Novo papel das farmácias aproxima varejo, prevenção e acesso à saúde
Redes ampliam salas clínicas, exames e vacinação enquanto governo estuda novos serviços no Farmácia Popular; movimento reforça capilaridade do setor, mas também amplia responsabilidades para além da venda de medicamentos
Envato
Durante décadas, entrar em uma farmácia significava, essencialmente, comprar um medicamento, apresentar uma receita ou buscar algum produto de higiene e cuidados pessoais. Essa função continua central para o negócio, mas já não descreve tudo o que acontece dentro de uma parcela crescente das lojas.
Vacinação, testes para diferentes condições de saúde, aferições, acompanhamento farmacêutico e exames de análises clínicas passaram a dividir espaço com gôndolas, balcões e caixas. Os números começam a mostrar a dimensão dessa mudança.
Em 2025, as redes associadas à Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) registraram cerca de 10 milhões de serviços clínicos e 6,8 milhões de atendimentos, distribuídos por aproximadamente 1.500 cidades. Nos três primeiros meses de 2026, foram cerca de 3,6 milhões de atendimentos, média estimada de 40 mil procedimentos por dia.
As empresas reuniam, no período, 9.248 salas clínicas. Entre os serviços mais procurados estavam exames relacionados a dengue, Covid-19, doenças respiratórias e tipagem sanguínea. O número de doses de vacinas aplicadas cresceu 56%.

O movimento acrescenta uma nova dimensão ao varejo farmacêutico: além de disputar preço, localização, sortimento e conveniência, empresas passam a competir também pela capacidade de participar de outros momentos da jornada de saúde do consumidor.
Mas essa transformação não começou agora.
De ponto de venda a estabelecimento de saúde
Desde 2014, a legislação brasileira estabelece uma definição de farmácia mais ampla do que a de um estabelecimento dedicado apenas à comercialização de medicamentos. A Lei nº 13.021 define a farmácia como uma unidade de prestação de serviços destinada à assistência farmacêutica, assistência à saúde e orientação sanitária individual e coletiva.
Na prática, a expansão observada atualmente desenvolve uma possibilidade já prevista há mais de uma década, mas que ganhou escala à medida que novas regulamentações, tecnologias e modelos de negócio passaram a permitir mais serviços dentro das lojas.
A vacinação é um exemplo.
A regulamentação sanitária permite que farmácias e drogarias licenciadas para a atividade ofereçam vacinação, desde que atendam requisitos como presença de responsável técnico, profissional habilitado, instalações adequadas, conservação correta dos imunizantes e registro das informações.
Outro avanço ocorreu com a regulamentação dos exames de análises clínicas. Desde 2023, a RDC nº 786 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite que farmácias devidamente regularizadas executem determinados exames dentro das condições previstas para os chamados Serviços Tipo I.
Isso não significa que qualquer farmácia possa simplesmente instalar equipamentos e começar a realizar exames.
O estabelecimento precisa estar regularizado junto à vigilância sanitária local, incluir a atividade em seu licenciamento e cumprir requisitos técnicos e sanitários previstos pela Anvisa. Os resultados realizados nesse modelo têm caráter de triagem e não substituem, por si só, o diagnóstico médico ou estruturas laboratoriais quando elas forem necessárias.
A diferença é importante porque ajuda a estabelecer a fronteira entre ampliar acesso e transformar a farmácia em substituta de outros pontos do sistema de saúde.
A força da capilaridade
Há uma razão estrutural para as farmácias ganharem espaço nessa discussão: elas já estão presentes na rotina e no caminho do consumidor.
Diferentemente de estruturas especializadas de saúde, que podem estar concentradas em determinadas regiões ou exigir agendamento, uma parcela significativa das farmácias funciona em horários ampliados e está espalhada por bairros, centros comerciais e cidades de diferentes portes.
Essa capilaridade começa a ser observada inclusive dentro das políticas públicas. Em agosto, o Ministério da Saúde criou um grupo de trabalho permanente para estudar mudanças no Programa Farmácia Popular. E, em 16 de setembro, realizou a primeira reunião do colegiado.
Entre os temas colocados para análise estão a possibilidade de ampliar a oferta de exames e outros procedimentos, incorporar recursos de telessaúde e teleatendimento, utilizar novas tecnologias e expandir a presença do programa em regiões consideradas vazios assistenciais.
A discussão parte de uma estrutura que já possui grande alcance. Atualmente, o Farmácia Popular conta com cerca de 28 mil farmácias credenciadas, está presente em aproximadamente 5 mil municípios e oferece cobertura potencial a 97% da população brasileira. Em 2025, 27,3 milhões de pessoas foram beneficiadas pelo programa.
Hoje, 41 itens são oferecidos gratuitamente, entre medicamentos, fraldas geriátricas e absorventes higiênicos.

