Mercado de bebidas aposta em tecnologia para ampliar segurança contra falsificações
Lançamento do Selo Drink Seguro, da Diageo, amplia debate sobre autenticação, rastreabilidade e novas camadas de proteção depois da crise do metanol
Foto: Jairo Rodrigues
Autenticação digital, inteligência artificial, rastreabilidade e até propostas para adoção de testes rápidos começam a ganhar espaço em uma discussão que se tornou urgente no mercado brasileiro de bebidas: como dificultar falsificações e permitir que indústria, varejo, fiscalização e consumidor tenham mais ferramentas para comprovar a origem do produto.
O movimento ganhou força depois da crise de intoxicações por metanol registrada no Brasil em 2025. Entre setembro e dezembro daquele ano, foram contabilizadas 890 notificações, 73 casos confirmados e 22 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde reunidos em auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). São Paulo foi o epicentro, mas Pernambuco, Paraná, Mato Grosso, Bahia e Rio Grande do Sul também estiveram entre os estados mais afetados.
Quase um ano depois, o número de casos deixou de ocupar diariamente o noticiário, mas o problema exposto pela crise continua sobre a mesa: até onde é possível confiar apenas na aparência de uma garrafa para determinar sua procedência?
Nesta semana, uma nova tecnologia colocou novamente o tema em evidência. A Diageo iniciou nacionalmente a divulgação do Selo Drink Seguro, solução antifraude que permite ao consumidor utilizar a câmera do próprio smartphone para verificar a autenticidade do selo presente nas embalagens. O Varejo S.A. acompanhou o lançamento e testou a ferramenta em supermercado e bar.
Para Paula Lindenberg, presidente da Diageo no Brasil, a iniciativa acrescenta uma nova camada de verificação em um momento no qual segurança e procedência ganharam ainda mais relevância para o consumidor. “A segurança dos consumidores é nossa prioridade absoluta. A qualidade e a procedência são garantias históricas e inegociáveis em todos os produtos que saem das nossas fábricas. Desde o início deste ano, começamos a abastecer o mercado com produtos verificáveis para que, em breve, todo o portfólio da Diageo esteja integrado a essa tecnologia.”
A iniciativa é de uma companhia específica, mas se insere em um debate muito mais amplo. A crise do metanol levou órgãos públicos, entidades, empresas e o próprio Congresso a discutir mecanismos de autenticação, identificação, rastreabilidade e fiscalização de uma cadeia que movimenta bilhões de reais.
Um mercado de R$ 303 bilhões e um problema bilionário
O tamanho do desafio começa pela própria dimensão do setor. Segundo o TCU, o mercado brasileiro de bebidas alcoólicas movimenta aproximadamente 12 bilhões de litros por ano e gera faturamento de R$ 303 bilhões. A auditoria realizada pelo Tribunal entre 2023 e 2025 analisou justamente áreas como registro, fiscalização, rastreabilidade e coordenação entre Anvisa, Ministério da Agricultura e Pecuária e Ministério da Saúde.
Na outra ponta está um mercado ilegal igualmente relevante.
Estudo realizado pela Euromonitor International para a Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD) estima que as bebidas alcoólicas ilegais tenham movimentado R$ 55 bilhões em 2024, o equivalente a 12,7% do segmento. A perda de arrecadação tributária associada às diferentes modalidades de ilegalidade chegou a R$ 28 bilhões.
Entre os destilados, 28% do volume comercializado está relacionado a alguma forma de ilegalidade. O número, porém, exige uma distinção importante.
Não significa que quase um terço dos destilados vendidos no Brasil seja falsificado. O percentual reúne evasão fiscal, contrabando e descaminho, produção sem registro e também falsificação. Quando considerada isoladamente, a falsificação responde por 4,7% do mercado de destilados e 1,1% do mercado total de bebidas alcoólicas, segundo a ABBD.
Essa diferença é relevante porque cada modalidade exige respostas distintas. No caso da falsificação, além do prejuízo econômico e concorrencial, existe um componente que ganhou uma dimensão muito maior depois de 2025: o risco direto à saúde do consumidor.
Quando até a garrafa original pode fazer parte da fraude
As operações realizadas durante a crise mostraram também que identificar uma bebida falsa pode ser mais complexo do que procurar um rótulo mal impresso ou uma tampa diferente da original.
