25 abr, 2026
0 ° C

Liderança exige equilíbrio entre envolvimento e distanciamento crítico

Liderança exige equilíbrio entre envolvimento e distanciamento crítico

Shutterstock
Liderança exige equilíbrio entre envolvimento e distanciamento crítico

“O patriotismo consiste, muitas vezes, em nos colocarmos na situação do estrangeiro e julgar nosso país como se nada tivéssemos com ele”. Essa foi a maneira que o escritor e diplomata brasileiro, Joaquim Nabuco, retratou em sua obra, de 1906, “Pensées détachées et souvenirs”, um conceito significativo tanto para a liderança quanto para a evolução no desempenho da empresa: o distanciamento crítico.

A ideia por trás da frase relaciona-se diretamente com o menor envolvimento e, portanto, um olhar mais objetivo sobre o contexto no qual está inserido. No caso narrado por ele, não se trata de escolher um país estrangeiro em detrimento da nação de origem, mas, sim, da capacidade de ter uma visão mais ampla e crítica, como alguém que olha à distância. O mesmo pode ser aplicado por líderes para avaliar os mais diversos aspectos do funcionamento, cultura e performance da empresa. No entanto, o desafio consiste em fazer uma análise crítica de maneira isenta e, antes de tudo, perceber a não neutralidade da sua visão.

Na mesma linha de raciocínio, o artigo de Betania Tanure para o Valor Econômico traz uma metáfora que deixa essa lógica mais clara. Ela parte do ditado “o peixe não vê a água” para ilustrar a dificuldade de ver o todo quando se está inserido nele. Essa aptidão para diagnosticar questões de forma neutra se torna ainda mais complexa diante da variedade de percepções que compõem uma organização e que nem sempre são percebidas pela alta gerência. Para Betania, mudar esse quadro, ou melhor, “para ver a água”, é preciso distanciamento crítico, método e coragem.

Distanciamento crítico, método e coragem

Em primeiro lugar, ela aponta que é preciso coragem ao se olhar no espelho e reconhecer seu sol e sua sombra. Ou seja, é preciso identificar os pontos positivos e negativos de si mesmo. E isso passa por entender que, por mais que alguém se considere um profissional competente para realizar o trabalho, ainda é parte de um todo e, por isso, não é neutro. A liderança não é encarada pelos outros colaboradores com neutralidade e, conforme os dados expostos pela autora, 65% das pessoas preferem não discordar de quem tem mais poder.

Por esse motivo, a visão do líder dificilmente irá corresponder completamente à realidade da empresa. Nesse momento, a sócia-fundadora e consultora na Betania Tanure Associados, ressalta a importância de “ter o apoio de quem pode ajudar a enxergar as ‘rugas’ que seu espelho teima em esconder, ou que você já se acostumou a ignorar”. Além disso, os instrumentos corretos também são considerados estratégicos para que o peixe navegue pela água sem se confundir com o aquário.

Em consonância com a proposição de Betania, o filósofo Mario Sergio Cortella afirma que o distanciamento crítico permite uma ação mais colaborativa em prol de um objetivo comum, que vai desde projetos, amizades e afetos até casos como o citado por Joaquim Nabuco.

“Com um envolvimento menor, podemos olhar com mais objetividade e, desse modo, termos uma perspectiva e uma ação muito mais colaborativas e de liderança. É adotar uma posição crítica que aumente a nossa perícia e a nossa capacidade benéfica de melhorar aquilo que precisa ser melhorado”, explicou Cortella.

What's your reaction?