Opinião

Por que o frete se tornou o vilão das vendas online no Brasil?

Por Nathan Moojen*

É fato que, com a chegada da pandemia da COVID-19 e do isolamento social, as vendas online se tornaram muito mais frequentes. Um estudo da Ebit/Nielsen em parceria com a Elo mostrou que o faturamento das vendas online registrou um aumento de 47% no primeiro semestre de 2020. Não foi coincidência: para evitar o contágio, passamos da compra física, muito comum no Brasil antes da pandemia, para mergulhar no e-commerce.

Mas, quando um pedido é feito online, é necessário entregá-lo, certo? É aí que vem o dilema do brasileiro quando tratamos de comércio eletrônico: com o aumento no volume de vendas, o problema com as entregas estourou. Isso levou a fretes mais caros, prazos de entrega maiores e o chamado “frete grátis” cada vez menos frequente. Alguns fatores contribuíram para tal cenário.

O primeiro é que ninguém esperava por isso. Ou vai dizer que alguém iria imaginar que uma doença obrigaria todo o mundo (literalmente) a ficar em casa? E, indo além, ainda levaria ao fechamento de grande parte dos comércios de rua. Muitos varejistas e atacadistas não esperavam essa alta demanda do online e não puderam se planejar com antecedência. Mesmo aqueles que já tinham certa estrutura digital tiveram que aumentar suas equipes ou repensar seu modelo de trabalho.

O segundo ponto tem a ver com as transportadoras. De acordo com a Agência Nacional de Transportes, existem hoje, no Brasil, mais de 700 mil transportadoras e frotas registradas, entre autônomos, empresas e cooperativas, somando quase 2 milhões de veículos. Uma pesquisa do impacto da Covid-19 no transporte, realizado pela CNT (Confederação Nacional de Transporte), mostrou que 67,4% das transportadoras entrevistadas tiveram prejuízo financeiro durante a pandemia, afinal, nem todas atuam no segmento de entrega de comércio eletrônico. Isso fez com que essas empresas não conseguissem expandir seu modelo de negócio para atender às novas demandas geradas pelas compras online.

Outro fator está relacionado aos altos custos rodoviários. Enviar uma encomenda do Rio Grande do Sul para o Paraná pode parecer simples, mas a realidade mostra que não é bem assim: inúmeros custos incidirão no valor final do frete, entre eles as altas taxas de pedágios cobrados em alguns estados, a depreciação dos veículos de transporte, os impostos que incidirão sobre o CTR (Conhecimento de Transporte Rodoviário), entre outros. Tudo isso somado faz com que as transportadoras dificilmente consigam cobrar um valor que pode ser considerado viável para empresários e usuários do transporte rodoviário de cargas do Brasil.

A logística ainda interfere nos prazos de entrega. O Brasil é um país muito grande e sua malha é extremamente precária em algumas regiões. O Sul e Sudeste, por exemplo, possuem estradas e rodovias melhores, embora a maioria seja pedagiada. Isso sem contar com algumas localidades de difícil acesso, como aquelas em que é necessário o uso de balsas para entregar os produtos ao destino final. Normalmente, elas estão localizadas nos estados do Acre, Amazonas, Amapá e Pará. Assim, nessa área, o prazo de entrega fica muito maior do que em outras.

Outro problema que afeta o preço e o prazo de entrega dos fretes é a centralização dos centros de distribuição. Em geral, as cotações de frete que tem origem e destino no Sul e Sudeste do Brasil são mais baratas em relação às outras regiões. Isso acontece porque a maior parte dos pedidos online que são efetuados no Brasil estão localizados nessas regiões, fazendo com que os centros de distribuições também se instalassem nesses locais. Porém, a realidade pós-COVID-19 é outra: um estudo da Nuvemshop, apresentado no evento ‘Potencialize-se E-commerce’, apontou que, das 17 regiões que apresentaram aumento nas vendas acima da média nacional no 1º semestre de 2020, 13 estavam no Norte e Nordeste do Brasil.

Por último, vale destacar que, mesmo existindo dezenas de milhares de transportadoras no Brasil, é muito difícil fazer com que a loja virtual consiga otimizar o processo de cálculo de frete. Embora haja empresas que consigam fazer a cotação em várias transportadoras ao mesmo tempo, essas ferramentas não estão acessíveis a todos.

Por tudo isso, o custo do frete da venda online pode representar de 10 a 15% do valor total do pedido, um acréscimo significativo que, inclusive, impactou o “frete grátis” antes oferecido por algumas lojas. O aumento nos custos tornou a estratégia praticamente inviável, fazendo com que as empresas revejam suas políticas para o custeio das entregas. Falei aqui de problemas que já existiam, claro, mas que a pandemia potencializou. Agora ficou mais evidente do que nunca a necessidade de uma reorganização em toda a cadeia para atendermos a essa nova demanda – que veio para ficar.

*Nathan Moojen é fundador e CEO do marketplace Moda Online.

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