Dívida, ansiedade e afastamentos: empresas começam a ligar saúde financeira ao avanço de problemas emocionais no trabalho
Análise realizada em empresa da área da saúde identificou que quase metade dos colaboradores estava endividada; após programa de apoio financeiro, afastamentos emocionais caíram 22%
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As mudanças recentes da NR-1, que ampliaram a atenção das empresas para riscos psicossociais no ambiente de trabalho, começaram a acelerar uma discussão que até pouco tempo aparecia pouco nas áreas de recursos humanos: o impacto da vida financeira dos funcionários sobre saúde mental, produtividade e afastamentos.
Em meio ao aumento dos casos de ansiedade, burnout e esgotamento emocional no ambiente corporativo, empresas passaram a perceber que parte importante desse desgaste não começa necessariamente dentro do trabalho.
Em muitos casos, o problema começa antes da jornada profissional, na pressão financeira acumulada fora dele.
O cenário acompanha um movimento nacional. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a Peic, da CNC, mostram que mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas. Em média, cerca de 30% da renda familiar está comprometida com dívidas.
Dentro das empresas, os reflexos começaram a surgir em indicadores que tradicionalmente eram analisados separadamente. Crescimento do absenteísmo, aumento de afastamentos emocionais, pedidos frequentes de adiantamento salarial, uso recorrente de empréstimos consignados e queda de produtividade passaram a chamar atenção de lideranças e especialistas em saúde corporativa.
Em muitos casos, o problema aparece também no chamado presenteísmo, situação em que o profissional está fisicamente presente, mas sem conseguir manter foco, rendimento ou estabilidade emocional durante a jornada de trabalho.
Uma análise realizada pelo movimento Somos Longevos em uma empresa brasileira da área da saúde identificou que 45% dos colaboradores estavam endividados. Outros 12% já viviam situação de superendividamento.
O levantamento envolveu aproximadamente 1.500 colaboradores, além de 500 terceiros e 300 médicos. A análise também identificou aumento recorrente de pedidos de adiantamento salarial, empréstimos consignados e solicitações de aumento motivadas por desorganização financeira pessoal.
Segundo Tania Machado, CEO do movimento Somos Longevos, o peso financeiro passou a exercer impacto direto sobre comportamento, saúde emocional e desempenho profissional.
Tania Machado afirma: “Muitas pessoas chegam emocionalmente esgotadas. A cabeça está na dívida, na cobrança, no empréstimo. O colaborador está presente fisicamente, mas mentalmente consumido pelo problema financeiro.”
A executiva afirma que a situação deixou de atingir apenas profissionais de baixa renda e passou a atravessar diferentes níveis hierárquicos dentro das organizações.
Na avaliação de Tania Machado: “A questão financeira não aparecia apenas entre profissionais de baixa renda. Ela atravessava diferentes níveis da organização, inclusive profissionais altamente qualificados e lideranças.”
Após identificar o cenário, a empresa implantou um programa voltado à longevidade financeira, com ações de educação financeira, terapia financeira, apoio emocional preventivo, workshops e acompanhamento individual de profissionais considerados em situação crítica.
O projeto também incluiu ferramentas voltadas à reorganização financeira pessoal e à prevenção do superendividamento.
Os resultados começaram a aparecer nos indicadores internos poucos meses após a implantação do programa. A empresa registrou redução estimada de 18% no absenteísmo e queda de 22% nos afastamentos emocionais.
A estimativa interna aponta economia anual de aproximadamente R$ 420 mil relacionada à redução do absenteísmo. Já a diminuição dos afastamentos emocionais representou impacto estimado de R$ 680 mil ao ano em custos assistenciais, substituições e perdas operacionais.
O estudo ainda identificou ganho estimado de produtividade entre 9% e 12%, associado à redução do presenteísmo e ao aumento da estabilidade emocional das equipes. Com isso, o impacto indireto calculado pela empresa chega a aproximadamente R$ 1,2 milhão ao ano.
Para especialistas que acompanham o tema, a tendência é que discussões sobre saúde financeira passem a ocupar espaço cada vez maior dentro das estratégias de saúde corporativa, especialmente após a ampliação das discussões sobre riscos psicossociais dentro das empresas trazida pela NR-1.
Tania Machado afirma que, durante muitos anos, as empresas concentraram esforços apenas na gestão dos efeitos do adoecimento emocional, sem aprofundar a discussão sobre o que estava na origem desse desgaste.
Para a executiva: “Durante muito tempo, as empresas olharam para ansiedade, burnout e afastamentos como problemas isolados do ambiente de trabalho. Agora começa a ficar mais claro que, muitas vezes, o adoecimento já chega junto com o colaborador. A pressão financeira virou um fator silencioso de impacto emocional, produtividade e sustentabilidade dentro das organizações.”

