30 jul, 2026
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Comércio agêntico exige dados estruturados e pagamentos tokenizados no Fórum E-Commerce Brasil 2026

Em entrevista exclusiva ao portal Varejo S.A., José Luiz Alves Pereira, da Mastercard, explica como biometria, tokens e novos protocolos preparam o varejo para compras realizadas por agentes de IA

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Comércio agêntico exige dados estruturados e pagamentos tokenizados no Fórum E-Commerce Brasil 2026

A inteligência artificial já ajuda consumidores a pesquisar produtos, comparar alternativas e escolher o que comprar. O próximo passo é permitir que os agentes também concluam a transação. Para que isso aconteça em escala, porém, o varejo precisa garantir segurança, rastreabilidade e uma estrutura de dados capaz de ser interpretada pelas máquinas.

Em entrevista exclusiva ao portal Varejo S.A., mediada por Daniel Sakamoto, gerente executivo da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), José Luiz Alves Pereira, diretor responsável por pagamentos digitais na Mastercard, explicou como tecnologias já utilizadas no e-commerce formam a base para o avanço do comércio agêntico.

Entre essas tecnologias está a tokenização, processo que substitui os dados reais do cartão por um código criptografado e vinculado a um uso específico. Quando o consumidor salva o cartão em um marketplace, e-commerce ou carteira digital, cada relação recebe um token diferente.

Caso ocorra um vazamento, o código não pode ser utilizado livremente em outra operação, pois permanece associado àquele ambiente. “A tokenização retira os dados do cartão de circulação. Para cada relação é criado um token de uso único. Se houver algum processo de vulnerabilidade, o fraudador não consegue fazer nada com aquela credencial porque ela está vinculada àquele caso de uso específico”, explica Pereira.

Segurança e fluidez deixam de ser opostas

Durante muito tempo, aumentar a segurança significava adicionar etapas à jornada, como senhas, validações e redirecionamentos. Para o executivo, tokenização e biometria ajudam a reduzir essa oposição entre proteção e conveniência.

A Mastercard estabeleceu como meta que todas as transações de e-commerce em sua rede sejam tokenizadas até 2030. Segundo Pereira, o Brasil está entre os mercados mais avançados na adoção dessa tecnologia, já utilizada em grande parte das operações com cartão não presente.

O Click to Pay é uma das aplicações. A solução funciona como uma carteira digital incorporada ao checkout e reconhece o consumidor sem exigir que ele digite novamente os dados do cartão a cada compra. A experiência pode ser combinada ao Payment Passkey, recurso que utiliza a biometria do próprio dispositivo para autenticar a transação.

“Quando colocamos esses pilares no mercado, vislumbramos um e-commerce em que o consumidor não precisa mais digitar os dados do cartão nem uma senha. Ele é reconhecido pela biometria e realiza uma transação segura e fluida, independentemente do canal em que esteja comprando”, afirma.

Segundo o executivo, as transações tokenizadas registram, em média, cinco pontos percentuais adicionais na taxa de aprovação no Brasil. O resultado pode variar conforme o comércio e o perfil da operação, mas também inclui redução das ocorrências de fraude.

Agente já pesquisa, mas agora começa a comprar

A popularização das interfaces conversacionais modificou o início da jornada. Em vez de recorrer apenas aos buscadores tradicionais, consumidores passam a utilizar ferramentas como ChatGPT e Gemini para explicar uma necessidade, solicitar recomendações e comparar produtos.

Até recentemente, essa experiência terminava antes do pagamento. Depois de escolher o produto, o usuário precisava sair da plataforma de IA, entrar no site da loja e seguir o checkout convencional. Novos modelos começam a permitir que o próprio agente execute essas etapas. O problema é que as primeiras experiências não ofereciam ao ecossistema financeiro informações suficientes sobre quem estava realizando a compra e sob qual autorização.

“O agente resolvia uma dor de jornada, mas o emissor não sabia que aquela transação estava sendo realizada por um agente. O varejo também não tinha uma integração estruturada de catálogo, inventário e pagamento, e o consumidor não tinha clareza sobre a quem recorrer caso o agente fizesse algo errado”, explica Pereira.

Para enfrentar essas lacunas, a Mastercard desenvolveu o Agent Pay, estrutura voltada a integrar agentes ao ecossistema de pagamentos.

Quem é o agente e o que ele pode comprar?

A proposta é sustentada por três pilares. O primeiro é identificar e validar o agente, em uma lógica chamada de know your agent, semelhante ao processo de conhecimento do cliente utilizado pelo sistema financeiro.