A entrada de novos serviços, porém, ainda está em estudo.
O grupo criado pelo Ministério deverá avaliar viabilidade sanitária, jurídica, operacional, tecnológica e econômico-financeira antes de eventuais mudanças. A própria pasta afirma que um eventual novo desenho deverá complementar, e não substituir, a Atenção Primária à Saúde e as farmácias públicas.
A ressalva muda a natureza do debate. A pergunta não é se farmácias privadas devem assumir o papel de unidades básicas ou consultórios médicos. É até onde uma rede já instalada e capilarizada pode ser utilizada para facilitar etapas específicas de prevenção, triagem, acompanhamento e acesso.
Uma população que também demanda mais acompanhamento
A transformação ocorre ao mesmo tempo em que o perfil do consumidor brasileiro aumenta a pressão por serviços relacionados à saúde.
A Pesquisa de Comportamento do Consumidor em Farmácias 2026, realizada pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC), com apoio do Instituto Axxus e do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia da Unicamp, ouviu 4 mil consumidores de todas as regiões do país.
No recorte de consumidores com mais de 60 anos, 72% afirmaram utilizar mais de três medicamentos contínuos por dia. Desses, 18% relataram utilizar seis ou mais.
O levantamento identificou também dificuldades comuns para esse público, como leitura de bulas e embalagens, lembrança dos horários e manuseio dos medicamentos.
Quando perguntados sobre serviços de apoio oferecidos pelas farmácias, como organizadores de medicamentos e sistemas de lembrete, 65,6% demonstraram interesse, parte mediante pagamento e a maior parcela se o serviço fosse gratuito.

Os números mostram uma oportunidade, mas também uma responsabilidade. Quanto mais a farmácia se aproxima do cuidado, menos suficiente se torna uma relação baseada exclusivamente na transação comercial.
Orientação adequada, capacitação profissional, protocolos, privacidade de informações e encaminhamento para outros serviços quando necessário passam a ganhar relevância.
O varejo também muda quando o serviço entra na loja
Uma sala clínica ocupa metragem que poderia receber produtos. Exige investimento, profissional capacitado, processos, equipamentos e cumprimento de regras sanitárias. Em troca, cria novas ocasiões para que o consumidor entre na loja e estabelece uma relação que pode ir além da compra eventual.
Isso acontece num momento em que o próprio varejo discute qual será o papel das unidades físicas diante do avanço dos canais digitais. No segmento farmacêutico, a resposta pode ser diferente da encontrada em outros setores.
Parte da compra de medicamentos migra para sites, aplicativos e entregas rápidas. Mas vacinação, determinados exames, orientação farmacêutica e procedimentos dependem da presença física.
Nesse sentido, a digitalização não necessariamente reduz a importância da loja.
Pode mudar sua função.
A unidade deixa de ser apenas o lugar onde um produto é retirado e passa a funcionar também como ponto de prestação de serviços e relacionamento em saúde. É uma mudança relevante porque cria uma vantagem difícil de reproduzir integralmente no comércio eletrônico: presença física associada à conveniência.
Mais serviço também significa mais responsabilidade
A expansão, entretanto, não pode ser observada apenas pelo número de procedimentos realizados.
Farmácias ocupam uma posição particular: são, ao mesmo tempo, estabelecimentos privados inseridos em um mercado competitivo e unidades reconhecidas em lei pela prestação de assistência farmacêutica e à saúde.
Quanto maior a atuação clínica, maior a necessidade de deixar clara essa diferença.
O consumidor precisa saber quais procedimentos podem ser realizados, quais são apenas de triagem, quando é necessário procurar outro profissional e quais limites existem para a atuação dentro de uma farmácia.
Do lado das empresas, expansão exige estrutura, protocolos e profissionais habilitados. Do lado da regulação, exige acompanhamento para que conveniência e capilaridade não sejam confundidas com flexibilização dos padrões de segurança.
É justamente por isso que o movimento do Farmácia Popular é relevante.
Ao estudar exames, telessaúde e novos procedimentos dentro de uma política que alcança milhões de brasileiros, o governo coloca as farmácias privadas credenciadas dentro de uma discussão maior sobre como utilizar uma infraestrutura comercial já existente para ampliar acesso à saúde sem substituir os demais níveis de atendimento.
Entre a gôndola e o cuidado
A farmácia não deixou de ser varejo. Preço continuará importando. Localização continuará importando. Sortimento, estoque, tecnologia, atendimento e eficiência continuarão determinando competitividade.
Mas a loja que aplica uma vacina, realiza um teste, ajuda a acompanhar um tratamento ou eventualmente conecta o consumidor a outro profissional passa a ocupar um espaço diferente na rotina daquela pessoa.
É justamente essa sobreposição que torna o momento atual relevante para o setor.
O varejo farmacêutico está ampliando sua atuação sem abandonar sua natureza comercial. Ao mesmo tempo, sua capilaridade o aproxima de uma função cada vez mais associada à prevenção, orientação e acesso.
A próxima etapa não deve ser medida apenas pela quantidade de salas clínicas abertas ou pelo número de procedimentos realizados.
O desafio será mostrar se a farmácia consegue transformar proximidade comercial em acesso efetivo à saúde, sem ultrapassar os limites que garantem segurança, qualidade e responsabilidade no cuidado.