Em outubro do ano passado, uma força-tarefa encontrou, em um galpão clandestino na zona leste de São Paulo, cerca de 103 mil vasilhames vazios de gin, vodca e whisky prontos para serem comercializados e reutilizados. No mesmo local, outras 6 mil garrafas com bebidas sem comprovação de origem foram apreendidas.
O episódio evidencia uma das fragilidades da cadeia: a própria embalagem legítima pode ser reaproveitada para dar aparência de original a um produto que não possui a mesma procedência.
É justamente esse tipo de prática que torna a discussão sobre tecnologias de autenticação mais complexa. Não basta apenas reproduzir visualmente um rótulo ou uma garrafa. Novas soluções procuram acrescentar elementos individualizados e mais difíceis de serem copiados ou reutilizados sem que uma inconsistência seja detectada.
Também por isso, entidades do setor passaram a reforçar orientações sobre o descarte de embalagens. A ABBD recomenda separar tampa e garrafa, danificar ou remover o rótulo e inutilizar o vidro com segurança justamente para reduzir a possibilidade de reaproveitamento por redes ilegais.
Rastreabilidade segue como um dos gargalos
A tecnologia, porém, não é apenas uma discussão da iniciativa privada. Na auditoria concluída em julho deste ano, o TCU encontrou fragilidades nos mecanismos públicos de controle e destacou problemas relacionados à integração de informações entre os órgãos responsáveis pela fiscalização.
Um dos pontos centrais é a rastreabilidade. Segundo o Tribunal, a ausência de mecanismos adequados de rastreamento por lote dificulta identificar rapidamente a origem de um produto adulterado e adotar medidas para proteger o consumidor. O diagnóstico também aponta uma atuação ainda muito baseada em respostas posteriores às ocorrências, em vez de mecanismos preventivos orientados por risco.
O problema continua aparecendo em operações recentes.
Agora, em agosto de 2026, uma fiscalização conjunta do Ministério da Agricultura e Pecuária e da Polícia Civil do Paraná apreendeu 14.640 litros de bebida sem registro, em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. Segundo o Mapa, os produtos chegavam ao estabelecimento sem rótulos e não apresentavam informações que permitissem identificar fabricante, origem ou rastreabilidade.
O caso não significa que aquelas bebidas continham metanol ou necessariamente eram falsificadas. Mas mostra como a dificuldade de reconstruir o caminho percorrido por um produto segue sendo um problema concreto para a fiscalização.
Do controle da indústria para o celular do consumidor
É dentro desse cenário que tecnologias de autenticação começam a acrescentar uma nova camada de proteção.
No Selo Drink Seguro, apresentado pela Diageo, cada identificação possui uma espécie de “impressão digital” única, analisada por inteligência artificial. São mais de 27 trilhões de combinações possíveis e, segundo a companhia e a Securetrace, responsável pelo desenvolvimento da solução, a tecnologia apresenta 99,99% de eficácia anticópia.
Para o consumidor, a operação é mais simples do que a tecnologia por trás dela. Basta apontar a câmera do smartphone para o selo. Não é necessário baixar aplicativo nem realizar cadastro. Em poucos segundos, o sistema informa se aquela identificação foi validada.
A novidade está justamente em deslocar parte da capacidade de conferência para quem está diante da garrafa. Uma verificação que normalmente ficaria restrita aos processos internos da indústria ou aos mecanismos de fiscalização passa também a estar disponível para consumidor e estabelecimento comercial.
Mas existe um limite importante.
O selo não faz uma análise química do conteúdo da garrafa e não detecta metanol. Ele verifica a autenticidade da identificação e funciona como uma camada adicional de segurança relacionada à procedência e à integridade da embalagem.
A distinção é fundamental. Segundo a Anvisa, o metanol não possui cor, cheiro ou sabor característicos e sua identificação depende de análise laboratorial. Ou seja, nenhuma autenticação digital da embalagem deve ser interpretada como substituta dos controles sanitários ou de exames químicos quando houver suspeita de contaminação.
Autenticação, rastreabilidade e análise química, portanto, atacam partes diferentes do mesmo problema.
A discussão já chegou ao Congresso
A crise de 2025 também provocou uma movimentação legislativa em torno dessas diferentes camadas de proteção.
Um dos projetos em tramitação na Câmara dos Deputados propõe a criação de um Sistema Nacional de Rastreabilidade e Autenticação de Bebidas Alcoólicas Importadas. Apresentado em fevereiro deste ano, o PL 419/2026 está atualmente na Comissão de Defesa do Consumidor e ainda precisa percorrer outras comissões.
