abril de 2026, a inadimplência atingiu 74,82 milhões de consumidores no Brasil, o equivalente a 44,69% da população adulta, segundo CNDL e SPC Brasil. O dado não mede a inadimplência de empreendedores, mas ajuda a entender o risco de misturar sustento da casa, crédito pessoal e tentativa de manter uma empresa aberta.

Quando o dinheiro pessoal socorre a empresa sem controle, e a empresa não gera caixa suficiente para devolver esse socorro, os dois lados enfraquecem. O negócio fica sem diagnóstico. A pessoa física fica mais vulnerável. E a tomada de decisão passa a ser feita no susto.

Capital de giro não é detalhe técnico. É sobrevivência

A falta de dinheiro aparece como sintoma, mas muitas vezes nasce antes, na ausência de planejamento. Falta calcular o custo real do produto. Falta prever imposto. Falta separar reserva. Falta saber quanto de capital de giro é necessário para comprar, vender, esperar receber e continuar operando até o próximo ciclo.

Na pesquisa de sobrevivência de empresas do Sebrae, entre os motivos citados para o fechamento aparecem falta de dinheiro ou financiamento, falta de clientes, burocracia, custos, impostos, taxas, aluguel e localização ruim. Entre os auxílios que poderiam evitar o fechamento, crédito mais facilitado aparece em primeiro lugar, citado por 34%; menos encargos e impostos aparece com 21%.

O crédito, porém, também exige preparo. Em levantamento do Sebrae sobre financiamento dos pequenos negócios, capital de giro foi a principal finalidade apontada por empresários na busca por empréstimo, com 41%. Entre os que declararam dificuldades para obter crédito, os principais obstáculos foram taxa de juros alta, falta de garantias reais, falta de documentação fiscal e falta de documentação contábil.

Ou seja, acesso a crédito não se resume a dinheiro disponível. Também depende de organização, documentação, contabilidade, capacidade de pagamento e orientação para usar o recurso sem transformar alívio momentâneo em dívida futura.

Flávio afirma que planejamento financeiro, fluxo de caixa, capital de giro e precificação precisam ser tratados de forma integrada. “Tudo isso a gente consegue resolver com um processo de planejamento financeiro e controles financeiros. Temos capacitações que falam sobre fluxo de caixa, capital de giro e até precificação”, diz.

No caso de Israel, capital de giro aparece na rotina. É a compra diária de alimentos, a negociação com fornecedores, a necessidade de manter qualidade e a preocupação de não atrasar funcionário. No caso de Nathalie, aparece no estoque pequeno, na escolha de peças, na curadoria e no reinvestimento gradual. No caso de Gabriel, aparece no imposto que chega depois, no ponto que não performa, no aluguel, nos fornecedores e na decisão de vender a loja de cookies para recuperar parte do prejuízo.

O pequeno negócio não quebra apenas porque vende pouco. Às vezes quebra porque vende sem margem, cresce sem controle, toma crédito sem planejamento, confunde faturamento com lucro ou deixa para entender o imposto quando o boleto já venceu.

Ser o próprio chefe também é ser todos os funcionários

“Ser seu próprio chefe” talvez seja uma das frases mais repetidas do empreendedorismo. Parece liberdade. Mas, para quem começa pequeno, muitas vezes significa ser também o financeiro, o atendimento, o marketing, o estoque, a entrega, o RH, o compras, a operação, a estratégia e o suporte técnico.

Nathalie chama isso de “euquipe”. A palavra tem leveza, mas descreve uma sobrecarga concreta. Quando a cliente pergunta, é ela quem responde. Quando uma peça chega com defeito, é ela quem faz a curadoria. Quando o pedido sai, é ela quem embala. Quando a loja precisa aparecer, é ela quem produz conteúdo. Quando há uma dúvida de preço, fornecedor ou estratégia, muitas vezes também é ela quem decide. “Eu preciso produzir conteúdo, eu preciso vender, tirar dúvidas das clientes, precificar, enviar pedidos. Acaba que fica um pouco exaustivo”, afirma. Mesmo quando tenta organizar a rotina, a empresa continua dependendo dela. “Se eu me desligar 100% da loja, a loja para.”

A solidão, nesse caso, não é apenas trabalhar sem colegas de mesa. É decidir sem ter com quem dividir o peso. No início, Nathalie não tinha pessoas próximas que empreendessem. Hoje, conversa com amigas de outros nichos porque percebeu que as dores se repetem: dúvida, insegurança, pressão por venda, problema com cliente, medo de errar e necessidade de decidir rápido.

“Por mais que não seja o mesmo nicho, a dor do empreendedorismo é muito parecida”, diz. “Às vezes a gente passa por problemas e tem dificuldades muito semelhantes.”

No Brasil, essa discussão dialoga com um mercado de trabalho em que uma parcela relevante da população ocupada atua por conta própria. No primeiro trimestre de 2026, 25,5% dos trabalhadores ocupados estavam nessa condição, segundo o IBGE. A taxa de informalidade no país era de 37,3% da população ocupada.

