Negócios em transição energética: oportunidades para médias empresas brasileiras
Uma pesquisa da consultoria Deloitte revelou que 76% dos consumidores preferem comprar de empresas comprometidas com a sustentabilidade
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A transição energética deixou de ser uma agenda restrita a grandes corporações e governos e, cada vez mais, médias empresas brasileiras percebem que investir em energia renovável e eficiência energética pode significar não apenas redução de custos, mas também ganho competitivo em mercados nacionais e internacionais. Na verdade, empresas de qualquer porte podem se beneficiar, mas os estudos mostram que as médias têm maiores oportunidades.
Relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (IEA), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que o tema entrou de vez no radar do setor produtivo. À medida que o mundo acelera esforços para mitigar as mudanças climáticas, o termo “negócios em transição energética” deixou de ser político para se tornar fonte concreta de vantagem competitiva para empresas no Brasil.
No cenário global, a capacidade instalada de geração renovável no mundo cresceu cerca de 50% em 2023, com a energia solar fotovoltaica respondendo por 75% desse acréscimo, segundo o relatório da IEA Renewables.
Sob a pressão de regulamentações ambientais mais rígidas e de consumidores cada vez mais atentos a práticas sustentáveis, as médias empresas brasileiras podem desempenhar um papel central na descarbonização da economia brasileira.
Uma pesquisa da consultoria Deloitte, inclusive, revelou que 76% dos consumidores preferem comprar de empresas comprometidas com a sustentabilidade. Além disso, fundos de investimento e bancos observam cada vez mais as métricas ESG (ambiental, social e de governança) na hora de decidir onde alocar recursos — um fator decisivo para atrair capital e crescer no mercado.
Crescimento das renováveis e o papel do Brasil
De acordo com a IEA, a capacidade instalada de geração renovável no mundo cresceu 50% em 2023, puxada principalmente pela energia solar fotovoltaica. O Brasil já se destaca nesse cenário: a matriz elétrica nacional é uma das mais limpas entre as grandes economias, com predominância de fontes hidrelétricas, solar, eólica e biocombustíveis, segundo dados do Governo Federal.
Esse avanço também impactou o setor de gás natural. Dados da IEA mostram que o consumo de energia caiu cerca de 9% nos primeiros onze meses de 2023, reflexo do aumento da oferta de fontes renováveis e da boa hidrologia.
Importante lembrar que o gás natural, embora de origem fóssil, tem emissões limpas e vem sendo considerado, no Brasil, um combustível de transição. A matriz elétrica brasileira já é reconhecida como uma das mais limpas entre as maiores economias, e o biogás e o biometano, com características idênticas ao gás fóssil, vêm ganhando espaço.
Desafios para médias empresas brasileiras
As médias empresas ainda enfrentam barreiras relevantes para avançar em negócios ligados à transição energética. O custo elevado de energia é uma delas. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o preço do gás natural no Brasil chega a US$ 20 por MMBtu (cerca de R$ 112), um dos mais caros do mundo. Além disso, o preço do gás natural aqui é dez vezes maior que nos Estados Unidos e o dobro da média europeia, segundo a Agência Brasil.
A tributação aparece em segundo lugar como desafio para indústrias e empresas criarem negócios em transição energética. Segundo a CNI, para 60% das indústrias, a carga tributária é o fator que mais pesa na conta de luz, seguida por custos de transmissão e subsídios. O capital inicial elevado também figura como desafio neste cenário. Projetos de geração renovável ou eficiência energética demandam investimentos, o que muitas vezes trava iniciativas em empresas de médio porte.
Mesmo diante dos obstáculos, há espaço para inovação e competitividade. Entre as principais oportunidades para médias empresas, destacam-se:
- eficiência energética: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou o FGEnergia, um fundo que tem como objetivo garantir crédito para pequenas e médias empresas investirem em projetos de eficiência energética. A iniciativa permite a modernização de equipamentos e redução de desperdícios, com impacto direto nos custos operacionais;
- geração distribuída: ainda em 2023, o BNDES aprovou financiamento para 49 usinas fotovoltaicas em 28 municípios, beneficiando mais de 4.500 micro, pequenas e médias empresas. A geração distribuída reduz a dependência da rede elétrica e ajuda a mitigar riscos de instabilidade no fornecimento;
- hidrogênio verde e descarbonização: segundo a CNI, o hidrogênio sustentável é visto como alternativa para descarbonizar setores como indústrias química, fertilizantes, siderurgia e cerâmica. Segundo a entidade, essa tecnologia pode se tornar “uma nova fronteira energética para o Brasil”.
