Downsizing traz riscos à eficiência organizacional
Empresas de porte menor, com uso de IA, são tendência, mas corte de estrutura e pessoal pode prejudicar resultados e deteriorar ambiente de trabalho
Envato
O downsizing, ou enxugamento da estrutura e quadro funcional visando cortar gastos e obter mais lucro e resultados, é visto como uma tendência global, em especial com o avanço da Inteligência Artificial, mas, se mal planejado e conduzido, pode trazer consequências negativas para as corporações. É o que sustenta um estudo realizado pela EAESP FGV, que apontou riscos de a estratégia ser um tiro no pé, tendo como consequência redução da eficácia operacional e deterioração do ambiente de trabalho.
No estudo, baseado em experiências e em pesquisas internacionais – como a “Downsizing: what do we know? What have we learned?” (Downsizing: O que sabemos? O que aprendemos?), do economista americano Wayne F. Cascio, da Universidade do Colorado, EUA –, o autor, Miguel Pinto Caldas, argumenta que esta prática empresarial parece ter virado norma, em vez de exceção. Mas ela pode levar ao fracasso, devido a consequências inesperadas, como as elencadas abaixo.
- Eficácia organizacional
- Queda na qualidade de produtos e serviços
- Deterioração da produtividade e desempenho da organização
- Queda do valor das ações no mercado
- Perda da visão estratégica, dificuldade de competir e foco excessivo no curto prazo
- Estagnação ou queda de vendas
- Estagnação ou queda de lucros
- Eficiência interna
- Perda de experiência
- Eliminação de memória organizacional
- Baixa coletiva no espírito empreendedor e na propensão a assumir riscos
- Aumento da burocracia
- Redução de rapidez e qualidade na tomada de decisões
- Deficiências na troca de informações; crises de comunicação
- Ambiente de trabalho
- Perda de lideranças
- Queda na participação em programas de envolvimento de pessoal
- Perda de familiaridade entre unidades
- Redução do trabalho em equipe
- Deterioração do clima organizacional; aumento do conflito, política e estresse organizacionais
O fim do conceito “quanto maior, melhor”
Os riscos de perdas para as organizações e prejuízos a funcionários e sociedade também são abordados em artigo publicado no site CEO Today. Segundo o texto, ficaram para trás os tempos de “quanto maior, melhor” e as empresas não se assemelham mais a perfis como o da Ford – que em 1930 tinha mais de 200 mil trabalhadores – e da General Electric, um símbolo da América corporativa, que empregava milhares de pessoas. Como consequência principalmente da IA, da automação e de modelos de negócios digitais, as megacorporações estão encolhendo, enquanto as microempresas alimentadas por IA ocupam seu lugar.
No boom do pós-guerra mundial, os mega empregadores dominaram. O artigo do CEO Today destacou que, em 1955, as 500 maiores empresas dos EUA empregavam um terço da força de trabalho do país, consolidando a ideia de que os gigantes corporativos eram o motor da prosperidade. De lá para cá, porém, a ideia de que “menos pode ser mais” avançou. Como resultado, nos anos 90 e década de 2000 passaram por downsizing empresas como IBM, GE e AT&T. Nos últimos anos, mais empresas promoveram cortes, como:
- Meta (Facebook): em 2022, Mark Zuckerberg cortou 11.000 empregos (13% da equipe); uma segunda onda elevou o total para 21.000 demissões.
- Klarna: a gigante fintech informou que os bots de atendimento ao cliente com IA lidam com dois terços das solicitações de suporte, permitindo que a empresa reduza seu número de funcionários em 40%.
- Ford: em 2023, o CEO Jim Farley previu que a IA poderia acabar com metade das “funções de colarinho branco” no setor automotivo.
- JPMorgan: o banco estima que a IA poderia cortar 10% das funções de back-office, principalmente em conformidade e documentação.
Microempresas florescem e às vezes têm só uma pessoa
À medida que as megacorporações diminuem, continuou o artigo da CEO Today, as microempresas estão florescendo. São empresas pequenas e ágeis – geralmente com menos de 100 funcionários – alimentadas por ferramentas de IA que substituem equipes enormes. Muitas startups têm apenas uma pessoa, realizando tarefas que antes eram desempenhadas por 50 indivíduos. O CEO da OpenAI, Sam Altman, chegou a prever a ascensão da “empresa de bilhões de dólares de uma pessoa”.
Mas o enxugamento excessivo de funcionários pode gerar cenários muito negativos. Um estudo da consultoria McKinsey projeta que, até 2030, 400 a 800 milhões de empregos poderão ser substituídos globalmente pela automação e uso de IA. Já nas empresas com quadro de funcionários cortados, pode haver lacuna de treinamento para conhecimentos futuros. E a dependência excessiva da IA pode trazer riscos sistêmicos em setores como saúde, direito e finanças, onde os erros podem ser catastróficos. Em resumo, disse o artigo, a IA pode ajudar as empresas a se tornarem mais enxutas e lucrativas, mas há o risco de se criar uma força de trabalho menor, menos experiente e mais precária, com elevado custo humano.
Resultados podem ser positivos com bom planejamento
Mas o downsizing, claro, também traz resultados muito positivos, desde que o processo seja bem dimensionado e conduzido, conforme argumentou artigo no blog da Gupy, uma empresa de RH. Redimensionar a quantidade de colaboradores indica mudanças para aumentar a rentabilidade do negócio. Ao notar que a organização está adotando medidas para otimizar a lucratividade, investidores e acionistas podem enxergar este movimento como um bom sinal. Em consequência, o valor de mercado das ações da empresa pode subir. Porém, é importante lembrar que efeitos positivos só ocorrem quando a estratégia de downsizing é feita com transparência.
Privatizações ou novas aquisições, com a finalidade de garantir a sobrevivência da empresa, também podem motivar o downsizing, visto que fusões e criação de holding podem gerar problemas como a redundância de funções e, por isso, pode ser preciso diminuir o número de colaboradores. Em mais um cenário, a companhia pode optar pelo enxugamento de sua estrutura, ao perceber que a terceirização de determinadas atividades gerará resultados como a redução de custos ou o aumento da produtividade.