Nem todo trabalhador por conta própria é empreendedor formal. Nem todo MEI vive a mesma realidade. Nem todo pequeno empresário está em situação precária. Mas os dados ajudam a mostrar que, para milhões de pessoas, renda, trabalho e negócio se misturam em estruturas muito pequenas, muitas vezes sem rede de proteção, sem equipe robusta e sem margem para parar.

Israel sente isso no corpo. Passa horas em pé, compra, transporta, atende, organiza, acompanha cozinha, serve, fecha e recomeça. Diz que praticamente toda semana pensa em desistir, não porque não goste do que faz, mas porque o ramo exige demais.

“Praticamente toda semana a gente pensa em desistir, sim. É um negócio que não é para qualquer um. É um ramo que exige bastante empenho, dedicação, amor”, afirma. “Se você não tiver o amor e o carinho para servir aquele prato final para o cliente, não dá certo. É melhor inventar outra coisa.”

Ao mesmo tempo, ele rejeita a ideia fácil de que ser dono significa ter liberdade para simplesmente parar quando quiser. “Às vezes a gente fala: queria ser dono do meu próprio negócio, hoje eu não quero trabalhar, hoje eu quero dormir até mais tarde. Conversa, isso é mentira. A gente pode sonhar com isso. Mas fazer, não tem como”, diz.

Gabriel viveu essa pressão de outra forma. Na agência, a desorganização foi corroendo a relação entre sócios, a entrega aos clientes e a cultura interna. Antes de sair, passou por uma noite de angústia. A dificuldade, segundo ele, era não ter com quem dividir aquela decisão.

“Quando você tenta se desligar de alguma coisa que acreditava muito, fica muito angustiado. E você não tem muito com quem dividir essa angústia quando é dono”, conta. “Você vai falar com seus colaboradores que vai sair antes de sair? Isso pode criar uma confusão na empresa.”

Para ele, ser o próprio chefe também está longe da imagem idealizada. “Ser seu próprio chefe, na verdade, é se ferrar muito. Não tem facilidade quando você é seu próprio chefe. Tudo depende de você. Você não tem nenhuma diretriz que alguém vai estar dando. Você tem que correr atrás de tudo, planejar os próximos passos e executar tudo ao mesmo tempo”, afirma.

O mundo do trabalho do pequeno empreendedor é, muitas vezes, invisível porque não cabe nas categorias tradicionais. Ele não é apenas patrão. Também trabalha na operação. Não é apenas trabalhador. Também assume risco, dívida e responsabilidade sobre outras pessoas. Essa ambiguidade torna a discussão mais complexa e mais necessária.

O que deveria vir antes do susto

Até aqui, a história falou de madrugada, tela, chuva, imposto, preço, crédito, solidão, fornecedor, sócios e cansaço. Mas existe uma pergunta por trás de todas essas camadas: o que essas pessoas precisavam saber antes de abrir a empresa?

A resposta não é simples, porque nenhuma capacitação elimina o risco de empreender. Planejamento não impede chuva. Curso não garante cliente. Consultoria não resolve sozinha uma sociedade desalinhada. Crédito não salva negócio sem margem. Formalização não transforma automaticamente uma ocupação em empresa sustentável.

Mas orientação pode encurtar caminhos.

Nathalie diz que teria buscado ajuda mais cedo. Cursos, mentoria, consultoria, alguém que pudesse apontar erros antes que eles custassem tempo, dinheiro e ansiedade. Ela aprendeu sozinha, com internet, observando pessoas do nicho, testando e corrigindo. Funcionou, mas foi mais doloroso.

“Eu fui totalmente na coragem. No início, não tive nenhuma ajuda além da minha mãe, que é minha sócia. Não fui atrás de cursos, não fui atrás de consultoria. A internet foi a minha maior aliada. Tudo que eu tinha dúvida, tudo que eu não sabia, eu pesquisava”, conta.

Mesmo assim, ela percebeu que constância, sozinha, não resolvia tudo. “As pessoas falam que é muito fácil empreender, e na verdade não é. É um pouco difícil, é burocrático, e uma coisa que ninguém fala é que você tem que ter muita disciplina”, diz. “Constância é muito bom, mas disciplina e organização também fazem parte.”

Gabriel também reconhece lacunas. Na agência, acredita que uma consultoria poderia ter ajudado sócios e líderes a alinharem discurso, prática e funcionamento. Na loja de cookies, sentiu falta de conhecimento mais profundo sobre o setor alimentício.

“Eu não conhecia tanto sobre o setor alimentício e aí, sim, valeria a pena ter feito alguma coisa mais voltada para aprender sobre o setor alimentício”, afirma.

Israel, mesmo vindo de família comerciante, também vê valor em continuar aprendendo. Ele e a família ficam atentos a cursos e informações que possam melhorar o negócio, embora a dificuldade seja encaixar capacitação em uma rotina pesada. “A gente está sempre atento a esse mercado de cursos. Às vezes vê algo interessante, compra na internet. Estamos sempre com vontade de crescer, sempre com vontade de levantar a nossa bandeira”, diz.