Outra proposta, o PL 5661/2025, prevê a criação de um Sistema Nacional de Rastreabilidade de Bebidas Destiladas, além de medidas de controle, fiscalização e resposta a emergências envolvendo bebidas adulteradas.
Há ainda um projeto que segue por outro caminho tecnológico. O PL 6186/2025 propõe o uso de testes rápidos para detecção preliminar de metanol durante fiscalizações. Caso o resultado seja positivo, a proposta prevê a possibilidade de adoção imediata de medidas preventivas enquanto análises mais completas são realizadas.
São propostas diferentes e que ainda dependem da tramitação no Congresso, mas revelam uma mudança importante no debate: depois da crise, a discussão deixou de se restringir à punição posterior à falsificação e passou a incluir também como identificar, rastrear e reagir mais rapidamente a produtos suspeitos.
Para o varejo, tecnologia também significa reputação
Supermercados, distribuidores, bares e restaurantes ocupam uma posição especialmente sensível nessa cadeia.
São eles que, em grande parte dos casos, fazem a última conexão entre o produto e o consumidor. Uma fraude cometida muito antes de a bebida chegar ao estabelecimento pode acabar sendo percebida pelo cliente como uma falha daquele ponto de venda.
A procedência, portanto, deixou de ser apenas uma questão interna de compras ou compliance. Tornou-se também um componente de reputação.
Para André Muller, vice-presidente Comercial e de Varejo da Diageo, o varejo tem papel central nesse processo. “O varejo é fundamental porque está diretamente conectado ao consumidor. O selo traz uma camada adicional de confiança tanto para quem compra quanto para supermercados, bares e restaurantes, que também passam a contar com uma ferramenta simples para verificar a procedência dos produtos.”
A própria experiência acompanhada pelo Varejo S.A. durante o lançamento do Selo Drink Seguro mostrou as duas faces dessa utilização. No supermercado, o consumidor conseguiu verificar a identificação diante da gôndola. No bar, a mesma ferramenta poderia ser utilizada pelos profissionais que recebem e manipulam as bebidas antes de servi-las.
Isso não elimina a responsabilidade de conhecer fornecedores, manter documentação fiscal, analisar condições de embalagem e estabelecer processos seguros de recebimento. Mas adiciona mais um ponto de conferência dentro da operação.
A preocupação também levou entidades do mercado a lançar o programa Bebida Legal, que oferece treinamento gratuito para profissionais de bares e restaurantes reconhecerem características de produtos autênticos, identificarem possíveis sinais de falsificação e reforçarem a importância da compra em canais oficiais.
Tecnologia, nesse contexto, funciona melhor quando acompanhada por processo.
Segurança não caberá em uma única solução
Os números mostram por que seria precipitado imaginar que um selo, um aplicativo ou um novo sistema de rastreabilidade seja capaz de resolver sozinho um mercado ilegal de R$ 55 bilhões.
A fraude pode envolver produção clandestina, reutilização de garrafas originais, falsificação de rótulos e lacres, sonegação, contrabando, distribuição irregular e comercialização por diferentes canais físicos e digitais.
A resposta tende, portanto, a ser formada por camadas de proteção.
Indústrias investem em autenticação. Autoridades discutem rastreabilidade e testes mais rápidos. Órgãos fiscalizadores tentam integrar informações. Varejistas reforçam o controle de fornecedores e recebimento. E o consumidor começa a receber ferramentas para participar também da verificação.
Na avaliação de André Muller, o enfrentamento à falsificação precisa ir além de iniciativas isoladas. “Esse é um problema que não pertence a uma única empresa ou marca. Quanto mais o mercado conseguir avançar em soluções que deem segurança e transparência ao consumidor, melhor para toda a categoria. Estamos falando de uma iniciativa que pode abrir uma discussão muito maior dentro do setor.”
O lançamento do novo selo da Diageo é um exemplo recente desse movimento, não seu ponto final.
A crise do metanol mostrou que, quando uma bebida adulterada chega ao copo, descobrir a origem do problema depois pode ser tarde demais. O desafio agora é fazer com que indústria, varejo e poder público consigam identificar irregularidades antes que elas cheguem ao consumidor.
E, em um mercado no qual até uma garrafa original pode ser reaproveitada para uma fraude, a segurança tende a depender cada vez menos apenas daquilo que os olhos conseguem enxergar, e cada vez mais da capacidade de autenticar, rastrear e comprovar procedência.