Cada agente autorizado recebe uma identificação própria. Assim, emissores, credenciadores e varejistas conseguem reconhecer que a compra foi iniciada por uma ferramenta legítima e que ela atua em nome de determinado consumidor.

O segundo pilar é a padronização da comunicação entre agente e varejista. Protocolos de interoperabilidade permitem que a IA consulte catálogo, estoque, preço, prazo e condições de pagamento sem depender de integrações diferentes para cada operação.

O terceiro é o registro da intenção verificável do consumidor. Como o agente passa a agir em nome de uma pessoa, torna-se necessário documentar os limites da autorização. “Antes, o consumidor comprava diretamente no varejo. Agora existe um agente comprando em seu nome. Por isso, criamos um processo para delegar esses poderes, definir o escopo e deixar tudo registrado”, afirma.

O usuário pode determinar, por exemplo, que o agente procure uma bicicleta de até determinado valor, entregue em endereço e prazo específicos. A autorização também pode estabelecer quando o agente poderá concluir a compra e por quanto tempo aquele token continuará válido.

Essa estrutura atende tanto às compras assistidas, realizadas durante uma conversa, quanto a operações futuras com maior autonomia. “O agente poderá agir, mas sem abrir mão de controle ou segurança. Ele vai operar sobre um escopo muito bem definido e registrado”, explica.

Ecossistema brasileiro já possui parte da infraestrutura

Embora o comércio agêntico ainda esteja em fase de desenvolvimento, boa parte das tecnologias necessárias já existe. Tokenização, autenticação biométrica e integração entre participantes do sistema financeiro vêm sendo implementadas há alguns anos.

O elemento novo é a inclusão dos agentes nesse ambiente e o compartilhamento de informações adicionais sobre a origem e os limites de cada transação.

Segundo Pereira, a Mastercard já realizou testes com mais de 17 emissores na América Latina, incluindo instituições brasileiras, para verificar o recebimento e o processamento de transações iniciadas por agentes. “A boa notícia é que o ecossistema já está bastante maduro para esse novo caso de uso. O comércio agêntico deve se tornar mais um canal relevante, coexistindo com lojas físicas, e-commerce, marketplaces e outras formas de transação”, avalia.

Site bonito não é suficiente para o agente

A mudança também exige uma adaptação dos lojistas. Enquanto uma pessoa pode ser influenciada pelo visual, pela narrativa e pela apresentação da página, o agente analisa principalmente dados. “O agente não vai ver o site bonito. Ele vai ver um catálogo bem integrado, inventário, dados e tecnologias corretas”, resume Pereira.

Informações sobre produtos precisam estar organizadas, atualizadas e acessíveis pelos protocolos utilizados no comércio agêntico. Isso envolve disponibilidade, preço, dimensões, características, condições de entrega e regras comerciais.

Grandes varejistas podem desenvolver integrações próprias. Para pequenas empresas, o caminho tende a passar pela escolha de plataformas, ERPs, CRMs, meios de pagamento e fornecedores preparados para conectar a operação aos novos ambientes.

“O micro e pequeno varejista não precisa investir diretamente em toda a tecnologia. Ele precisa investir no parceiro certo. É esse parceiro que deve ter tecnologia, acompanhar as tendências e preparar a empresa para essas integrações”, afirma.

Conversa substitui filtros tradicionais

As aplicações mais próximas já aparecem dentro dos próprios canais dos varejistas. Pereira citou o Shopping Muse, solução de IA conversacional incorporada à busca de lojas virtuais.

Em vez de selecionar filtros como categoria, tamanho e cor, o consumidor descreve sua necessidade. Pode informar, por exemplo, que trabalha em um ambiente formal, prefere tons de azul e cinza e busca roupas de estilo mais clássico.

A inteligência artificial interpreta o contexto e apresenta produtos compatíveis com o perfil. Nesse estágio, o pagamento ainda ocorre no checkout tradicional, mas a descoberta já se torna conversacional e personalizada. “O consumidor se acostumou com a jornada conversacional e vai buscar cada vez mais esse tipo de experiência”, avalia.

Para o executivo, o comércio agêntico deve evoluir por etapas: primeiro, com personalização e busca dentro das próprias lojas; depois, com compras assistidas em plataformas de IA; e, futuramente, com agentes capazes de realizar transações de forma mais autônoma, sempre dentro dos limites definidos pelo usuário.

O Fórum E-Commerce Brasil 2026 conta com apoio institucional da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e tem o portal Varejo S.A. como media partner oficial.

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