Boa parte do sucesso da transição passa pelo investimento em capacitação. A introdução da eficiência energética e das renováveis exige conhecimento técnico e estratégico, assim como a formação de parcerias alinhadas com o setor. Algumas universidades brasileiras e centros de pesquisa têm desempenhado papel importante nesse processo. Programas de extensão, cursos e consultorias especializadas oferecem formação avançada para gestores e colaboradores interessados em implementar práticas mais sustentáveis.
Além disso, iniciativas de cooperação público-privada têm ganhado destaque. Desde 2022, o apoio do Governo Federal a consórcios industriais focados em energias limpas permitiu que empresas de médio porte pudessem dividir custos e riscos associados a projetos de grande escala, como parques eólicos e projetos fotovoltaicos.
Na prática, regulamentações globais, como o CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira), que começa a ser implementado pela União Europeia em 2026, trará taxação extra para produtos de países com altos níveis de emissão de carbono. Isso coloca empresas brasileiras, especialmente as exportadoras, em desvantagem caso não invistam na mitigação de suas emissões. Por outro lado, isso representa uma oportunidade para empresas que querem trabalhar com a transição energética.
Novas oportunidades
Um dos setores mais promissores é o de geração distribuída, especialmente por meio da energia solar fotovoltaica. Com o custo médio dos painéis solares reduzindo globalmente em mais de 85% na última década, segundo a BloombergNEF, o modelo se tornou acessível para médias empresas. Ao investir em geração própria de energia, essas organizações não apenas reduzem custos em um país onde a energia elétrica é cara, mas também se protegem contra oscilações no preço das tarifas e riscos de instabilidade de fornecimento. Além disso, a possibilidade de vender o excedente energético à rede representa uma fonte adicional de receita.
Outro grande campo de oportunidades está ligado à implementação de projetos de eficiência energética. De acordo com o Manual de Eficiência Energética da CNI, empresas que investem na modernização de equipamentos, como motores elétricos e sistemas de refrigeração, podem reduzir o consumo de energia em até 30%. Além da economia, empresas que adotam práticas energéticas mais racionais conseguem um diferencial competitivo no mercado, ao reduzirem sua pegada de carbono e atenderem às exigências de consumidores e investidores alinhados a critérios ESG.
A economia circular e a transição energética também estão profundamente conectadas e representam oportunidades de negócios complementares. Empresas têm apostado em soluções tecnológicas que integram a reutilização de materiais a modelos de produção mais sustentáveis. No setor industrial, isso pode significar combinar painéis solares ou eólicos com tecnologias de reciclagem de resíduos ou reaproveitamento de calor em processos fabris. Além disso, iniciativas para o reaproveitamento de baterias de lítio utilizadas em veículos elétricos ou sistemas de armazenamento fotovoltaico estão ganhando força, permitindo às empresas agregar valor em mercados que buscam soluções completas e de baixas emissões.
O crescimento da mobilidade elétrica no Brasil também abre novas possibilidades. Empresas que investem na instalação de estações de carregamento para carros elétricos já estão captando uma fatia importante desse mercado em expansão. A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) indica que o Brasil registrou, em 2024, cerca de 173.530 emplacamentos (+ 85% no comparativo com 2023) de veículos elétricos. Em suma, a perspectiva de aumento da demanda cria novas oportunidades de negócios, tanto para fornecimento de infraestrutura de carregamento quanto para empresas que desenvolvem tecnologias para aumentar a eficiência e sustentabilidade da mobilidade urbana. Empresas que inovam nesse campo estão alinhadas às tendências globais e preparadas para atender uma demanda crescente do consumidor brasileiro.