Flávio Petry defende que o plano de negócios é uma ferramenta básica, mas muitas vezes ignorada. Antes de abrir, ajuda a entender mercado, concorrência, fornecedores, aspectos legais, necessidade dos consumidores, investimento necessário e previsão de retorno. Depois de abrir, continua sendo útil para ajustar rota.

“O ideal é que, antes de empreender, esse candidato a empreendedor construa o seu plano de negócios”, afirma. Mas ele faz uma ressalva importante: o plano não serve apenas para quem ainda vai começar. “E se eu já comecei a empreender? Quer dizer que eu não preciso mais fazer um plano de negócios? Não, muito pelo contrário. Agora é mais urgente ainda fazer o plano de negócios para entender quais são os pontos que você já está fazendo, o que precisa ajustar, melhorar, corrigir ou redirecionar na sua rota.”

Educação empreendedora, portanto, não é apenas ensinar alguém a abrir um CNPJ. É preparar para calcular custo, formar preço, separar conta pessoal de conta empresarial, entender obrigações fiscais, organizar documentos, planejar capital de giro, negociar com fornecedor, contratar, atender, vender, usar tecnologia e tomar crédito de forma responsável.

A empresa que o cliente não vê

O cliente vê o prato servido por Israel. Não vê os atacadões, a compra da carne, a escolha dos legumes, a cozinha, a higienização, o medo da chuva, o pagamento do fornecedor, a escala da família e a madrugada.

A cliente vê a semijoia de Nathalie no Instagram. Não vê a dúvida sobre preço, a curadoria da peça, o pedido embalado em casa, o medo de sumir do algoritmo, a urgência de responder rápido e a dificuldade de tirar férias sem a loja parar.

O consumidor vê o cookie, a marca, o perfil movimentado, a avaliação no aplicativo. Não vê o aluguel, o imposto acumulado, a localização que não traz fluxo, o sócio que desalinha, o custo que escapa e a decisão de vender o negócio não como vitória, mas como tentativa de recuperar parte do prejuízo.

Essa é a empresa que o cliente não vê. E é justamente ela que decide se o negócio sobrevive.

O sucesso mais sustentável talvez seja menos glamouroso do que a propaganda do empreendedorismo costuma sugerir. Não é apenas viralizar, crescer rápido ou abrir novas unidades. Pode ser fechar o mês sabendo quanto sobrou. Pagar funcionário em dia. Não atrasar fornecedor. Separar CPF de CNPJ. Cobrar preço justo. Ter documentação para acessar crédito melhor. Entender imposto antes do vencimento. Criar processos para não depender de uma pessoa só. Pedir ajuda antes do colapso.

Para Israel, sucesso passa por servir bem e manter a confiança. Atendimento, presença e qualidade são parte do produto. “No dia que eu perder o tesão por isso, acho que vou ter que desistir do negócio. Mas, enquanto eu tiver esse amor, a vontade, o carinho, vou lutar e fazer tudo para servir. Servir bem para servir sempre”, diz.

Para Nathalie, sucesso é olhar para trás e ver que saiu do boca a boca para uma base de clientes online, ainda que queira crescer mais com marketing de influência, tráfego pago, TikTok e Instagram. Mas ela sabe que a loja ainda depende muito dela. “Eu consigo tirar um recesso, mas não consigo me desligar totalmente”, afirma. “Continuo postando, continuo dando uma olhada no site e também no WhatsApp, porque às vezes surgem dúvidas.”

Para Gabriel, sucesso deixou de ser apenas ter uma marca em vitrine. Depois das experiências com agência e cookies, passou a incluir aprendizado, tranquilidade, família, trabalho principal e menos preocupações. “Todos os negócios que eu já fiz na minha vida eu levo como uma experiência que adquiri”, afirma. “Toda vez que precisei fechar um negócio, comecei a entender o que fiz de errado para não errar no próximo.”

No país em que mais de dois milhões de pequenos negócios foram abertos em apenas quatro meses, incentivar o empreendedorismo continua importante. Mas talvez a pergunta central não seja apenas quantas empresas o Brasil consegue abrir. É quantas consegue preparar para continuar.

Abrir uma empresa é a primeira porta. Depois dela vêm preço, imposto, fluxo de caixa, fornecedor, cliente, ponto, chuva, algoritmo, crédito, documentação, equipe, saúde, descanso e decisão.

Coragem coloca o empreendedor em movimento. Mas coragem sozinha não calcula margem, não separa contas, não organiza impostos, não escolhe ponto, não resolve conflito societário, não cria capital de giro e não substitui rede de apoio.

Para Flávio Petry, pedir ajuda não deve ser visto como fracasso. “Nem todo empreendedor precisa ser autodidata. Se você busca o auxílio de quem já conhece ou já caminhou por determinadas rotas, já é um corte de caminho. Isso faz você ganhar produtividade, ganhar tempo e ampliar seus horizontes.”

Porque o pequeno negócio não sobrevive apenas da vontade de dar certo. Sobrevive quando a vontade encontra método, informação e condições reais para atravessar o dia seguinte.

Esta reportagem faz parte da editoria Dossiê Varejo S.A., publicada em 3 de junho de 2026 sobre os desafios, bastidores e aprendizados de pequenos empreendedores brasileiros

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